ColunistasRosemary Fernandes da Costa

A espiritualidade é sempre libertadora?

Em muitas comunidades estamos ouvindo um termo que não é novo, mas parece que vem ganhando lugar e, talvez, um sentido novo: espiritualidade libertadora.

Você também está percebendo esse termo sendo retomado?

Se olharmos com atenção para as duas palavras que se conjugam nessa expressão – espiritualidade + libertadora – talvez até possamos estranhar e nos perguntar, por exemplo: mas toda espiritualidade não é libertadora? A espiritualidade é um convite para ouvirmos a voz de Deus em nós mesmos, nas pessoas, na natureza, nos acontecimentos. Sendo assim, a espiritualidade nos conduz a mudanças que nos libertam do que nos limitava, certo?

Isso mesmo, mas vamos nos aproximar mais um pouco dessa expressão, com carinho e escuta para o momento atual. Ela retorna e não é à toa. Ela retorna porque nos traz novos convites da parte de Deus.

A palavra – espiritualidade – vem de espírito. É bastante comum ser entendido como o contrário da matéria, ou seja, o que é espiritual não é material, não tem corpo. Um exemplo cotidiano é se referir a uma pessoa como muito espiritual, quando ela vive sem se preocupar com o material, às vezes, nem sequer com seu próprio corpo, apenas cuidando das práticas espirituais.

É importante lembrarmos de que, nesse caso, estamos diante de uma dicotomia, que separa corpo e alma, espírito e matéria. Também conhecemos esse jeito de pensar como dualismo. Esse é um pensamento que não vem da cultura judaico-cristã, mas sim da cultura grega. Como foi um verdadeiro império cultural, este pensamento se alastrou por toda a Europa e chegou nos povos colonizados pelos europeus como, por exemplo, no Brasil.

Mas se olharmos nossos povos originários, veremos que vivem de forma integrada o corpo, a mente, a natureza, o espiritual. Não há separação, sua espiritualidade é a própria vida.

Ainda nessa reflexão, voltemos nosso olhar para o povo da Bíblia, para as narrativas bíblicas, e vamos encontrar outro jeito de pensar o espírito, não como uma oposição à matéria e muito menos ao corpo. Na Bíblia, espírito significa vida, construção, força, ação, liberdade. O espírito não é algo que está fora da matéria ou fora do corpo. Ao contrário, o espírito está dentro, habita a matéria, dá vida, faz a pessoa ser o que é, além de animá-la, fortalecê-la, movimentá-la. O espírito lança as pessoas no crescimento, na criatividade, na liberdade.

Nós mesmos, quando falamos do espírito de uma pessoa, estamos nos referindo a como ela é profundamente, aos seus ideais, seus sonhos, suas paixões, suas lutas, e de como ela contagia com seu ânimo.

No hebraico, temos uma linda palavra para nos falar sobre o espírito – ruah – é vento, respiração, hálito. A ruah é feminina, é sopro, é disposição, é ânimo. Pode ser ligeira, potente, envolvente e também imprevisível. É como o hálito da respiração. É o melhor da vida, traz vigor, sustenta e impulsiona.

Lindo demais, não é? Conduz-nos por um caminho poético, com tantas palavras… e é isso mesmo. O Espírito – divina ruah -, é poesia, porque é infinita, abre muitas possibilidades, como brisa, como vento, mas sempre imprimindo movimento, dinamismo.

Trazemos um autor que muito nos ajuda a pensar sobre a espiritualidade libertadora – Segundo Galilea. No livro O caminho da espiritualidade (Paulinas, 1985) ele se refere à espiritualidade como a grande motivação que vai penetrando nossa vida e, com isso, criamos projetos e compromissos. Mas não é apenas um motivo, uma razão. É mais profundo. É uma motivação unida a uma mística, que faz com que o compromisso tenha um sentido que passa pelo presente, mas não se firma apenas nele. É uma mística que reconhece os passos que antecederam sua vida, as histórias, as memórias, as pessoas, os ancestrais, os povos originários. Ou seja, é uma mística que traz o passado como sabedoria originária, como fonte. Mas também é uma mística que impulsiona para o futuro. Enfim, uma mística que se situa no presente, mas como ponte para alcançar o futuro, como meio para contribuir para um fim último.

Nesse ponto de nossa reflexão, já podemos retornar à questão do início – espiritualidade libertadora. Ela é libertadora por muitas razões, e uma delas é essa comunhão entre passado, presente e futuro. Como é esse movimento? Ela traz o passado, o reverencia. Ela vive e experimenta o presente, e atua nele. Ela lança os fundamentos para o futuro, cuida da terra e da semeadura, mesmo que não veja a colheita, mas porque acredita na colheita. E mais. Acredita que a colheita não é apenas fruto do seu fazer, mas principalmente, que participa de um fazer maior, no qual Deus é presente e cuida da gestação da vida nova para todas e todos, para toda a Criação.

Ela é libertadora porque, ao se deixar conduzir pela experiência de um Deus vivo e presente, toda a existência se coloca em movimento, toda a vida se torna um caminho.

Ela é libertadora porque, ao colocar toda a vida no movimento que o Espírito imprime, ela vai provocando revisões de nossos hábitos, gestos, escolhas, e vai nos provocando a mudar a vida, desde o nosso jeito de rezar, de pensar, até nossa forma de agir em cada situação.

Ela é libertadora porque, ao chegar à dimensão profunda de cada ser humano, ela potencializa o sagrado em nós, ou seja, ela mobiliza a solidariedade, o amor, a compaixão, a resistência, a coragem de denúncia, o discernimento profético.

Hoje, viver a espiritualidade libertadora é um caminho pessoal e, ao mesmo tempo, comunitário, pois o Espírito que impulsiona, nos conduz à vida em comunhão com a humanidade e com nossa Mãe Terra.

Rosemary Fernandes da Costa

Comunidade Batismo do Senhor – Duque de Caxias – RJ

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