ColunistasRosemary Fernandes da Costa

A experiência libertadora de nos sentirmos eternos aprendizes no amor que nos integra

Quando falamos em espiritualidade libertadora também estamos falando de vida comunitária, de experiências de trocas de saberes, sabores e dissabores, de construção de intimidade e relações de confiança.

Nesse aspecto, podemos vislumbrar muitas formas de vida comunitária. Pensemos juntos. Quais as formas de vida comunitária que vivemos, algumas de forma involuntária, outras passando por nossas decisões livres, algumas com mais afeto, outras até com alguns desafetos? E ainda podemos ir mais longe no espaço geográfico, no tempo histórico, e nos darmos conta de que nos relacionamos com pessoas, povos, culturas, crenças, espalhadas pelo mundo e pelo tempo.

Sim, isso mesmo, todas essas dimensões das relações humanas são fonte de experiências comunitárias, de provocação do dinamismo na sua subjetividade e também nos grupos com os quais cada pessoa se relaciona.

Ainda podemos abranger outras formas de vida comunitária. A comunhão com a natureza, com as plantas, com tantos seres vivos que experimentam a mesma Casa Comum, todos interligados.

Será que ainda tem mais dimensões em toda essa rede relacional? Sim, ainda temos as relações que não sabemos bem como nomear, ou que ousamos chamar de relações espirituais, ou de relações transcendentais. Essa dimensão também chega até nós, afeta nosso ser e nossas interações pessoais e ambientais.

Fazemos então, uma nova pergunta: em tantas dimensões relacionais, será que há algo que integra todas elas? Será que há algum ponto de intersecção em que nos sentimos em unidade, em comunhão, conectados, interligados?

Revisitamos um conceito muito querido na caminhada dos primeiros filósofos do mundo ocidental, na Grécia, mas também presente em outras filosofias e cosmovisões: o conceito de ethos.

O Ethos, para os pensadores gregos e de tantas culturas, é como uma fonte primeira, que está presente em todos os seres, como um ponto de unidade pessoal e, ao mesmo tempo, cósmico. Está nos seres humanos, nos animais, nas plantas, nas pedras, nas estrelas, no chão, no ar, no fogo, nas águas. Está no passado, no presente, no futuro. Um ponto de intersecção de onde brota a vida, o potencial relacional e criativo, as dinâmicas de conflito e de novas descobertas, a originalidade de cada ser e a complexidade presente em tudo. Os gregos falavam de ethos como um repouso, de uma morada interior, de um lugar onde apenas se é, plenamente.

Eu gosto do exemplo da linha que alinhava vários tecidos e constrói uma linda colcha de retalhos. Na complexidade da colcha, cada retalho é ‘si mesmo’ e, ao mesmo tempo, é o conjunto de tantos retalhos. A originalidade é demarcada, a diferença, e beleza de cada pequeno detalhe. A visão de conjunto constrói outra beleza, misteriosa, artesanal, infinita. A cada vez que se contempla a colcha se percebe mais detalhes e mais mistério.

Nas tradições espirituais essa fonte que integra tudo e todos é a centralidade amorosa que habita cada ser. Ao fazermos contato com essa centralidade amorosa em nós mesmos, encontramos o mesmo no olhar de outra pessoa, de outro, de outro ser, das estrelas, de todo o universo. Em um momento de profunda intimidade, sentimos essa conexão e nosso ser inteiro se integra. Sentimos junto, somos nós mesmos e somos todos.

A centralidade do amor habita nosso ser. É nossa identidade primeira, nossa vocação, nossa única realização e busca de caminhos compartilhados. Esse amor é incondicional e universal. É essa experiência que dá sentido à vida, que mobiliza para um sentido de viver que nos conduz às atitudes solidárias, de mãos dadas, de coração a coração, de sensibilidade com todos os seres animados e inanimados. Nas palavras de Leonardo Boff, “quando alguém ou alguma causa se fazem importantes para o outro, nasce um valor que mobiliza todas as energias vitais”.

Ao nos darmos conta desse ethos comum, resgatamos o que nos integra, e só a partir dessa integração podemos responder aos desafios atuais, porque ela é includente e abrangente.

Neste sentido, a espiritualidade libertadora nos convoca e provoca na direção das mediações éticas. E, por estarmos enraizados nessa dinâmica de integração profunda, a última palavra nas relações não é a desumanização e nem mesmo a desesperança.

Na espiritualidade libertadora, não há separação entre fé e vida, ao contrário, ela é profundamente integradora. O agir ético brota, assim, das múltiplas experiências de encontros e também de desencontros. Todas são ocasião de aprender a aprender, e sempre juntos, abertos, revendo e nos predispondo a novos passos.

Ergo os meus braços e meu coração
Por cada grão e cada gota desse mar
Glória à força viva que atua em mim
A vida vem nos lapidar
Braza

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