ColunistasRosemary Fernandes da Costa

A herança de Jesus acontece na Comunidade

A caminhada de Pentecostes, do sopro revolucionário da Ruah criadora e renovadora, será nossa inspiração e transpiração nesta reflexão. Iniciamos sendo tomados pelas mãos por uma mistagoga de nosso tempo, teóloga, grande amiga, companheira das Comunidades por onde passa, Tereza Cavalcanti. 

No domingo de Pentecostes, ela nos ofereceu uma profunda reflexão na página da IHU on line, dentro do projeto Ministério da Palavra na voz das Mulheres. Vale à pena ler toda a sua reflexão e ouvi-la pregar com sua simplicidade e profundidade de sempre, como quem balbucia o maior segredo em nossos ouvidos, entrega um tesouro de coração a coração. 

Segue a sua reflexão final, que nos conduzirá por esse caminhar:

O Espírito é a herança que Jesus nos deixou, para que não nos sintamos sós, abandonados/as, vencidas/os pelo medo, pelo cansaço ou pelo sofrimento. E essa herança é dada à Comunidade, não a um só líder ou iluminado. A comunidade é sustentada pelo Amor, pela solidariedade, pelo cuidado de uns com os outros e outras. Por isso a comunidade tem essa capacidade de perdoar, de esperar o momento do outro, aquele que se separou, voltar como a ovelha perdida. Mas o cuidado se expressa sobretudo no partir do pão, na comunhão de toda a vida! A partilha que reúne as diferenças numa unidade, como diz São Paulo na epístola aos Coríntios, porque um mesmo é o Espírito, na diversidade dos dons. E assim vamos caminhando em Igreja sinodal e cantando com o salmista: Enviai o vosso Espírito Senhor, e renovai a face da terra! E renovai a face da terra! 

Sl 104, 30

Pensemos, mais uma vez, no tema da relação entre pessoas e comunidades. Onde tudo principia? Como se constitui a identidade pessoal? Como a comunidade configura a sua própria identidade como diversa, múltipla, plural e, ao mesmo tempo, com projetos de comunhão nesta diversidade? 

Já sabemos que nossa identidade é relacional, é uma experiência de diálogo, alguns com nosso consentimento, mas muitos sem o nosso consentimento. São muitos os diálogos que chegam, nos ocupam, nos interpelam e revolucionam. Quando falamos de identidade religiosa e de comunidades de fé, estamos nesta mesma estrada: o diálogo constante. Mas, aqui temos um diferencial que é o diálogo com a Alteridade Divina. Um diálogo que é presente, interior e exterior, dinâmico, mas também histórico, mistagógico e escatológico, ou seja, um diálogo no qual nos inserimos em uma trajetória histórica que vem muito antes de cada um de nós e de nossas comunidades, um diálogo que é litúrgico, sacramental, eclesial e, também que nos atravessa e semeia para além do nosso tempo, até um novo tempo, o tempo kairológico, o tempo sagrado. 

Nossa mistagoga, Tereza Cavalcanti, nos chama a atenção para o sopro da Ruah em duas dimensões – como herança e em comunidade. 

A experiência das comunidades de fé é não apenas uma experiência de diálogo, de ética, de respeito mútuo, mas ela é sacramental, fundada, orientada, conduzida pela Ruah divina. O Espírito Mãe é presença circular que nos ajuda nas palavras, nas interpretações, na busca de soluções, no consolo aos aflitos. O Espírito Mãe age na comunidade e a torna sinal sacramental e testemunho onde quer que estejamos. Isso mesmo. O Espírito Mãe que conduz a comunidade, conduz a cada membro e membra da comunidade, onde quer que esteja. 

Nesse ponto, gostaríamos de resgatar um fundamento da Comunidade de fé que muitas vezes percebemos esquecido, delegado a um rito vazio, como uma mesa que deve estar no centro da sala, mas nem se sabe bem o sentido de estar ali. Estamos falando da Mesa da Palavra. 

Sim, infelizmente, em muitas comunidades, as preocupações estéticas ou formais ocuparam o primeiro plano. Olhares, palavras, gestos, vestes, vigilâncias, cuidam de detalhes estéticos solenes, mas tantas vezes, distraídos completamente da centralidade que reúne e orienta a Comunidade: a presença do Amor Divino gestando e conduzindo a tudo e a todos. 

E, se a Palavra não está em sua centralidade, o que será que pode estar? Em uma sociedade de muitas palavras vazias de sentido profundo, que nos conduzem para longe de nós mesmos e, principalmente, para o individualismo e o isolamento, é preciso um cuidado mistagógico com a Palavra Sagrada. É ela que gesta, alimenta e orienta a Comunidade. 

Para o caminho cristão, vivenciado por muitas Comunidades, a Palavra é tradicionada na Comunidade e pela Comunidade. A Palavra é dabar, é viva, dinâmica, fala a cada pessoa na história e para além da história. A Palavra que se revela é acolhida por cada pessoa e em cada contexto. 

Nesse diálogo vivo entre o Amor Divino e a comunidade, não existem respostas prontas ou mesmo receitas a serem repetidas. É sempre novidade, interpelação, desconstrução, convite a novas atitudes que respondam à proposta que vem chegando no sopro divino. 

E é assim que a Comunidade se constitui. São muitas dimensões, mas todas tecidas juntas, uma se comunicando com a outra – pessoas plurais, contextos diversos, formas de viver e de pensar, memórias, situações sociais, fatos históricos, espaços ambientais, sinais do tempo, ideias para além do tempo, palavras das Comunidades que nos antecederam, inspirações e novos frutos. Tudo vai sendo apresentado com humildade e firmeza na Comunidade que é constituída nesse fazer coletivo. 

A Palavra Divina revelada, acolhida e assumida na vida torna-se testemunhal, torna-se fato, torna-se presença real, histórica e, por isso mesmo, sacramental e revolucionária.

Retomemos sempre o caminho. Os primeiros cristãos eram assim chamados – aqueles do Caminho. Caminhar é enraizar, firmar os pés, um de cada vez. Caminhar é se saber em movimento, é reconhecer o antes, o durante e o que ainda vem. Caminhar é dar as mãos, esperar o tempo das irmãs e irmãos, é dialogar com tudo que está no entorno de cada situação. Uma Comunidade sem a Palavra, pode ser uma comunidade sem história, sem memória, sem alimento, sem orientação, sem comunhão. 

Cantamos com Agostinha Vieira de Mello:

Desça como a chuva a Tua Palavra
Que se espalha como orvalho,
 como chuvisco na relva
Como aguaceiro na grama, amém!

Agostinha Vieira de Mello

Referência: 

Tereza Cavalcanti. Pentecostes – Ano C – No sopro do Espírito Santo, Deus entre nós e dentro de nós. In: IHU ON LINE, https://www.ihu.unisinos.br/619206-domingo-de-pentecostes-ano-c-no-sopro-do-espirito-santo-deus-entre-nos-e-dentro-de-nos, junho de 2022. 

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