Carlos JardelColunistas

A Igreja precisa cantar uma nova Oração da Família

Um dos clássicos da música religiosa no Brasil, a Oração da Família, de autoria do querido Padre Zezinho, composta e cantada na perspectiva da cultura cristã católica, trata do modelo de família tradicional [pai, mãe e filhos]. É uma canção que, naturalmente,  não mais dialoga com a sociedade dos dias atuais com mesma intensidade teológica e pastoral doutrora, pois é inconteste o fato de que existem novos modelos de famílias constituindo fortemente a sociedade.

Ressalto: são famílias que, apesar de sofrerem preconceitos dos próprios cristãos, lotam as igrejas nas missas dominicais, buscando o alimento advindo dos valores fundamentais do cristianismo e, principalmente, do Evangelho de Jesus Cristo, que, no contexto em que trato o assunto, fica de lado em detrimento do CIC — Catecismo da Igreja Católica e das demais regras e normas rígidas da instituição religiosa.

Agora  veja bem: se por ventura um padre, durante a celebração eucarística, pedir que ergam os braços as mães solteiras, os casais homoafetivos com filhos, casais de segunda união, os filhos criados pelos avós ou apenas pela figura paterna, dentre outros, certamente, centenas de braços testemunhariam a pluralidade no quesito família e, em simultâneo, a necessidade de um urgente olhar pastoral e teológico mais humano e acolhedor para com estes.

E por que trago o assunto para discussão? Primeiro porque no chão das comunidades eclesiais de base, tanto nos centros urbanos como no campo, e na Igreja como um todo, o tema da família é caro, e costuma ser tratado “dentro de uma bolha”, com os elementos que alimentam os preconceitos e consequentemente a exclusão das pessoas que constituem famílias “fora da bolha” supostamente  pura e santa.

Já parou para imaginar, por exemplo, quantos jovens, por não suportarem o desprezo, a humilhação e o preconceito da família tradicional, atentaram contra a própria vida, colocando a corda no pescoço ou tomando veneno após terem assumido suas relações homoafetivas?

Quantos filhos de mães solteiras ainda são tratados como “filhos da puta”, apesar da linda e exemplar relação existente entre eles [mãe e filho]?

E por que ainda se diz que casais de segunda união estão em pecado mortal, mesmo estando estes praticando  na sociedade os valores da justiça, da paz, da solidariedade, da fraternidade, da honestidade e combatendo os preconceitos?  Por acaso  esses valores deixaram de exprimir a vontade do Deus cristão?

Trago essa questão também porque os filhos dos casais homoafetivos arriscam enfrentarem na vida, começando já na infância, o ódio e a intolerância da “sociedade dita cristã”, que subjuga as novas famílias constituídas e fundamentadas pela lei do Amor,  mas que pouco combatem o machismo assassino e predominante na família hétero tradicional, que espanca, humilha e mata mulheres na frente dos filhos.

— Aliás, o machismo e o feminicídio, assim como incontáveis temas prioritários, não ganham muito destaque nos altares eclesiais.  A bola  da vez é a badalada “família tradicional”, e de preferência a que costuma bajular o clero e colocar “gordas ofertas  na caixinha do altar”.

Bom, essa coluna não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas tão somente colaborar com a  importante temática, timidamente abordada  e covardemente estigmatizada nas comunidades eclesiais. E se os pontos elencados aqui não forem motivos para que entoemos uma nova oração da família, então nada mais será.

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