ColunistasFrei Marcos Sassatelli, opSínodo para a Sinodalidade 2023

A questão da “sinodalidade” na Igreja

Em outubro de 2021, o Papa Francisco deu início a um novo Sínodo (sýnodos: caminhar juntos) com o tema: “Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão“. Trata-se de um caminho sinodal de três anos, articulado em três fases: diocesana, continental, universal.

  • Fase diocesana: outubro de 2021 a junho de 2022;
  • Síntese da Conferência Episcopal (CNBB): agosto de 2022;
  • Fase continental: setembro de 2022 a março de 2023;
  • Fase universal: outubro de 2023.

Terminada a fase continental, a Secretaria Geral do Sínodo – recolhendo tudo o que foi refletido nas bases – enviará um segundo Documento de Trabalho aos participantes da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizado em Roma, segundo os procedimentos da Constituição Apostólica “Episcopalis Communio” (terceira e última fase).

O itinerário do caminho sinodal – afirma o papa Francisco – “foi concebido como um dinamismo de escuta recíproca (gostaria de frisar: um dinamismo de escuta recíproca), conduzido em todos os níveis da Igreja e que diz respeito a todo o Povo de Deus”. Os bispos, os padres, os religiosos, as religiosas e todos os cristãos e cristãs “devem ouvir-se” e, depois, “ouvir-se uns aos outros”. “Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap. 2,7).

“O Sínodo é até o limite. Inclui a todos e todas: os pobres, os mendigos, os jovens toxicodependentes, todos esses que a sociedade descarta, fazem parte do Sínodo”. “O cristianismo deve ser sempre humano, humanizante, reconciliar diferenças e distâncias, transformando-as em familiaridade, em proximidade”. “Em tempo de pandemia, o Senhor impulsiona a missão de uma Igreja que seja sacramento de cuidado”. “Um dos males da Igreja, aliás, uma perversão, é esse clericalismo que separa o padre, o bispo das pessoas”.

“O tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado sobre eclesiologia, e muito menos uma moda, um slogan ou um novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão”. Assim falamos de Igreja sinodal, “seguindo o que podemos considerar o primeiro e mais importante ‘manual’ de eclesiologia, que é o livro dos Atos dos Apóstolos”.

No caminho sinodal, “a fase diocesana é muito importante, porque realiza a escuta de todos os batizados e batizadas”. Precisamos “superar a imagem de uma Igreja dividida entre líderes e subordinados, entre os que ensinam e os que têm de aprender, esquecendo que Deus gosta de inverter as posições: ‘derrubou os poderosos dos seus tronos e elevou os humildes’(Lc1,52)”. 

Caminhar juntos “evidencia mais a horizontalidade do que a verticalidade”. Nós pastores “caminhamos com o povo, às vezes à frente, outras no meio e outras atrás. O bom pastor deve caminhar na frente para guiar, no meio para encorajar e não esquecer o cheiro do rebanho, atrás porque também o povo tem ‘faro’. Tem olfato para encontrar novas vias para o caminho, ou para encontrar novamente a vereda perdida”.

Como cristãos e cristãs, “o senso da fé (sensus fidei) nos qualifica na missão profética de Jesus Cristo, para que possamos discernir quais são os caminhos do Evangelho hoje” (cf. Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja – LG, 34-35). (Fonte: DISCURSO DO PAPA FRANCISCO AOS FIÉIS DA DIOCESE DE ROMA. 18 de setembro de 2021).

Fala-se que o Sínodo é “o maior processo de consulta democrática da história da Igreja Católica” (acrescento: a partir da Igreja imperial). Nas Comunidades da Igreja primitiva, todos e todas viviam como irmãos e irmãs. Tudo era comum e decidido em comum. 

É realmente louvável e merece total apoio o esforço do nosso irmão o papa Francisco para que toda a Igreja viva a sinodalidade, o caminhar juntos. Ora, na vivência da sinodalidade temos – penso eu – quatro momentos. Neste Sínodo estamos vivendo os primeiros dois momentos: 

  • 1º momento: a vivência da sinodalidade nas reflexões dos Encontros diocesanos e continentais;
  • 2º momento: a vivência da sinodalidade nas propostas que surgem nesses Encontros (apresentação e aprovação).

Falta ainda a vivência do terceiro e do quarto momentos da sinodalidade – abaixo relacionados – para que a Igreja volte a ser, em nossa realidade de hoje, uma Igreja realmente evangélica, como as primeiras Comunidades cristãs.

  • 3º momento: a vivência da sinodalidade na Assembleia Geral Ordinária do Sínodo do Povo de Deus (terceira e última fase do caminho sinodal), substituindo o Sínodo dos Bispos. Afinal, a Igreja não é o Povo de Deus?
  • 4º momento: a vivência da sinodalidade na aprovação das decisões tomadas na Assembleia e publicadas no Documento final.

A vivência do 3º e 4º momentos da sinodalidade só será possível quando a nossa Igreja Católica tomar realmente consciência que todos os seres humanos têm a mesma dignidade e que, por isso, devem viver a igualdade e praticar a democracia de maneira plena, sem restrições.

A vivência da sinodalidade é, portanto, a prática da democracia radical na Igreja das pessoas de fé. 

Um exemplo a ser seguido: por 50 anos a Prelazia de S. Felix do Araguaia, com seu bispo Dom Pedro Casaldáliga, viveu plenamente a sinodalidade (em seus quatro momentos). “Havia uma verdadeira horizontalidade – bispo, padres, religiosos, religiosas e demais cristãos e cristãs – todos e todas eram protagonistas. Todos e todas tinham direito a falar nas reuniões e a votar em assuntos que exigiam decisões conjuntas. Todos e todas eram irmãos e irmãs pelo mesmo batismo que receberam. Este jeito de ser Igreja vivido na Prelazia mostra que outra Igreja é possível!”(Prelazia de São Félix do Araguaia. Alvorada, julho-setembro, 2021).

Um dia chegaremos lá! Esperançar é preciso!

(Veja no http://freimarcos.blogspot.com os artigos sobre as questões da dignidade, da igualdade e da democracia na Igreja).

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