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Ameríndia: “um sistema radicalmente desumano e violento que oferece proteção a alguns, mas deixa a maioria indefesa”
Por Luis Miguel Modino

Ameríndia concluiu nesta sexta-feira, 30 de outubro, o ciclo de encontros virtuais que foi desenvolvido ao longo do mês, tendo como tema de reflexão “Teologia da Libertação em Tempos Excepcionais de Crise e Esperança”. Como a própria Ameríndia relatou, houve centenas de participantes, de 25 países. O que no início era um encontro presencial em Manaus foi transformado em algo diferente, mais aberto, onde muitos jovens estavam presentes.

Os encontros foram uma oportunidade para mostrar que “a teologia continua a ser desenvolvida, fazendo sua a ecologia integral, assumindo o giro descolonial, a luta pelos direitos das mulheres e o clamor dos povos originários e afrodescendentes”, afirmou o Ameríndia. Não podemos esquecer “as terríveis consequências socioeconômicas, psicológicas, culturais e espirituais que a pandemia desencadeou”, causando “a revelação de um sistema mundial radicalmente desumano e violento que oferece proteção a alguns, mas deixa a maioria do povo indefesa”, embora também tenha sido um tempo para mostrar “a comovente solidariedade vivida acima de tudo no nível dos trabalhadores e setores populares com extraordinária ternura, criatividade e coragem”.

Tudo isso leva a Ameríndia a buscar “o cuidado da vida dos pobres e da mãe terra numa perspectiva de profunda reciprocidade”, assumindo compromissos nascidos do Sínodo para a Amazônia, incorporando o paradigma da ecologia integral, da interculturalidade e de uma Igreja sinodal a partir da base. Por esta razão, os encontros foram um convite para uma profunda conversão, buscando compromissos em diálogo que ajudarão a aprofundar os compromissos “no novo tempo que já estamos começando a viver”.

No último encontro, que também foi uma celebração de encerramento, a reflexão foi centrada numa “Igreja à saída”, desde a figura de três bispos, Dom Erwin Kläuter, bispo emérito da Prelazia do Xingú (Brasil), que esteve presente, Dom Enrique Angelelli, bispo de La Rioja e vítima da ditadura argentina, apresentado por Ramona Romero, e o recém falecido Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, de quem falou alguém que compartilhou a missão com ele, Mercedes de Budallés Díez.

Para Dom Erwin, a Teologia da Libertação é algo bíblico, que já aparece no livro do Êxodo. Nesta base, ele contou algumas experiências de seus 55 anos como missionário na Amazônia brasileira, quase 40 deles como bispo. O primeiro foi sua convivência com a irmã Dorothy Stang, que ele conheceu pela primeira vez em 1982, e que perguntou se alguém dos Estados Unidos poderia trabalhar em um lugar onde a pobreza é miséria, ao que ela respondeu que ele deveria deixá-la tentar. Depois disso, ela foi para a região da Transamazônica, onde foi assassinada em 12 de fevereiro de 2005. O bispo recordou as palavras da irmã em sua última entrevista: “Estou aqui porque amo este povo e acredito profundamente em Deus libertador”, testemunho de alguém que “se tornou mais conhecida através de sua morte do que através de sua própria vida”.

Outra experiência que marcou a vida de Dom Erwin foi, em seus primeiros anos como bispo, acompanhar uma greve de cortadores de cana, onde sofreu repressão por parte dos militares, sendo maltratado e preso, algo que ele sempre viu como sua segunda ordenação episcopal. Ele também lembrou o trabalho do Conselho Indigenista Missionário, do qual foi presidente por muitos anos, na elaboração da Constituição Brasileira de 1988. Naquela época ele sofreu um acidente de carro, que muitos sempre viram como uma tentativa de assassinato. De fato, o padre que o acompanhava morreu e o próprio bispo foi hospitalizado por seis semanas.

O bispo emérito do Xingu também falou sobre o Pacto das Catacumbas pelo Cuidado da Casa Comum, assinado em 20 de outubro de 2019, coincidindo com a Assembleia Sinodal do Sínodo para a Amazônia, onde não só os bispos, mas também o Povo de Deus se comprometeram com a defesa da Amazônia e dos povos que a habitam, o que mostra que “a Igreja em toda a Amazônia tem uma alta responsabilidade, especialmente com os povos indígenas, ajudando-os a preservar suas terras, culturas, línguas, identidades e espiritualidades”. Isto é dificultado no Brasil por “um presidente que é um anti-indígena declarado” que quer que o povo indígena perca sua identidade.

Enrique Angelelli foi bispo de uma região marcada pela desigualdade, algo que ele denunciou desde o primeiro dia em que assumiu o cuidado pastoral da diocese de La Rioja. Como foi demonstrado, segundo Ramona Romero, “uma das causas que levou à morte foi a luta pela terra”, sempre em favor dos despossuídos, dos pobres, dos amados de Jesus. Segundo ela, em Angelelli podemos encontrar um precursor da ecologia integral, algo que se traduziu “em um projeto diocesano que respeitava e valorizava a religiosidade de nossos povos, com tudo o que eles trazem, o que está em suas entranhas, no húmus da terra”. Ele sempre valorizou a fé simples, as festividades dos povos originários, respeitando sua tradição e suas culturas.

Pouco antes de sua morte, em 4 de agosto de 1976, ele disse a sua família que “não tenho vocação para ser um herói, uma vítima ou um mártir. Minha vocação é e não pode ser outra de não esconder o candelabro debaixo da cama”. Angelelli também viveu a sinodalidade, de fato, foi declarado mártir junto com um grupo de companheiros, com os quais compartilhou o ideal do Evangelho, algo que ficou como um legado, segundo Ramona, que vê o bispo como alguém que “não deixou de anunciar a esperança, que foi, é e continuará sendo um profeta da esperança naquela comunhão e unidade com tantos outros”. É a memória de alguém que muitos veem como uma teofania, como “a passagem de Deus por La Rioja”, de alguém que, junto com seus companheiros mártires, “continua a provocar em nós um compromisso com os pobres a partir da perspectiva da Teologia da Libertação e com essa rubrica com seu próprio sangue”.

Para Mercedes de Budallés Díez, “falar de Pedro a partir da experiência de uma vida diária em conjunto me dá a oportunidade de poder dizer que outra Igreja é possível”. Acima e além dos muitos escritos de Casaldáliga, reunidos nos arquivos da Prelazia, Mercedes prefere recordar o ser humano Pedro, sua vida cotidiana na Grande Pátria, muito unida aos excluídos, algo que ele expressou em sua poesia, onde mostrou uma visão sociopolítica muito avançada, um compromisso evangélico radical com os pobres e os excluídos.

Em suas palavras, Mercedes relatou a experiência de vida e missão na Prelazia de São Félix do Araguaia, com comunidades mistas, vivendo pobremente, sem muitos bens, onde os agentes pastorais se dedicavam exclusivamente ao trabalho na prelazia, através de diferentes atividades, que procuravam atender às necessidades da região e organizavam “uma pastoral popular, adaptada às necessidades e desejos do povo”. Neste trabalho, Pedro estava sempre presente; ele visitava todas as comunidades da Prelazia a cada ano, casa por casa, porque para Casaldáliga, “setenta por cento do nosso tempo com o povo tem que ser contato, escuta, conversa, escuta e partilha de seus problemas. Trinta por cento, a catequese, as celebrações, as orações e as devoções que o povo deseja”.

Foi uma Igreja que cuidou da formação, a começar pelos agentes pastorais, que nunca se preocupou em construir igrejas, edifícios, mas sim com o trabalho diário que tem mantido aqueles que fizeram parte dessas equipes juntos, ainda mais após a ressurreição de Pedro. Mercedes não esquece os últimos 15 anos de vida de Pedro, que ela define como seu martírio, porque ele estava perdendo suas faculdades, algo que ele aceitou, o que tem sido visto como algo próprio de um santo. Na verdade, o próprio Pedro, já com sua avançada doença, quando perguntado se se sentia sozinho, respondeu: “Não, Deus está comigo e eu estou com Ele. E eu agradeço muito a Deus pelo bom cuidado que me dá”.

Este último encontro foi também um momento para agradecer o trabalho de algumas figuras extraordinárias na vida da Ameríndia. A vida de Pablo Richard foi marcada por “uma caminhada às vezes trágica, mas sempre marcada pela esperança”, vivida em harmonia com o Vaticano II, condicionada pelo exílio, depois de ter que deixar seu Chile natal, que o levou a países diferentes, mas que encontrou sentido na América Central, no encontro com Dom Romero e nos movimentos de transformação social e eclesial.

Margot Bremer é vista como “tecedeira do Reino de Deus, plural, fraterna, Reino de justiça e vida digna”. Estamos diante de uma mulher de duas tradições religiosas, nascida em uma família luterana e que acabou sendo uma religiosa católica, consagrando sua vida missionária à América Latina, com uma opção clara com os povos indígenas, fazendo um trabalho de articulação e diálogo entre a reflexão teológico-bíblica e a visão de mundo, tradições e cultura do mundo indígena. Para este fim, ela fez uso da educação popular, sempre tendo em mente que “as comunidades cristãs indígenas desejam ler a Bíblia a partir de sua própria cosmovisão, seu conceito de vida e sua maneira de se relacionar com Deus, com os outros e com a natureza”. Tudo isso a serviço de uma igreja sinodal, superando “as estruturas arcaicas e muito fechadas que caracterizam um grande setor da hierarquia da igreja”.

No caso de Sergio Torres, considerado na Ameríndia como “nosso patriarca, nosso fundador junto com Pedro Acevedo”, ele se destaca por “sua paixão pelo Evangelho e uma profunda e crítica fidelidade à comunidade eclesial”, forjando “um novo paradigma na vivência e compreensão da fé cristã em nosso continente”. Ele também teve que deixar o Chile para o exílio, sem saber para onde estava indo, como Abraão. Alguém que está perto de completar 91 anos é visto como alguém em quem “sua dedicação permanente, serviço, criatividade e tornando tantos espaços possíveis” se destaca.

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