ColunistasIrmã Eurides Alves de Oliveira, ICM

As mulheres migrantes no Brasil em tempos de pandemia

 “Ao acolher o estrangeiro/a, este não só se converte em irmão, irmã

 mas com suas expressões culturais e com seus valores

 pode enriquecer nossa cultura’.

(Texto Base da 36ª Semana do Migrante) 

           A 36ª Semana do Migrante de 2021 aborda o tema “Migração e diálogo” e tem como lema “Quem bate à nossa porta?”.  Um tema-realidade que nos impele a acolher e a dialogar com a realidade migratória em suas diversas facetas e, em especial, com as/os migrantes presentes em nossas comunidades.

Continuo seguindo a trilha do compromisso das CEBs com as pautas das mulheres na perspectiva de um feminismo comunitário, caracterizado pela acolhida, solidariedade, defesa e promoção da cidadania, empoderamento e superação das violências e opressões sofridas por elas. Dentre as múltiplas faces da realidade migratória, proponho um olhar atento e um diálogo reflexivo sobre a realidade das mulheres migrantes em tempos de pandemia.

Diante do agravamento das desigualdades sociais provocado pela pandemia do coronavírus e do enfraquecimento das políticas de seguridade e proteção social na atual conjuntura socioeconômica e política, as mulheres estão entre os grupos mais afetados pela COVID-19. Elas foram as que mais perderam trabalho; com o fechamento das escolas e o isolamento social foram sobrecarregadas com as tarefas de cuidado de crianças e pessoas idosas, tem sofrido com o crescimento da violência doméstica em suas diversas modalidades e muitas vitimadas pelos feminicídios.

As mulheres migrantes compartilham deste rosário de dores e lutas, acrescido do fato de serem na sua maioria mulheres pobres, negras e indígenas, grávidas ou com filhos, e de não falarem a língua. Elas carregam no corpo e na alma um feixe de vulnerabilidades associadas à sua condição ao gênero, classe, etnia, nacionalidade.  Enfrentam a xenofobia (aversão, ódio ao estrangeiro) e a dificuldade de se inserirem no mercado de trabalho, num país com alto índice de desemprego; com a responsabilidade do sustento da família, seja os que com elas migraram, seja os que ficaram no seu País de origem, e para os quais elas se sentem na obrigação de enviar remessas para o sustento.

Com a pandemia, elas enfrentam ainda os riscos adicionais à saúde, ao enfrentar moradias precárias, acampamentos lotados, a casa da patroa ou a rua de onde tiram o pão trabalhando na informalidade e/ou na mendicância, ficando expostas ao vírus, às violências e explorações múltiplas: prostituição, tráfico humano, trabalho escravo e outras.

Até 1970 as mulheres migrantes não eram contadas nas estatísticas. Falava-se apenas dos homens migrantes. Elas que historicamente sempre foram as que mais se arriscaram para defender a vida e o sustento da família, não eram incluídas.  Hoje, graças ao avanço dos estudos e pesquisas de gênero, esta realidade está um pouco mais perceptível. Cada vez mais se constata a presença de mulheres nos fluxos migratórios. As pesquisas revelam que de cada dez migrantes seis são mulheres e crianças. No conjunto da população migratória no território nacional as mulheres são 48% (ACNUR, 2019).

Além dos desafios já citados, as mulheres migrantes convivem também com a dor da solidão, da falta de espaço humano e de fé para partilha e celebração de suas histórias, buscas, lutas e esperanças. Urge fazer de nossas comunidades casa de acolhida, escuta e diálogo para estas mulheres que lamentavelmente ainda são muito invisibilizadas em nossos espaços eclesiais. Elas e suas demandas precisam ser percebidas e acolhidas por nossas CEBs. “Fui peregrina, estrangeira e vocês me acolheram” (cf. Mt 25,35). “Migrantes e refugiados não são números, são pessoas, são irmãos e irmãs” (cf. Papa Francisco). A comunidade eclesial tem por vocação, ser o espaço potencializador para as mulheres. Onde elas desejam ser acolhidas, escutadas e orientadas sobre os meios e caminhos para acessarem os direitos e oportunidades para melhorarem suas vidas, para expressarem sua fé e seus valores culturais, seus desejos e sonhos.

Através do Serviço de Pastoral do Migrante (SPM), da Caritas e outras pastorais e organismos, a igreja católica de forma ecumênica, tem sido uma significativa presença e atuação junto aos migrantes em geral e, ainda que de forma tímida, para as demandas específicas das mulheres migrantes. Os projetos e ações são voltados para regularização de documentos, apoio psicológico, ajuda na elaboração de currículos e auxílio para necessidades básicas, cursos de português, estudos sobre a legislação do país e outros. Eles têm sido fundamentais para promover mudanças na qualidade de vida dessas mulheres e homens.  No entanto, é necessário fortalecer a rede de acolhimento, promoção e defesa da vida e dos direitos das mulheres migrantes, fomentar o seu protagonismo e empoderamento.

Está missão requer um compromisso de todas e todos. Não é tarefa exclusiva de uma pastoral ou grupo, é missão de todos e todas, que somos a igreja de Jesus, igreja povo de Deus, comunidade de irmãs e irmãos. Que sonham juntos com uma fraternidade universal, pautada na superação das violências e discriminações, na construção da cultura da paz e na denúncia intransigente do ódio, da indiferença, da injustiça e das desigualdades. Espaço de inclusão, sororidade e vida.

Eis aí o apelo/desafio para que nossas CEBs, a partir da convocação da 36ª Semana do Migrante, possam ampliar o olhar para conhecer e reconhecer a presença das Mulheres migrantes nos seus territórios. E irem ao encontro e abram as portas do coração e dos espaços físicos para acolher, escutar, dialogar e solidarizar-se com elas, contribuindo na defesa e promoção de sua vida e direitos.  Fratelli Tutti!

 

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