ColunistasJorge Alexandre Alves

CEBs, Milícias e violência

Além do meu núcleo de Fé e Política, participo de um outro grupo formado por iniciativa de um querido amigo, vereador há alguns mandatos aqui na cidade. Em um ambiente tão conservador, morando em uma área muito elitista, posso afirmar que esses dois espaços foram fundamentais para alimentar minha espiritualidade dentro da perspectiva libertadora, e manter vínculos com outras companheiras e companheiros de caminhada.

Neste outro grupo, intercalamos celebrações eucarísticas remotas com encontros virtuais sobre temática variada. Sempre pela plataforma Zoom, por causa da pandemia. Há mais de um ano não nos vemos presencialmente. Os temas transitam sempre pela mística, pela conjuntura, pelas relações entre fé e política ou algum outro tema que seja de nosso interesse.

Semanas atrás conversávamos sobre a questão da moradia na região de Jacarepaguá. Celebrávamos os mais de 25 anos de um mutirão popular de habitação que ergueu casas dignas para uma gente muito pobre e sofrida.

Naquele mutirão se desenvolveu um modelo de mobilização baseado na educação popular e na tomada de consciência da realidade muito bem sucedido em sua capacidade de articular pessoas e despertar o senso crítico. Algumas organizações não-governamentais muito sérias deram suporte a essa iniciativa. Parte das lideranças era ligada à Igreja, que esteve muito próxima dessa iniciativa.

A comunidade surgida desse mutirão até hoje se autodeclara como uma CEB (dedicada ao Padre Josimo, mártir do Bico do Papagaio). Em toda a arquidiocese do Rio de Janeiro, apenas em mais duas localidades encontramos uma comunidade católica que se diz eclesial de base. Uma outra na própria região de Jacarepaguá e mais uma em Santa Cruz.

Todas na Zona Oeste da cidade. Todas na periferia. Aquele movimento organizado em torno de mutirões de moradia trazia algo inédito para a cidade. Em tempos de cooptação política em todo o município, isso representava uma novidade em tanto.

Aquela experiência articulava fé, militância política, organização popular e espiritualidade libertadora. E pouco dependiam da pesada estrutura eclesial. O peso do conservadorismo da diocese não os atingia, tampouco os ventos da liderança populista de direita de César Maia, pai do deputado Rodrigo Maia.

Aquela iniciativa de moradia criou uma geração de lideranças que se propuseram a organizar outras comunidades na região. O déficit habitacional é enorme no Rio de Janeiro, e a cidade se expandia desordenadamente para a Zona Oeste. Jacarepaguá era uma fronteira imobiliária, despertava vários interesses escusos.

Naquela reunião, as lideranças que foram nos contar sua trajetória e a história daquela comunidade hoje chamada CEB Padre Josimo. Infelizmente, o advento daquela luta por moradia em Jacarepaguá coincidiu com a expansão de uma atividade criminosa que não era nova na região, as milícias.

Durante o encontro, perguntamos aos companheiros e companheiras sobre as dificuldades hoje em dia e a respeito de tensões com milicianos. Eles nos disseram que organizar, fundar ou mobilizar quaisquer lutas através de associações de moradores (como se fazia nos anos 1990) é impossível.

Relataram-nos que esses grupos chegam na comunidade, cooptam a população local (nem sempre na base da intimidação) e democraticamente ganham as eleições para a associação de moradores. Depois de entronizados formalmente na organização popular é que usam da força e começam as extorsões. Uma tristeza saber disso.

Naquele encontro, nos contaram também que isso comprometeu muito o movimento de moradia na região. Eles precisam ser muito cautelosos. Por causa das milícias, hoje atuam em uma ocupação de terreno na região, e não usam nenhuma expressão ligada a associação de moradores ou dos movimentos sociais.

Mesmo assim, milicianos que controlam a área já estiveram no local, derrubaram cercados feitos pelos moradores e insinuam que o terreno tem dono. Já há tensão no local. O futuro é incerto.

Estarrecidos e a o mesmo tempo entristecidos por aqueles relatos comentávamos naquele encontro sobre o mal que as milícias representavam para a cidade, sem nem considerar as questões que envolvem o atual mandatário do país. Um de nós afirmou que essas coisas aconteciam porque estavam situadas na periferia, distantes das casas e apartamentos das áreas nobres da cidade.

Foi aí que uma pessoa que sempre participa de nossos encontros afirmou algo espantoso. Em um pequeno morro na Zona Sul da cidade, cuja entrada fica a poucos metros da praia mais famosa do Brasil e bem perto de uma fortaleza militar do Exército, um grupo se estabeleceu por lá, com as mesmas práticas milicianas.

Esse grupo, tendo tomado a pequena capela local, impedia a realização das atividades de assistência e das celebrações religiosas. Ninguém mais ligado a paróquia pode subir o morro e desenvolver qualquer tipo de trabalho.

Pelo visto, é uma questão de tempo para a lógica e o poder das milícias conquistarem os cartões postais da cidade outrora maravilhosa. Será que o poder instituído pelo Estado no Rio de Janeiro é de natureza miliciana? O poder público nada faz porque vive uma simbiose com essa gente?

Ouvindo o relato de luta dos companheiros, constatei que há um lado perverso na história das milícias no Rio de Janeiro que é pouco contado. Para além da barbárie da violência e da extorsão dos mais pobres por quem deveria lhes proteger, a expansão das milícias causou o silenciamento e a eliminação dos movimentos populares nas periferias e morros da cidade.

Milícias e tráfico de drogas são duas facetas igualmente perversas da mesma chaga da violência e de políticas públicas muito precárias para a população mais pobre. Não há como dizer que um é sequer “menos pior que o outro”.

Ocorre que os milicianos veem qualquer outra forma de autoridade que não seja a que eles impõem pelo medo (ou que lhe apoiem) como um perigo para seus negócios. Suas lideranças não são formadas por adolescentes e jovens de baixa escolaridade como no comércio varejista de entorpecentes.

Por isso, organizações populares e movimentos religiosos que questionam a desigualdade e a opressão não podem ter vez em áreas controladas por milicianos. A Igreja até é tolerada, desde que não extrapole os limites do templo. Mas o “novo jeito de ser Igreja” das CEBs certamente causaria incômodo aos milicianos.

Algo nesse sentido já aconteceu uma vez. Duas eleições municipais atrás, participantes de uma outra comunidade de base na Zona Oeste foram “alertados” sobre campanha eleitoral para um candidato a prefeito no segundo turno. Os milicianos “argumentaram” saber onde a família morava…

Lamentavelmente, o que poderia ter sido o começo de uma verdadeira rede de CEBs em Jacarepaguá foi cancelado. Mais que isso, seria base de um movimento popular de moradia pujante capaz de mudar a vida de muitas pessoas. Entretanto, a expansão das milícias comprometeu essa luta.

Muita gente engajada e comprometida atua na Zona Oeste da cidade. Mas precisa ser muito astuta e vive “pisando em ovos” em um equilíbrio delicado. Porém são poucos e poucas. Talvez por isso não sejam vistos como uma ameaça. Mas até quando?

Os relatos dos companheiros de Jacarepaguá naquele grupo, apesar das tristes constatações, foram muito, muito significativos e são um testemunho de profetismo e coragem em pleno Rio de Janeiro. Mas talvez seja parte reveladora que nos ajuda a entender a expansão do pentecostalismo (evangélico e católico) nas periferias da cidade. Afinal, louvores não questionam a opressão…

Botão Voltar ao topo
plugins premium WordPress