ColunistasFrei Marcos Sassatelli, op

CEBs: uma Igreja que se constitui de irmãos e irmãs em comunhão

Jesus de Nazaré quis e quer uma Comunidade de seguidores e seguidoras que seja uma Comunidade de irmãos e irmãs em comunhão. 

Para se referir a essa Comunidade – o Povo de Deus da Nova Aliança – os autores do Novo Testamento adotaram o termo Igreja (em grego: Ekklesia), que quer dizer Assembleia: Comunidade reunida. Neste sentido, Jesus – dirigindo-se a Pedro – diz: “Você é Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18). (Observamos que – com o passar do tempo – o termo Igreja adquiriu também o significado de ‘templo’: lugar de oração e de culto).

Portanto, desde a época em que foi escrito o Novo Testamento, a Comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré começou a ser chamada Igreja. Trata-se, porém, de uma Igreja de irmãos e irmãs em comunhão e não de uma Igreja de classes (clero, religiosos/as, leigos/as). Por ‘comunhão’ entende-se, pois, ‘comunhão eclesial’ e não ‘comunhão hierárquica’ (que não é verdadeira comunhão). 

Essa Igreja de irmãos e irmãs em comunhão reconhece – na prática e não só na teoria – que todos os seres humanos – homens, mulheres e pessoas de outras orientações sexuais (integrantes da Comunidade LGBTQIA+) – são iguais em dignidade e valor. “Deve-se reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos os seres humanos” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje – GS 29), criados à imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1,26-27). “Reina verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo” (Concílio Vaticano II. A Igreja – LG 32). “A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do ser humano para a comunhão com Deus” (GS 19). “É comum a dignidade dos filhos e filhas de Deus batizados e batizadas, no seguimento de Jesus, na comunhão recíproca e no mandamento missionário” (Exortação Apostólica Pós-sinodal “Ecclesia in America – EA 44). “Todos e todas são chamados à santidade (perfeição humana, felicidade) e receberam a mesma fé pela justiça de Deus” (LG 32). “O mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação” (GS 22). 

Nessa Igreja de Jesus de Nazaré, todas as relações são de comunhão entre irmãos e irmãs. Nelas, não há espaço para relações de dependência, submissão, subordinação, subserviência, dominação, inferioridade ou superioridade. 

Nas relações de comunhão entre irmãos e irmãs, todos e todas – na diversidade dos carismas (dons) e dos ministérios (serviços) – são sujeitos conscientes e responsáveis de suas opções, atitudes e atos. “A cada um e a cada uma é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor. 12,7). 

Sabemos, porém, que a Igreja (pessoas e Instituição) – que é no mundo com o mundo, que é mundo – é uma Igreja divina e humana, santa e pecadora, ao mesmo tempo. No decurso da história, a Igreja se deixou influenciar pela sociedade imperial, feudal e capitalista, e incorporou – em sua própria estrutura social – elementos (pompa, luxo, poder, triunfalismo e outros) que não têm nada a ver com o Evangelho: a Boa Notícia de Jesus de Nazaré. Para tomar consciência disso, basta fazer a memória de como Jesus viveu e de como as primeiras Comunidades cristãs viveram.

 Por causa desses desvios – farisaicamente legitimados e sacralizados –  “desenvolvendo perspectivas já presentes no Concílio, mas ainda não explicitadas, vários teólogos – a começar por Congar – têm proposto pensar a estrutura social da Igreja em termos de ‘comunidade – carismas e ministérios’ (e não em termos de ‘hierarquia – laicato’). O primeiro termo, ‘comunidade’ (ou o teologicamente mais denso ‘comunhão’), inclui tudo o que há de comum a todos os membros da Igreja; e a dupla ‘carismas e ministérios’ inclui tudo o que positivamente os distingue. É esta, aliás, a perspectiva do Novo Testamento, onde nunca aparece o termo ‘leigo’ ou ‘leiga’ (e – podemos acrescentar – nem o termo ‘clero’), mas sublinham-se os elementos comuns a todos os cristãos e cristãs e, ao mesmo tempo, valorizam-se as diferenças carismáticas, ministeriais e de serviço. Neste sentido, os termos que designam os membros do Povo de Deus acentuam a condição comum a todos os renascidos pela água e pelo Espírito: ‘santos/as’, ‘eleitos/as’, ‘discípulos/as’, ‘irmãos/ãs’” (CNBB. Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas – 62, 1999, nº 105). 

Por fim, é só o amor que – pelo seu grau de profundidade – pode dar um sentido maior ou menor (não, mais importante ou menos importante) à vida humana e à vida da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum. 

Essa é a Igreja que as CEBs querem ser! Essa é a nossa Igreja! 

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