ColunistasIrmã Eurides Alves de Oliveira, ICM

Celebrar a Páscoa como artesãs e artesãos da Paz

“Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: a paz esteja com vocês”

Jo 20,19

Aproxima-se a festa da Páscoa, a celebração do mistério Pascal de Jesus de Nazaré, o filho de Deus. Sua Paixão, Morte e Ressurreição constituem o núcleo central de nossa fé cristã. Nas narrativas bíblicas dos encontros de Jesus Ressuscitado com a comunidade dos discípulos e discípulas, a saudação de Paz tem primazia: ‘a paz esteja com vocês!’

O Ressuscitado oferece o dom da PAZ à comunidade que se encontra de portas fechadas, amedrontada, ao ponto de se renderem à inércia diante do sistema de morte, que parecia ter triunfado. Rompendo as trancas das portas e dos corações dos discípulos e discípulas, o Vencedor da morte lhes presenteia com a paz, e com ela, o dom do amor, do perdão, da reconciliação e da justiça, e assim, reacende-lhes a fé e a esperança. A paz oferecida pelo Nazareno ressuscitado constitui um novo começo para a vida missionária da comunidade discipular. 

          A paz trazida pelo Ressuscitado inaugura, na mente e na prática das primeiras comunidades, um novo caminho, um novo jeito de se relacionar e construir fraternidade. É o pilar de um Projeto Novo, que se opõe à ‘Pax Romana’, ou seja, opõem-se à ideia da paz como passividade, subserviência e resignação aos impérios constituídos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vô-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14,27).

Vivemos tempos sombrios, sangrentos, desesperadores. O cenário cotidiano de nossas casas, comunidades, cidades, países e continentes são de múltiplas pandemias e ‘guerras hibridas’, onde o poder do dinheiro, das armas, da dominação e das tempestades tóxicas das desinformações e fundamentalismos, insiste em disseminar a dor, a violência, o luto, a fome, a perseguição, o ódio e a cultura do descarte.

Neste contexto, a memória e celebração do Mistério Pascal de Jesus, o crucificado/ressuscitado, faz ecoar de forma eloquente, o grito de Jesus na Cruz, no grito dos pobres e da terra por uma Páscoa de Vida, Paz e Justiça. Clamor que se faz missão e recorda nossa vocação de artesãs e artesãos da ‘paz inquieta’ que recebemos como fruto do Espírito Santo de Deus no dia do nosso batismo. 

O círculo vicioso do mal, da violência e da engenharia planejada da morte reinante, só será contido por artífices de paz. Pessoas que aderem ao Projeto Libertador do Nazareno Ressuscitado, e se dispõem a caminhar com Ele pelas sendas da história, como Igreja em saída para as periferias sociais, culturais e existenciais, assumindo como modo de vida a compaixão samaritana, a misericórdia, o compromisso com a justiça do Reino, através de práticas de não-violência, de diálogos críticos, sapienciais e proféticos, mobilizadores de vida, capazes de romper indiferenças, preconceitos e polarizações, construindo pontes em lugar de muros e promovendo comunhão e participação em lugar da exclusão.

É uma missão árdua e laboriosa que requer um trabalho paciente e contínuo. Uma artesania amorosa, soroterna, persistente, qualificada que se desdobra num ofício feito de pequenos e grandes gestos, a cada dia, em cada situação, em cada encontro e detalhes cotidianos. É um caminho Kenótico e pascal, que aprendemos na oração e contemplação do itinerário pascal de Jesus e na vivência comunitária de seu projeto.

Ao contemplar e celebrar a entrega de Jesus na cruz, compreendemos que Ele a assumiu não como maldição e morte, mas em consequência de sua opção radical pelo Reinado do Pai, uma opção autêntica de vida em favor da vida em abundância para todos os povos e culturas, um instrumento de libertação e salvação, de amor-reconciliação, de horizontalidade relacional. Na cruz, Jesus abraça as vulnerabilidades dos pobres e do planeta crucificados, denuncia o triste processo de desumanização, de ódio e violência do sistema e dos corações das pessoas, através do grito, do perdão e do silêncio e dos gestos proféticos em favor de uma cultura da paz. 

Nestes tempos sombrios, a mística e a missão que brotam da Cruz redentora do Nazareno e de sua ressurreição, ápice do mistério pascal, fonte de vida e paz, nos revela a vitória da paz contra todo ódio, toda violência, toda guerra, desrespeito e intolerâncias. A páscoa é sempre passagem da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. A Ressureição de Jesus é a expressão máxima da força revolucionária do amor que vence todas as forças de morte e aponta para um mundo novo possível. Um mundo capaz de visibilizar e tornar cada vez mais próximo o Reino de Deus, que é Reino de Justiça e paz no meio de nós!

Neste horizonte, o Papa Francisco nos recorda que a arquitetura da paz requer esforços comuns em diferentes, níveis: pessoal, comunitário e institucional. Desta forma, todas e todos nós somos convidadas/os a celebrar a páscoa de Jesus como artesãs e artesãos da cultura da paz, do encontro, da amizade social, da sinodalidade, através de um trabalho artesanal diário. 

A paz é fruto da Justiça, da humanização das relações, da partilha dos bens e dos dons, e da defesa dos direitos dos pobres. Oxalá nossas comunidades eclesiais de base sejam oficineiras de paz, espaço de irmãs e irmãos que se amam e se comprometem com o anuncio do “Evangelho da vida e da paz, como presença do Ressuscitado que vive em nós e entre nós. Uma páscoa de paz para todos e todas!

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