ColunistasSergio Coutinho

“E as comunidades de base como vão?
As cartas do Pe. Comblin de 1976.

Nestes últimos anos estou envolvido numa pesquisa na Faculdade sobre a documentação “confidencial” do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem do Regime Militar (1964-1985), especialmente documentos que diziam respeito à atuação de cristãos e cristãs naquele período de nossa história.

Neste vasto material, encontramos um conjunto de oito cartas escritas pelo teólogo da libertação belga e radicado no Brasil: Padre José Comblin (1923-2011). Elas foram remetidas de Bruxelas (Bélgica) e destinadas a amigas e amigos da Arquidiocese de Olinda-Recife, datadas de 1976. Estas cartas foram interceptadas pelos militares brasileiros que monitoravam Comblin, mesmo depois de ter sido expulso daqui em 1972, por ser alguém “altamente subversivo”.

Nestas cartas podemos perceber, claramente, que Comblin colocava sua esperança no trabalho com a “base”. Mantinha uma preocupação grande com as experiências pastorais pós-conciliar e seu compromisso ético com os pobres. Mesmo longe daquele cotidiano brasileiro, não deixava de ser crítico com a realidade.

Numa delas questionava por quais caminhos estavam seguindo as “comunidades de base”. Foram naqueles anos que as experiências das CEBs começavam a dar o “ar da graça”.

Comblin sentia que as CEBs estavam numa “fase difícil”. Achava que deveria intervir porque havia certas coisas que levavam “necessariamente ao fracasso”. A preocupação dele era o encaminhamento das CEBs para uma “prática política” a “curto prazo e totalmente utópica” adiando, assim, “os problemas de uma inserção cultural real e profunda”. Para ele a opção de uma ação política imediata era estreita demais. Por isso, defendeu uma aproximação maior com a cotidianidade do “mundo da vida”: “[…] A comunidade humana e cristã fundamental não se cria ao redor da realidade política e dos problemas políticos. Ela é anterior a política – historicamente e qualitativamente. O seu conteúdo humano é a vida cotidiana – a cotidianidade, como dizem os filósofos. Isto é a família (casal, filho, lar e sexualidade em todas as formas) com todos os gestos de cada dia (comer, dormir, amar – ou odiar – conversar) depois a vida da vizinhança, a habitação, os vizinhos, os grupos e as relações que se criam nessa base, depois os ritmos da vida que se renova a partir da biologia […], das estações, do ano solar; depois as festas e a alegria como a tristeza da vida […]. Tudo aquilo é vida diária e muda muito pouco com a mudança de regime [político]”.

Independentemente do regime político que se vivia, era no “cotidiano” que se deveria suscitar uma “verdadeira comunidade cristã”. Era lá, no cotidiano da vida, que se daria “uma consistência mais livre, um conteúdo de libertação humana, e isso não se faz por meios políticos”, pois estes não mudariam “o amor, nem o casal, nem a doença […], nem a velhice”. A comunidade cristã deveria ser, antes de qualquer coisa, espaço de “continuidade de festas ou celebrações” dessas realidades diárias.

Por isso, defendia o jeito de ser das comunidades afro-brasileiras, como o Xangô de Pernambuco. O Xangô (semelhante ao Candomblé baiano) era, para ele, “uma celebração da vida diária, e por isso mesmo dá ao povo nesse nível um começo de verdadeira libertação”.

Até mesmo a Teologia da Libertação foi objeto de críticas neste mesmo sentido. Ela era coisa de “universitários” e não das “bases”. Falando sobre apresentar ou não aquela teologia para os pescadores, afirmou: “[…] Que tem a ver a teologia com eles? Melhor seria enxergar a condições deles, e sobretudo a cultura deles. Tradicionalmente, os pescadores formam uma classe totalmente isolada. Nunca estiveram bem incorporados na Igreja. […] Em todo caso, não adianta procurar impor-lhes uma libertação, que não lhes interessa. Será preciso partir do tipo de religião e de cultura deles. Não conheço nenhuma teologia da libertação para os pescados. A teologia da libertação é concebida em função dos universitários para universitários. Melhor não partir de preconceitos, mas dos próprios pescadores”.

Ao ler estes trechos do Pe. Comblin, ficamos nos perguntando diante da conjuntura político-eclesial atual: devemos voltar às “bases” da vida cotidiana e deixar de lado a política partidária? Como andam as nossas CEBs?

Sérgio Coutinho

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