Esta parece ser mais uma daquelas perguntas sem sentido que são feitas às pessoas religiosas. Se elas creem em Deus, logicamente sabem em que Deus acreditam. Além do mais, sabem que só existe um Deus, logo, parece tolice perguntar algo assim. Contudo, uma reflexão mais profunda nos levará a perceber que a questão não é tão simples. O antigo problema da idolatria permanece muito atual. Aliás, talvez seja o problema fundamental. Ainda hoje, corremos o sério risco de adorar a ídolos em vez de adorar ao Deus verdadeiro. Podemos pensar estar adorando ao Deus de Jesus, quando podemos estar adorando a um deus criado por nós ou por outros. Talvez, um deus feito a imagem e semelhança de nossos preconceitos.
A idolatria é um pecado pouco tratado, por isso, pode parecer insignificante. Muitos nem sequer ouviram falar nele. E quando ouvem, associam à veneração de imagens que alguns irmãos de outras Igrejas (não todos) chamam de adoração e, portanto, de idolatria. Na verdade, o problema é muito mais sério e está em todas as Igrejas e religiões. A idolatria consiste em adorar o que não é Deus, colocando muitas coisas no lugar dEle. Na Bíblia, ela é o problema fundamental. Por isso, o biblista José Luiz Sicre explica que a idolatria na Escritura pode ser entendida em dois sentidos fundamentais: Adorar os rivais de Deus e querer manipular a Deus.
A adoração aos rivais de Deus rompe com o primeiro mandamento: “Não tenha outros deuses diante de mim” (Ex 20,3; Cf. Dt 5,7). Esses rivais de Deus podem ser: 1) explicitamente figuras chamadas de deuses, como Baal, Astarte, Asherá (Cf. 1Rs 11,5; 18,21; 2Rs 21,7; Br 6,29.35-37); 2) as armas divinizadas (Cf. Os 8,14; Mq 5,9-10); 3) os impérios divinizados (Cf. Is 31,1.3; Jr 2,36); 4) as riquezas divinizadas (Cf. Sl 62,6.11; Sf 1,18; Jr 9,22; Mt 6,24; Cl 3,5; Ef 5,5). Os profetas foram os maiores críticos da idolatria na Bíblia. Inclusive, como nos lembra o grande teólogo Gustavo Gutiérrez, foram os profetas que retiraram o pecado da idolatria apenas do âmbito do culto, da liturgia e ajudaram a perceber que ele pode acontecer em vários aspectos do dia a dia, como visto acima (armas, governos/impérios, riquezas etc.). Além do mais, os profetas também despertaram para outra forma de idolatria que é a manipulação de Deus.
Tal manipulação é bem mais difícil de detectar, pois acontece dentro da religiosidade vivida como serviço ao Deus verdadeiro. É um pecado silencioso porque é “religioso”, isto é, disfarçado de religiosidade. Esta forma de idolatria rompe com o segundo mandamento: “Não pronuncie em vão o nome de Javé seu Deus” (Ex 20,7; Cf. Dt 5,11). É bom lembrar que a proibição de pronunciar em vão o nome do Senhor não é simplesmente proibir falar o nome “Deus”, mas evitar usar esse nome para querer controlar o Senhor, como se fosse uma fórmula mágica, como acontecia em muitas religiões da antiguidade. A proibição, portanto, é contra a tentativa de manipular a Deus. E isso acontece muito entre nós. O grande biblista Von Rad já alertou que “não existe uma única verdade de fé que não possamos manipular idolatricamente”. Ou seja, podemos facilmente tomar uma verdade de fé e distorcê-la. Isso é idolatria, pois acabamos adorando a uma falsa imagem de deus em vez de adorarmos a Deus mesmo. Por isso, a idolatria é mais grave do que o ateísmo.
Como recordou Gustavo Gutiérrez, “nas Escrituras, a rejeição a Deus é apresentada não como ateísmo, mas como idolatria, isto é, como a afirmação de um falso deus” (Gutiérrez). Por isso, o Papa Francisco já alertou que “mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro” (EG 89). Uma pessoa que não acredita em Deus pode fazer o bem, pode amar e, assim, fazer a vontade de Deus, mesmo sem o saber. Francisco já afirmou que “o paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes” (FT 74). Já o idólatra não, ele não pode fazer a vontade de Deus, pois em nome da sua religiosidade distorcida, acaba pensando ou dizendo servir a Deus, quando, na verdade, descumpre sua vontade.
Nesse sentido, a idolatria não pode ser vista, como no passado, como a prática de outras religiões. Como se pelo simples fato de nomear Deus diferente, já significasse que adoram a um deus falso. Também sobre isso se pronunciou o grande profeta de nossos tempos, o Papa Francisco. Em sua viagem a Singapura, afirmou: “Todas as religiões são um caminho para nos aproximarmos de Deus… Só há um Deus, e nós, as nossas religiões são linguagens, caminhos para chegar a Deus. Uns sikh, outros muçulmanos, outros hindus, outros cristãos, são caminhos diferentes”. A idolatria, quer dizer, a adoração a falsos deuses ou a adoração falsa a Deus pode acontecer em qualquer religião, inclusive no cristianismo. Não porque temos imagens de santos. Ah se idolatria foi algo tão simples! As imagens são símbolos de homens e mulheres que dedicaram sua vida a Deus, ao Evangelho. Possuí-las é uma opção. Mas são, de qualquer modo, sinais que nos apontam para Deus.
A verdadeira idolatria é ter atitudes contrárias a vontade de Deus e ainda dizer que elas são feitas em nome dEle. Por exemplo, na época da colonização da América Latina, muitos indígenas foram chamados de idólatras, porque cultuavam vários deuses. Mas a maior idolatria foi feita pelos cristãos, que mataram e oprimiram os indígenas em nome de Jesus. Assim, o grande bispo Bartolomeu de Las Casas, já denunciava no séc. 16: “podemos dizer que os espanhóis, em cada ano dos que estão nas Índias, depois que entraram em cada província, sacrificaram mais à sua deusa muito amada e adorada, a cobiça, do que os índios sacrificaram aos seus deuses durante cem anos de todas as índias”. Aqui, Bartolomeu de Las Casas mostra que o verdadeiro deus dos espanhóis não era Jesus, mas sim a cobiça. Pois guiados por ela que eles mataram os indígenas, não por fidelidade ao Evangelho.
Mas semelhante lógica de opressão continua se dando hoje no mundo, principalmente, na América Latina. Por isso, se na Europa nos últimos tempos, a preocupação maior era com o ateísmo ou como falar de Deus num mundo que se tornou adulto, na América Latina o problema sempre foi a idolatria. E uma reflexão profunda levará a perceber que, na verdade, é um problema para todos os continentes. Mas entre nós reina uma contradição bem mais grave: “Uma trágica característica deste continente, o único majoritariamente cristão e pobre ao mesmo tempo, é o risco de pretender dançar sobre dois pés: afirmar com os lábios o Deus de Jesus e na prática servir a Mamon, maltratando e assassinando os preferidos de Deus, os pobres” (Gutiérrez). Os poderosos se dizem cristãos, mas exploram as pessoas. O povo se diz cristão, mas não vive a fraternidade, o amor, a justiça. Inclusive, os líderes cristãos do continente, tantas vezes, legitimaram as várias formas de opressão. Isso é idolatria. É trocar o Deus de Jesus pelos ídolos de morte: poder, prestígio, dinheiro, bem estar, status.
Isso nos lembra um conto muito querido ao Papa Francisco, escrito pelo russo Dostoiévski em 1880. O conto se chama O Grande Inquisidor. É um dos capítulos do livro Os irmãos Karamásov. No livro, o personagem Ivan, que era um intelectual e ateu, cria uma história e a conta para seu irmão mais novo Aliocha, que era monge. Na história, Jesus volta a terra na Espanha do séc. 16 e é preso pela Igreja. Vejam só! Um cardeal de noventa anos o interroga na prisão: “Então, por que vieste nos perturbar? Pois Tu vieste nos perturbar, sabes muito bem disso… Nós lhes diremos que somos Teus discípulos e reinaremos em Teu nome. Vamos enganá-los novamente, pois não Te deixaremos aproximar-Te de nós”. O capítulo é longo, mas estas frases dizem muito da crítica nele presente. Muitas vezes, o Jesus verdadeiro perturba alguns religiosos que usam seu nome apenas para manipular, para se passar por seus discípulos. Isso é idolatria e acontece hoje em nossas Igrejas nas diversas formas de abuso espiritual.
Qual Deus estamos adorando? Qual Deus cremos? O Deus revelado em Jesus como podemos encontrar nos Evangelhos? Um Deus preocupado com os pobres, misericordioso, que acolhe a todos e despreza as riquezas e o acúmulo? Ou um deus indiferente aos problemas do mundo? Um deus que discrimina, que exclui, que beneficia os poderosos e promete mil riquezas? Qual Deus é adorado em nossas comunidades de fé?
