ColunistasJorge Alexandre Alves

Entre saias justas e esperanças

Há alguns dias, a pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), a médica Margareth Dalcomo foi agraciada pela Arquidiocese do Rio de Janeiro com o prêmio São Sebastião de cultura. Trata-se de uma premiação oferecida a quem se destaca na vida da cidade carioca.

A ilustre doutora foi homenageada merecidamente por tudo o que vem fazendo, não apenas no trato da pandemia, mas pelo importante papel público que vem exercendo nos meios de comunicação. E no discurso que fez ao receber o prêmio, ela apresentou suas credenciais.

Trechos de sua fala podem ser buscados nas redes sociais e na imprensa. A Dr.ª Dalcomo manifestou sua indignação diante do descalabro perpetrado pelas autoridades federais em relação à Pandemia, não poupando críticas às mentiras e ao negacionismo daqueles que são contrários à imunização da população.

Emocionada, foi às lágrimas ao reconhecer que a vacinação vai atrasar pela falta de insumos para a fabricação das vacinas necessárias. Na semana em que vimos Manaus sufocar pela omissão das autoridades, não havia como não se emocionar diante daquelas palavras.

O fato de a premiação ser oferecida por uma diocese brasileira, bem como a corajosa fala da Dr.ª Margareth Dalcomo, foram significativas e revelam muito das nossas contradições socioreligiosas. Passados dois anos de governo e após quase um ano de pandemia e mais de 220 mil mortos de Covid-19, quem colaborou na eleição deste governo de morte deveria fazer um grande ato de contrição.

Nesse sentido, o discurso da grande pesquisadora da Fiocruz coloca uma saia justa nos negacionistas, nos arautos da necrorreligião e promotores da necropolítica que estão na Igreja. Mais emblemático ainda é essa alocução ser feita diante de autoridades da mesma arquidiocese onde, nas eleições de 2018, funcionárias de sua cúria foram fotografadas fazendo o símbolo de arminha aos pés da imagem do Sagrado Coração.

Não nos cabe julgar as razões dessa premiação, muito merecida. Mas parece que estamos chegando naquele momento acertar as contas com os que negaram a gravidade da pandemia, os que apoiaram o uso de remédios que não prestavam para tratar os doentes, os que usaram o nome de Deus para satanizar as vacinas.

Homens e mulheres de Igreja, leigos, religiosos ou clérigos, não podem fazer apologia da morte e nem espalhar notícias falsas sob o risco de jogarem suas biografias na latrina da História. Que as palavras da ilustre pesquisadora provoquem uma profunda revisão de consciência em quem se comporta erraticamente nesta pandemia em nome de um cristianismo muito distante da pessoa de Jesus de Nazaré.

Ao mesmo tempo, sinais de esperança surgem aqui e ali. Não sabemos se já é possível ver uma luz no fim do túnel. Mas podemos acender velas e candeeiros para atravessar a escuridão.

Nesse sentido, vale enaltecer e ler como sinal de esperança um grupo de lideranças cristãs ter protocolado mais um pedido de impeachment do presidente da República. No ato, proferiram palavras corajosas também. Profecia, ecumenismo e sintonia com Reino de Deus. Como não se encher de esperança?

Nesses tempos tão sombrios e com tantas notícias terríveis, ver cristãos e cristãs se colocando publicamente de forma tão profética nos faz crer que as sementes do Reino ainda continuam a ser lançadas. Que mantenhamos a esperança por dias melhores, no seguimento de Jesus Cristo.

 

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