“Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31)
O Texto-Base da Campanha da Fraternidade-Sororidade 2025 – na Introdução – depois de lembrar que a palavra Ecologia deriva do grego “oikos” (casa), afirma: “O desafio para nossa conversão nesta Quaresma é cuidar da casa: da casa interior de cada um de nós (espiritualidade), da casa em que habitamos (família), da casa em que passamos grande parte do nosso tempo (trabalho), da casa em que nos relacionamos (cidade) etc. e da nossa Casa Comum (o Planeta Terra), pois nela, tudo está interligado” (16).
Embora o texto apresente de maneira clara as diversas casas das quais o ser humano – homem e mulher – deve cuidar, o texto menciona a “espiritualidade” somente quando fala da “casa interior de cada um de nós”.
Como irmão, faço uma crítica construtiva: o texto revela uma visão teológica de espiritualidade intimista, que não está de acordo com o Evangelho de Jesus de Nazaré e nem com a vida das Primeiras Comunidades Cristãs. Essa visão leva – mesmo que seja (ou, possa ser) em boa fé – a um comportamento, que costumo chamar de “egoismo religioso”, muito presente na Igreja hoje. “Eu, eu, eu te louvo; eu, eu, eu te agradeço; eu, eu, eu te peço…”. Jesus – ensinando aos discípulos a orar – não falou “Pai meu”, mas “Pai Nosso”.
A espiritualidade humana, a espiritualidade cristã (radicalmente humana) e toda verdadeira espiritualidade abrange o ser humano – homem e mulher – todo, em todas suas dimensões e relações: no mundo com o mundo, no mundo com os outros e as outras, e no mundo com o Outro Absoluto (Deus).
Sempre como irmão, faço agora alguns questionamentos, que causam muita dor no coração de quem como eu (um “jovem” de quase 86 anos) viveu intensamente e com muito entusiasmo o tempo da renovação da Igreja do pós-Concílio Vat. II e da pós-Conferência de Medellín.
- Por que a Igreja Católica no Brasil – quando diz que o modelo econômico brasileiro (às vezes chamado modelo de desenvolvimento capitalista) produz muitas desigualdades e injustiças socioambientais gritantes, juntamente com o envenenamento e a profanação da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum – não diz também, de maneira clara e profética, que esse modelo se chama hoje sistema econômico capitalista neoliberal ou ultraneoliberal, estruturalmante perverso, cruel, irracional, desumano, antiético e anticristão ?
- Por que a Igreja Católica no Brasil – nestes últimos tempos – não cita mais, em seus Documentos e nem na Bibliografia ou Lista das Síglas (a não ser muito raramente um ou outro Texto) o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín?
- Por que a Igreja Católica no Brasil não fala mais (ou fala muito pouco) da Igreja Povo de Deus e do que isso significa para nós hoje? Na Igreja Povo de Deus, todos e todas somos filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe que é Deus, irmãos e irmãs em Cristo e temos o mesmo valor. Pergunto: existe uma dignidade maior do que essa? Na visão de Igreja, Povo de Deus, que se baseia no Evangelho e na vida das Primeiras Comunidades Cristãs, não existem classes. Não existem superiores e inferiores ou subordinados, mas somente coordenadores e coordenadoras. A Igreja que Jesus quis e quer não é uma pirámide, mas um círculo.
Só “existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo; serviços diferentes, mas o Senhor é o mesmo; modos diferentes de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos e em todas. Cada um e cada uma recebe o dom de manifestar o Espírito para o bem de todos e de todas” (1Cor 4-7).
Como estamos longe de uma Igreja realmente de acordo com o Evangelho e a vida das Primeiras Comunidades Cristãs!
- Por que hoje, na Igreja Católica no Brasil, quase ninguem conhece e fala da visão de Paróquia e de Comunidade de Base da Conferência de Medellín, que é uma releitura do Concílio Vaticano II para a América Latina e o Caribe?
- Para a Conferência de Medellín, a Paróquia é “um conjunto pastoral unificador de Comunidades de Base” (Med. XV, 13) e a Comunidade de Base é “o primeito e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Ib. 10).
- A visão de Igreja hoje não é ou não voltou a ser uma visão clerical, que não tem nada a ver com o Evangelho e o jeito de ser das Primeiras Comunidades Cristãs? Meditemos!
- “Aprouve a Deus salvar e santificar os seres humanos (homens e mulheres), não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles e elas, mas constituindo-os em Povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente” (LG, 9)
- Por fim, o conceito de Ecologia Integral, presente na Encíclica Laudato Si’, destaca que a responsabilidade do ser humano – homem e mulher – de cuidar da Casa Comum, promovendo justiça social e ambiental, é parte integrante da ética e espiritualidade cristã (ética e espiritualidade radicalmente humanas).
Parabéns a todos os companheiros e a todas as companheiras, que – como irmãos e irmãs – lutam por um Mundo Novo. Feliz Páscoa!
https://cnbbsul.org.br/cebs-igreja-em-saida-na-busca-de-vida-plena-para-todos-e-todas-
regional-sul-i-presente-no-15o-intereclesial-das-cebs/
Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br – Cel. e WA: (62) 9 9979 2282
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Goiânia, 21 de março de 2025