Gotas de ConjunturaJorge Alexandre Alves

Gotas de Conjuntura #05 | Outubro.2022

Sobre Fé e Política

As festas do Círio de Nazaré e de Nossa Senhora Aparecida escancaram as tentativas de instrumentalização da fé cristã católica nestas eleições. Entre profanação e fanatismo político, o que se viu foi a tentativa de usar o catolicismo de forma eleitoreira. 

Mais que isso, padres são intimidados na hora da homilia por abordarem temas da Doutrina Social da Igreja. Um bispo foi xingado na sacristia da catedral de sua diocese após a missa e um cardeal foi acusado de comunismo por usar vermelho. O que diriam de um conclave?

Por causa desses episódios, muitos têm dito por aí que a fé e política não se misturam. A questão não é exatamente essa porque a fé cristã sempre teve uma dimensão política. É sempre bom lembrar que Jesus foi morto pelos poderes políticos de seu tempo.

Mas como evitar esse tipo de uso político da fé do Povo de Deus? O Movimento Nacional Fé & Política apresenta uma pista ao defender que não devemos confessionalizar a política (O Estado é laico) e nem partidarizar a fé. 

O que vimos em Aparecida neste mês foi exatamente o contrário. Nossa Senhora e o Deus de Jesus Cristo foram substituídos por um novo bezerro de ouro, no qual pessoas alcoolizadas são os devotos de um falso messias.

Nos porões da barca de Pedro

Quem são estes que hoje atacam padres durante suas homílias? Quem são os questionam até um cardeal da Igreja pela cor de suas vestes? Porque um bispo é xingado por fazer sua pregação em sintonia com o Evangelho de Jesus? Quem são os que invadiram enfurecidos o Santuário Nacional no dia 12/10?

Saber quem são estes que se portam como cruzados do século XXI é adentrar os porões da “Barca de Pedro”. Ainda que a esmagadora maioria dos católicos não sejam intolerantes, o enxofre derivado do fundamentalismo religioso contamina pastorais, movimentos, e até seminários. 

Isso permite que extremistas (catolibãs) – usando massivamente as redes sociais e contando muitos recursos – espalhem a cizânia da intolerância religiosa. Aparecida foi a versão mais explosiva do perigo que essa gente representa.

A Igreja e a campanha eleitoral

Fundamentalistas católicos flertam com o autoritarismo e, junto com radicalóides do campo evangélico, produzem uma distorção da fé que podemos chamar de necrorreligião. Usam a morte (ainda que simbólica) como estratégia de afirmação de sua visão religiosa.

A despeito disso, a Igreja orienta que a política é um campo importante enquanto espaço de construção do Bem Comum. A Doutrina Social da Igreja desde o final do século XIX fala de justiça social e promoção humana.

Atualmente, o magistério da Igreja está comprometido com os direitos humanos e faz uma crítica contundente ao capitalismo de rapina que destrói as famílias e condenam milhões à fome e ao desalento. O Papa Francisco tem insistido na defesa das necessidades básicas de toda pessoa: terra, teto e trabalho.

Em outras palavras, se a Igreja obviamente não tem partido, isso não significa que não tenha lado. Ela está ao lado dos empobrecidos, daqueles com quem Jesus mais se identificava.

Portanto, para quem é batizado e se diz seguidor de Cristo, não deveria ser difícil escolher dentre as candidaturas aquela que se coloca ao lado da vida e da justiça. Não se trata de misturar fé e política, mas sim de viver coerentemente a fé que se professa.

O termômetro das Pesquisas eleitorais

O cenário eleitoral permanece muito estável. Apesar de todas as confusões causadas em Aparecida e com aliados que atiram na Polícia Federal, o atual presidente parece não perder votos já conquistados. Efeitos da necrorreligião que confere suporte à necropolítica reinante no Brasil há alguns anos.

Por outro lado, apesar de todos os ataques e mentiras, o candidato petista não perde votos. A maior parte do eleitorado está convicta de suas escolhas.

Se as pesquisas no primeiro turno não subestimaram o voto no presidente, por outro lado mostraram um panorama que não se modificou neste segundo turno. A cada dia que passa, a reeleição fica mais improvável para Bolsonaro.

Somente teremos alguma mudança até as eleições se a abstenção aumentar significativamente no dia da eleição. Ou se acontecer um fato político de grandes proporções nesta reta final que beneficie o presidente.

Ao que parece, a máquina de fake news parece apresentar sinais de esgotamento. O que ela poderia produzir em termos de votos já aconteceu no primeiro turno.

Em se mantendo a tendência das pesquisas, como se portarão os derrotados? Dia 31 de Outubro saberemos.

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