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Igreja na cidade: Lugar e fermento de fraternidade
Por Francisco de Aquino Júnior

Vivemos em sociedades urbanas. A grande maioria da população (sobre)vive em cidades de médio e grande porte. Quando falamos de cidade ou de mundo urbano, falamos de uma forma de organização social do espaço que, por sua vez, produz um modo ou estilo de vida. O grande paradoxo da cidade é que se, por um lado, ela aparece como lugar de possibilidade de vida (trabalho, saúde, educação, lazer, encontro, liberdade, novidade etc.), por outro lado, ela se configura como um lugar onde essas possibilidades são negadas a uma grande parte da população (desemprego, falta de moradia, serviços sociais precários ou ausência deles, discriminação, violência, solidão etc.). A desigualdade socioespacial é a característica mais determinante do processo de urbanização de nossas sociedades. Isso produz um ambiente de frustração, angústia, desespero e violência generalizada, cuja consequência mais visível e trágica são os altos índices de homicídio entre a população pobre e negra das periferias. Frente a essa situação de violência pandêmica, o Estado reage com mais violência através uma política de criminalização e encarceramento massivo da população pobre e negra das periferias.

Enquanto “sacramento de salvação” ou “sinal e instrumento do reinado de Deus”, a Igreja deve ser na cidade lugar e fermento de fraternidade. Deve ser um espaço onde se experimenta a fraternidade e onde se aprende a viver como irmãos (lugar de acolhida, encontro, compaixão, solidariedade, diálogo, perdão etc.). E sua missão fundamental é contagiar e fermentar o mundo com esse modo de vida fraterna. Daí o duplo caráter profético que a Igreja pode e deve exercer na cidade: ser lugar/sinal de fraternidade e ser mediação/instrumento de fraternidade. Nisso residem simultânea e inseparavelmente sua identidade mais profunda e sua missão fundamental.

Se a fraternidade é a característica e a missão fundamental da Igreja em todos os tempos e lugares, a desigualdade socioespacial, a violência generalizada, o anonimato e a solidão que caracterizam nossas cidades tornam a fraternidade ainda mais necessária e urgente em nosso mundo. São os dois pontos ou momentos de nossa reflexão.

  1. Desigualdade socioespacial, violência, solidão e desespero

Falar da cidade ou do mundo urbano é falar de uma forma de organização social do espaço (geografia, estruturas, economia, política, religião, meios de comunicação social, entidades sociais etc.) que, por sua vez, produz um modo ou estilo de vida muito peculiar (ritmo/rotina, relações, valores, cosmovisões etc.). Trata-se de uma realidade complexa e dinâmica, constituída por uma multiplicidade de elementos, aspectos, processos, relações e instituições em tensões, interações e conflitos.

Não podemos fazer aqui uma abordagem ampla da cidade que contemple seus vários elementos, aspectos e processos. Queremos simplesmente destacar três traços ou características de nossas cidades que tornam ainda mais relevante e urgente a missão da Igreja de ser lugar e fermento de fraternidade.

Desigualdade socioespacial

A característica mais marcante do processo de urbanização de nossa sociedade e/ou de construção e gestão de nossas cidades é o que algumas urbanistas brasileiras têm chamado de “desigualdade socioterritorial” (Raquel Rolnik) ou “segregação territorial” (Ermínia Maricato). Trata-se de uma forma de ocupação e organização social do espaço que oferece e garante um conjunto de equipamentos, serviços e possibilidades para um setor privilegiado da sociedade, ao mesmo tempo em que nega ou precariza esses equipamentos, serviços e possibilidades para a grande maioria da população. É um modelo de “urbanização desigual”, pensado e gerido em função do capital e que segrega grande parte da população, excluindo-a dos bens, serviços e possibilidades da cidade. Seu resultado é uma cidade para poucos; uma cidade na qual a exclusão/segregação social é a forma habitual de inclusão/integração de grande parte da população.

É importante não esquecer que o processo de urbanização de nossas sociedades se deu no contexto e/ou em função do processo de industrialização que se desenvolveu na Europa a partir da segunda metade do século XVIII. Uma parcela cada vez maior da população vai se concentrando em torno ou nos arredores das fábricas em condições muito precárias ou mesmo subumanas. Assim vão nascendo e/ou crescendo as cidades modernas: em função do capital (fábrica/serviços) e de forma segregadora (centro/elite X periferia/pobres). Na Europa, a organização e as lutas da classe operária levaram à conquista de um conjunto de direitos trabalhistas e sociais que resultou num processo significativo de democratização das cidades. Entre nós, não obstante conquistas sociais importantes, o modelo de “urbanização desigual” manteve-se praticamente inalterado, sem universalização de serviços básicos e com aumento e aprofundamento da segregação socioespacial. Basta ver a situação das periferias de nossas cidades e o aumento da população em situação de rua nos grandes centros urbanos.

Violência pandêmica

No contexto mais amplo da desigualdade socioespacial que caracteriza nossas cidades está um fenômeno novo, tipicamente urbano, conhecido como “violência urbana”. Suas formas são diversas: furtos, tiroteios, homicídios, gangues, tráfico, milícias, violência policial, agressão no trânsito, espancamento de moradores de rua, negros e população LGBT, feminicídio, fake news e milícias digitais, entre outras. E seus índices são assustadores. Basta ver as taxas de homicídio e de encarceramento. Mas é importante também atentar para suas principais vítimas: pobres e negros.

É claro que a violência não um fenômeno novo nem exclusivo da cidade, mas adquiriu aí dimensões, proporções e características novas e assustadoras. E é claro que a desigualdade não é a única causa da violência. Mas, além de ser uma forma de violência, desencadeia e/ou cria um ambiente fecundo para muitas outras formas de violência, interagindo com elas e agravando-as ainda mais. Acrescente-se a isso a forma violenta e segregacionista como o Estado vem enfrentando a situação de violência pandêmica de nossas cidades: “substituição gradual da rede de assistência do Estado de bem-estar social pela ‘rede de arrasto’ da polícia, dos tribunais e das prisões” (Loïc Wacquant).

Solidão e desespero

Ligados à desigualdade socioespacial e à violência pandêmica estão a solidão e o desespero de uma parcela significativa e crescente da população de nossas cidades: trabalhadores desempregados, jovens sem perspectiva, vítimas do tráfico, dependentes químicos, idosos abandonados e explorados, mulheres violentadas, população em situação de rua, dentre outros. Basta ver os índices de pessoas com depressão e o “sucesso” do pentecostalismo, centrado em questões subjetivo-existenciais.

É curioso: O lugar da multidão é, para muita gente, o lugar da solidão (está junto não é está próximo!); o lugar das possibilidades se torna para muita gente o lugar do desespero (existência de possibilidade não significa acesso a elas!). A vida é um processo dinâmico, cuja realização se dá na interação bens-relações-sentido. O desafio é garantir os bens necessários, promover relações saudáveis e viver com alegria e esperança.

  1. Fraternidade e amizade social

Esse contexto de desigualdade socioespacial, violência pandêmica, solidão e desespero que caracteriza nossas cidades provoca a Igreja a pensar e centrar-se naquilo que constitui o centro de sua missão no mundo: a vivência e propagação da fraternidade como expressão por excelência da comunhão com Deus. A vivência do amor fraterno não é um ponto entre outros na Igreja, mas o modo cristão de ser humano, a forma de viver a comunhão com Deus, a marca fundamental da fé ou da vida cristã: “Nisso conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns para com o outros” (Jo 13,35).

A Encíclica Fratelli Tutti do papa Francisco “sobre a fraternidade e a amizade social” insiste naquilo que é a característica e missão fundamental da Igreja e a necessidade e urgência maiores de nosso tempo: “todos irmãos”. Ela é uma “humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (FT 6).

Certamente, a vivência da fraternidade e a construção de um mundo fraterno não se dão apenas na Igreja nem são tarefas exclusivas da Igreja. Menos ainda numa sociedade plural como é a sociedade urbana, onde a religião é um espaço e uma referência entre outros e onde o próprio universo religioso é bastante plural (diversidade de igrejas, tradições e experiencias religiosas). Mas, no meio dessa pluralidade toda e em interação e colaboração com ela, a Igreja tem uma dupla tarefa/missão: ser lugar/sinal de fraternidade e ser mediação/instrumento de fraternidade.

Lugar/sinal de fraternidade

Enquanto comunidade dos seguidores de Jesus, a Igreja deve ser lugar de encontro com Ele e de escuta e vivência de seu Evangelho que é a manifestação da bondade de Deus (Pai) em sua ação salvífico-libertadora (reinado de Deus). Ela deve ser um lugar onde se se aprende a viver como irmãos, a servir, a ser suporte uns para os outros, a perdoar, a amar até os inimigos, a fazer o bem até a quem faz o mal, a ser humilde, a ter compaixão com os caídos à beira do caminho e com a humanidade sofredora, a acolher os que são banidos da convivência social e tratados como impuros e pecadores.

Está em jogo, aqui, um modo de vida, dinamizado pela lógica do amor fraterno que nos faz irmãos uns dos outros e filhos de Deus. É que a relação filial com Deus se vive, manifesta-se e é medida pela relação fraterna com os irmãos. Deus é amor e quem vive em Deus só pode viver no amor com os irmãos (1Jo 4,7-21). Essa é a marca fundamental do ser cristão (Jo 13,34) e a exigência fundamental da fé (Jo 15,12), cujo critério e cuja medida são sempre o fazer-se próximo dos caídos à beira do caminho (Lc 10,25-37) ou o fazer ou não fazer aos pequenos e pobres (Cf. Mt 25,31-46).

Isso é tão claro na Escritura que é difícil alguém negar abertamente. Em princípio, todos estão de acordo com isso. Mas quando a gente olha para a vida concreta de nossas comunidades, não é preciso fazer muito esforço para perceber que no centro da vida de nossas comunidades estão a reprodução e o crescimento institucional (culto, doutrina, templo, dízimo, ministros, fiéis etc.) e não a vivência e propagação da fraternidade. Sem falar que muitas vezes nossas comunidades se tornam lugar de preconceito, intolerância, ódio e até aversão aos direitos humanos. O grande desafio é fazer da fraternidade o centro da vida de nossas comunidades: fraternidade entre os membros da comunidade, fraternidade com que não são de nossa comunidade e, sobretudo, fraternidade com os pobres, marginalizados e sofredores da sociedade. Isso faz da Igreja lugar (onde se vive) e sinal (que manifesta) do reinado de fraternidade, justiça e paz anunciado por Jesus.

Mediação/instrumento de fraternidade

A Igreja não existe para si, mas para a missão. Ela é missionária por sua própria natureza. Como insistiu a Conferência de Aparecida em 2007 e como insiste a I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe a ser realizada no México em novembro de 2021, “somos todos discípulos missionários em saída”. E nossa missão é tornar presente o reinado de Deus nesse mundo; ser fermento, sal e luz do reinado de fraternidade, justiça e paz anunciado/realizado por Jesus de Nazaré.

Isso se dá, antes de tudo, pela vivência do Evangelho na comunidade. A primeira e a mais fundamental forma de anúncio do reinado de Deus é sua vivência em comunidade. Na medida em vivemos como irmãos, propagamos a fraternidade no mundo. Esse foi o impacto primeiro da Igreja no mundo: “Vede como eles se amam” (Tertuliano). E continua sendo a forma autenticamente evangélica de propagação da Igreja. Noutras palavras, a Igreja se torna mediação/instrumento de fraternidade na medida em que se constitui como lugar/sinal de fraternidade.

A partir dessa vivência comunitária da fraternidade, a Igreja vai buscando/criando caminhos e meios de propagação da fraternidade no mundo: convivência fraterna com cristãos de outras Igrejas, crentes de outras religiões e não crentes; atenção às situações de sofrimento e injustiça social no bairro e na cidade; criação de ministérios e organismos de serviço aos idosos, doentes, encarcerados, enlutados, migrantes, população em situação de rua, vítimas do tráfico etc.; acolhida e consolo das pessoas em situações de sofrimento as mais diversas; apoio e colaboração com movimentos e organizações populares na luta pelos direitos dos pobres e marginalizados, dentre outros.

Dessa forma, a Igreja se torna verdadeiramente fermento/sal/luz de fraternidade na cidade e, assim, sinal e instrumento do reinado de Deus nesse mundo – verdadeiro Evangelho para a humanidade sofredora.

Francisco de Aquino Júnior[1]

[1] Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität Münster – Alemanha; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte, CE – Brasil.

 

 

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