Celso Pinto CariasColunistas

Igrejas e religiões são serviços essenciais, mas…

Este é um assunto que tem se tornado recorrente. O presente colunista já escreveu sobre o assunto em perspectiva exclusivamente católica.

No cenário que estamos vivendo tem sido muito difícil qualquer conversa madura sobre o tema. Algumas posições esbarram em má fé.

Não há dúvida que igrejas e religiões são serviços essenciais. A questão de fundo é: como definir o que é “essencial”, como relacionar tal definição com a situação de pandemia que estamos vivendo?

Experiências religiosas são essenciais para constituir um conjunto de valores que sustentam o sentido da vida e atuação de pessoas no contexto de uma sociedade, em direção à manutenção da paz, da concórdia, da ética, da solidariedade, do aprofundamento das dimensões humanas que hoje se abrem inclusive para o cosmo como um todo. O Dalai Lama perguntado uma vez sobre qual é a melhor religião respondeu: “Aquela que te faz mais humano”.

Agora, igrejas e religiões são essenciais para reunir pessoas em templos? O Rito é uma estrutura antropológica fundamental, isto é, faz parte da própria condição humana e não apenas das religiões.  Porém, o Rito faz memória do essencial, isto é, daquilo que é mais importante. O Rito transformado em mero ato cultual para manutenção institucional perde completamente a sua função. O templo é um espaço privilegiado para celebrar a memória do caminho simbólico que determinada religião construiu para oferecer razões de viver. O Rito não pode ser uma espécie de “mágica” para mudar a vida.

Entretanto, se não existir o templo físico, não existirá possibilidade de memória? No que diz respeito ao cristianismo, houve a memória do Caminho de Jesus Cristo por mais de duzentos anos sem nenhum prédio. Somente no século terceiro a Igreja (que significa “Assembleia” em grego) passou a se reunir em prédios específicos para o culto. Foram duzentos anos de reuniões pelas casas.

Se um incêndio destruir o templo, a possibilidade de manutenção do caminho de fé será eliminada?

Ora, nenhuma pessoa, em sã consciência, pode hoje menosprezar o processo de construção simbólica de templos, de lugares de culto. Porém, é preciso ter capacidade de apontar o que é fundamental em determinadas circunstâncias.

Quando nas duas últimas grandes guerras começava um bombardeio, qual era o refugio principal: as igrejas? Não. Mas lugares construídos para a proteção da população da grande capacidade de destruição das bombas (bunkers), geralmente no subterrâneo. Interessante que no início do cristianismo o lugar de proteção era o cemitério (catacumbas, no subsolo).

Estamos vivendo uma pandemia altamente contagiosa e mortal. Neste momento o vírus já tem mutações com maior capacidade de transmissão. Então, sem tentar encontrar caminhos alternativos, que existem, as religiões, sobretudo as igrejas cristãs, entram no discurso da manutenção do culto na garantia de que farão “rígidos” protocolos. Todavia, se uma pessoa, uma única pessoa, morre por ter sido contagiada em uma igreja, de quem é a responsabilidade? Quer protocolo mais rígido do que o de muitos hospitais?

O essencial é a defesa da vida. Lembro com grande entusiasmo, que a nossa região, já diocese católica de Duque de Caxias/RJ, em 1988, foi atingida por uma das maiores enchentes, comum na Baixada Fluminense. O salão anexo a catedral virou um verdadeiro hospital de campanha. Por muitos anos as pessoas lembraram o gesto de solidariedade da Igreja.

Neste momento, será que Igrejas e Religiões serão lembradas por incentivar e promover a vacinação das pessoas, o instrumento mais eficaz para a diminuição de mortes, além, é claro, das medidas protetivas, ou serão lembradas pela omissão diante de uma tragédia?

Não me venham com argumentos secundários. Tipo: “o pessoal tá indo para praias, bares”, as autoridades mesmas não tem planejamento efetivo, é um fecha não fecha que deixa a população confusa. Assim sendo, vamos fazer o errado? Não vamos testemunhar?

Se o Evangelho fosse escutado na condenação de Galileu, como inclusive alguns cardeais que o defendiam queriam, hoje não teríamos que pedir desculpas por este erro grosseiro: “mas que a terra é redonda é”. Ou seja, quais são os interesses de fundo para defender algo que mesmo com todos os protocolos, pode acarretar doença e morte?

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal das CEBs

 

 

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