Celso Pinto CariasColunistas

Lázaro: “um vagabundo a menos” ou “Jesus chorou”

Os/as leitores/as desta coluna que me conhecem vão estranhar o título, e com razão. E os que não me conhecem poderiam pelo menos ler até o final. Leitura tem se tornado algo incomum hoje em dia.  Acho que não vão mudar de ideia, mas poderiam dar um intervalo na reação e pensar um pouco. 

“Jesus chorou” é o menor versículo da Bíblia (João 11,35). E por quem Jesus chorou? Pela morte do amigo LÁZARO. Marta, irmã de Lázaro, encontra o Nazareno no caminho e diz: “se estive aqui meu irmão não morreria”.

Alguém já pode ter pensado: “Não vai me dizer que você vai comparar o Lázaro do Evangelho de João com o criminoso morto em ‘uma troca de tiros’ com a polícia depois de ter cometido um montão de crimes bárbaros, entre os quais estupro e assassinato?” Não, não vou comparar. O objetivo aqui é só mostrar o quanto Jesus nos convida a ter um olhar mais profundo sobre a vida. E este olhar muda o mundo para melhor. 

No final da segunda grande guerra, o mundo parecia ter aprendido uma lição. Aqueles horrores deveriam ser evitados com persistência. A ONU, recém-formada, sintetizou uma reflexão que já vinha desde o século dezoito, quando um pensador chamado Emanuel Kant formulou uma filosofia que falava da dignidade fundamental de toda pessoa humana: nenhuma pessoa tem valor de troca, cada pessoa vale por si mesma. Trata-se do que viria a ser chamado de Direitos Humanos. Costumo dizer para meus alunos que o verdadeiro criador desta ideia foi Jesus de Nazaré. 

No entanto, a crise civilizatória na qual estamos metidos tem “ressuscitado” um instinto de defesa que, historicamente, só tem levado a humanidade à autodestruição. Para que a vida seja protegida, segundo esta visão, seria fundamental identificar inimigos, demonizá-los e, se não houver jeito, matá-los. Criam-se afirmações que respondem a todo mal existente no mundo, sem perceber a complexidade dos interesses que o mal representa. Uma delas é a expressão vagabundo, muito utilizada pelas polícias brasileiras. Aqui na Baixada, muita “gente boa” justifica a necessidade de eliminar uma pessoa assim: “Ah, menos um vagabundo”; “Se foi morto é porque estava devendo”. 

Assim sendo, Lázaro é um vagabundo a menos. No Jacarezinho foram vinte e oito a menos. E quem parte deste princípio não aceita nenhuma observação mais reflexiva em torno do fato. Logo identifica quem problematiza como “defensor de vagabundo”: “leva para casa”; “queria ver se fosse com sua família”; e por aí vai. 

Chorar faz parte da vida. Quem chora sente algo que o machuca. E o choro pode revelar, entre outras coisas, uma grande sensibilidade pelo outro, pela outra. E quando perdemos a sensibilidade podemos criar respostas que se confundem com proteção, mas que nos afundam ainda mais no caos. Há sinais indicando grande perda de sensibilidade promovida pelo poder dominador e que chega até aos mais pobres, conduz muitos a se tornarem assassinos de si mesmo. 

Jesus também choraria a morte do Lázaro brasileiro. Choraria não por que aprovaria seus atos horríveis, não porque ele estaria do lado dos “vagabundos”, mas por ver quantos lázaros estão a caminho se não somos capazes de frear a lógica da vingança, que impede a repetição de mecanismos que nunca colaboraram para construir paz. Choraria, por ver com profundidade o que está escondido por trás de quem mata humanos como um troféu e não procura impedir, verdadeiramente, a perpetuação do mal.

Choraria por ver que tanto quem está em um garimpo matando índios ou em uma favela matando traficantes, são instrumentos de um poder muito maior que suas armas de fogo.

E quantos se colocarem no caminho de quem domina a sociedade poderão ser então rotulados de vagabundos para justificar seu extermínio: desde um criminoso até um professor, um trabalhador da área da saúde, ou um bancário que faz greve em busca de melhores dias. E quem vai apertar o gatilho? Não serão os acionistas das grandes corporações, não serão os latifundiários que querem mais terras, ou ainda autoridades políticas a serviço do “deus mercado”, mas capatazes com armas nas mãos se achando tão poderosos quantos aqueles que lhes fornecem as armas. 

Subindo então no alto do Corcovado, onde está o monumento do Cristo Redentor, Jesus de Nazraé choraria como chorou sobre Jerusalém: “E, como estivesse perto, viu a cidade, e chorou sobre ela, dizendo: Ah! Se neste dia também tu conhecesses a mensagem de paz! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos.” (Lc 19,41).

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