ColunistasSergio Coutinho

MAIS “PADRES CORINTIANOS” E MENOS “SÃO-PAULINOS”! (continuação da coluna anterior)

O título lembra alguma disputa entre duas das maiores torcidas do Estado de São Paulo. Mas não é nada disso! Na coluna passada, trouxemos a proposta do bispo alemão de Aliwal Norte, na África do Sul, Dom Fritz Lobinger sobre a presença de ministros para as comunidades sem eucaristia. Para estas comunidades, seria muito melhor termos “padres corintianos” do que “padres paulinos”.

A inovação pastoral que Lobinger sugere (cf. a coluna anterior) ajudaria muito a Igreja sair do dilema atual em torno da lei do celibato. A Igreja não precisaria abolir o celibato sacerdotal obrigatório, que continuaria sendo a norma para o tipo “paulino” de presbíteros. Segundo ele, todos os estudos recentes sugerem que tornar o celibato facultativo levaria a seu desaparecimento. Um jovem desejando servir a Igreja teria uma nítida opção entre tornar-se presbítero “Paulino” celibatário de tempo integral ou tornar-se um membro ativo de sua paróquia adotando uma profissão secular e prevendo a possibilidade de, talvez um dia, ser solicitado para se tornar um presbítero comunitário (“corintiano”), após anos dedicados ao serviço generoso.

Naturalmente, se esses viri probati tivessem apenas de preencher as posições que ficaram vazias pela falta de padres, poderiam estorvar a renovação da paróquia, por se considerarem meros funcionários. Por isso, presbíteros comunitários (como os de Corinto) somente deveriam ser introduzidos em comunidades ativas, maduras.

Em tais comunidades, quem faz o serviço não são apenas os ordenados. Uma das tarefas principais do presbítero missionário (“paulino” ou “padre diocesano”) seria promover uma renovação eclesial nas comunidades mais passivas, até que também elas estivessem maduras para escolher líderes dentro de suas próprias comunidades, que então pudessem ser ordenados como presbíteros comunitários.

A solução que ele sugere não é realmente nova; pertence às mais profundas tradições da Igreja primitiva. Voltando a ela, conseguiremos dar nova ênfase à antiquíssima tarefa de presbíteros construtores de comunidades, que infundiam vida nova na Igreja.

Segundo Lobinger, se pensamos em levar grandes partes da Igreja a esse modelo de “presbíteros comunitários”, então seria preciso perguntar se o fato seria apenas uma alternativa temporária de emergência ou algo permanente.

Deveríamos colocar essa questão especialmente por causa daqueles que resolvessem aceitar esse importante ministério novo. Poderiam ter a impressão de serem usados apenas em emergência passageira, e isso jogaria uma sombra sobre a sua profunda dedicação. Será que eles aceitariam tais sacrifícios, mesmo se depois de alguns anos pudessem ser convidados a deixarem a sua posição de ordenados? Ou poderíamos garantir às comunidades, de maneira convincente, que estariam assumindo algo permanente?

Nesta fase inicial, não poderíamos naturalmente esperar das autoridades da Igreja uma resposta oficial a essa questão. Mas, ainda segundo Lobinger, o que se poderia fazer seria esboçar como seriam os mais prováveis desenvolvimentos dentro da Igreja.

Um dos primeiros desenvolvimentos a longo prazo, e que já estamos percebendo no dia a dia, é que a Igreja será (e já está sendo) uma minoria, uma entre grande número de organizações. Já está longe o tempo quando, em muitos países (incluindo o Brasil), a Igreja e a sociedade se identificavam (regime de Cristandade). Isso tem a ver com o que estamos debatendo aqui, já que em alguns lugares onde a Igreja e sociedade se identificavam, era óbvio estabelecer estruturas paroquiais em que os padres eram, de alguma forma, iguais a funcionários públicos.

Esses tempos já se acabaram definitivamente. Somos agora confrontados com uma situação nova: a diáspora. O fato não leva automaticamente a uma estrutura com “presbíteros comunitários”, mas vai nessa direção.

Esses motivos novos foram fornecidos pelo Concílio Vaticano II, citando as comunidades pelo mundo afora que estavam se tornando realmente Igrejas locais. E o Concílio convocou os fiéis para agirem como Povo de Deus e comunidades de fé.

Exemplo da amplitude com que esses motivos tomaram conta da Igreja, lembra Lobinger, foi a reabilitação da fórmula do “tríplice auto”. Esse slogan, que exortava cada comunidade a começar a sua autoadministração, sua autosustentação e sua autopropagação, era tabu entre os católicos antes do Vaticano II. Depois do Concílio, a fórmula do “tríplice  auto” tornou-se de repente o slogan frequentemente citado nas missões católicas.

É justamente aqui que poderemos incluir na conversa as nossas CEBs. Mas vamos deixar isso para a próxima coluna. Até lá.

 

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