Artigos e Entrevistas

Memória da vida: o grito que vem da terra e o gemido agonizante das águas nos rios martirizados pela indiferença e pela ganância

Me chamem de gritador. O gritador é aquele que grita a dor de quem sofre! Eu grito a dor dos inocentes que são injustamente perseguidos, desfigurados, feridos e exterminados pela insana ganância que se faz passar por progresso e usa o crachá do desenvolvimento. Uns têm o nome de gente, outros têm o nome de rio, outros ainda, têm o nome de árvores. Todos, porém, têm a mesma sina: a intoxicação, o envenenamento, a mudança de identidade e o martírio, por fim. No dia 03 de setembro de 2022, um sábado frio e chuvoso em Curitiba, as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI – e a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no bairro Uberaba de cima, em Curitiba, com a participação de algumas pastorais e outros movimentos, fizeram a Romaria dos Mártires e das Águas. Com o lema “Educar para Transformar”, e inspirados na citação “O Senhor teu Deus está contigo, por onde quer que andes”, (Josué 1,9), reconhecemos os rios que já abasteceram Curitiba com água saudável, como Mártires também.

 Assim como Marielle Franco, Chico Mendes, Antonio Tavares, Dom Oscar Romero, Frei Tito Alencar, Margarida Alves e tantos e tantas outros/as, os rios são Mártires, sim senhor! Mártires da ganância insana de gestores e empresários egoístas e corruptos. A celebração aconteceu, na nascente o rio Iguaçu, onde os rios Atuba e Ivaí se encontram e formam aquele que é hoje, o segundo rio mais poluído do Brasil, o rio Iguaçu. O Criador foi generoso com Curitiba ao lhe oferecer estas seis bacias para alimentá-la com água saudável. 

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Você deve está se perguntando ou me perguntando: mas Curitiba não é a capital ecológica? Sim e não. Na propaganda e na ideologia que divulgou e governou Curitiba nos últimos trinta anos é, mas, na prática a realidade é outra. O Rio Belém, por exemplo, é um curitibano nato, que tem sua nascente e sua foz na capital das araucárias e passa no meio do campus da PUCPR, desembocando no Rio Iguaçu que divide os municípios de Curitiba e de São José dos Pinhais. É um moribundo não sepulcro que já elegeu e reelegeu prefeitos megalomaníacos, ecologicamente insensíveis e humanamente incapazes de pensar à vida para além das suas próprias e dos interesses comerciais de grupos econômicos gananciosos que os financiam. Hoje, o Rio Belém perdeu a sua identidade e até o seu primeiro nome. Agora é alcunhado de “Canal Belém”, e só não fede mais do que os acordos feitos pelos gestores da “capital ecológica”, feita de rios mortos e esgoto a céu aberto, nas suas dezenas de favelas. Quem assiste à propaganda de longe, sabe um pouco das belezas infindas daquela, cujo marketing já a vendeu como a “capital socia”, mas que politicamente carrega o troféu de capital que mais maltrata os homossexuais. Além de, por escolha ideológica de suas lideranças políticas, deixar-se tatuar com o slogan, “República de Curitiba”. Slogan este devido ao alinhamento ideológico e arrogante de extrema direita política e religiosa, da capital e de boa parte do Estado do Paraná, que contaminou o judiciário brasileiro, feriu o nosso Estado de Direito, maculou a nossa democracia, “batizado” de Operação Lava Jato”. Em reportagem de 16/08/2012, o jornal “Gazeta do Povo” diz assim: “Este é rio verdadeiramente “curitiboca”, o único com nascente e foz dentro dos limites de Curitiba. O Rio Belém passa por 37 bairros, de Norte a Sul. Infelizmente, como tantos canais pluviais urbanos, está poluído na maioria dos trechos”. (ver Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/giro-pelos-bairros/onde-nasce-o-rio-belem/ Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.). expressão branda, pois o Rio Belém está em situação ruim ou péssima em toda sua extensão.

media.gazetadopovo.com.br/vozes/2017/12/rio-bel...

O curitibano rio Belém – Hoje Canal Belém – o único Rio 100% curitibano. Já não respira e nem deixa mais ninguém respirar perto dele. 

A Romaria dos Mártires e das águas quer fazer ecoar os gritos de nossas seis bacias curitibanas e dos outros Rios da Região Metropolitana que tiveram e têm sorte igual a sina do Rio Belém. Entre os 46 afluentes do Rio Belém, vejam a generosidade do Criador? São 46 afluentes! Entre eles estão os Rios Ivo, Água Verde, Juvevê; Córregos Guabirotuba, Evaristo da Veiga, Aviário, Henry Ford, Areiãozinho, quase todos canalizados. Este texto quer fazer ecoar o grito do Rio Belém como sendo o grito de todos os Rios de Curitiba e de toda a Região Metropolitana, irmãos na mesma sina. Para além de gritarmos, pedirmos perdão, fizemos uma poesia cantada em forma de Ladainha, à moda das Comunidades Eclesiais de Base e do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, nos Círculos Bíblicos, nos Intereclesiais e na Leitura Popular da Bíblia, como ações práticas da Teologia da Libertação. O Grito é dos Gritadores e das Gritadoras que não calam diante das injustiças, fome a forma mais cruel entre todas, das diversas formas de preconceitos, de ódio e outras formas de violências ferem a dignidade das mulheres, dos homossexuais, das Religiões de Matriz Africana, das etnias negra e indígena, da vida em última instância. Por isso, recorremos à linguagem de Deus, a poesia para gritarmos o grito de nossos Rios martirizados. E, para que o grito tenha o sabor ousado de protesto, o fazemos cantando. 

Ladainha dos/as Mártires: da Terra, dos Rios, da Fé e da Vida

Ao Rio Barigui, nós pedimos perdão…! Ao Rio Atuba, nós pedimos perdão…! Ao Rio Belém, nós pedimos perdão…! Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, perdoe a nossa omissão. (bis)

Ao Ribeirão dos Padilhas, nós pedimos perdão…! Ao Rio Bacacheri, nós pedimos perdão…! Ao Rio Passaúna, nós pedimos perdão…! Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, perdoe a nossa omissão. (bis)

Às Fontes e às Nascentes, nós pedimos perdão…! Às Gralhas e às Borboletas, nós pedimos perdão…! Às Vítimas das enchentes, nós pedimos perdão…! Oh Deus Criador da Vida, perdoa a nossa omissão. (bis)

Ao Rio Iguaçu, nós pedimos perdão…!  Às Araucárias assassinadas, nós pedimos perdão…! À toda a Mata Atlântica, nós pedimos perdão…! Nossa Senhora do Rocio, perdoe a nossa omissão (bis)

Ao Rio Palmital, nós pedimos perdão…! Ao Rio Capivari, nós pedimos perdão…! Ao Rio Canguri, nós pedimos perdão…! Santa Teresinha de Lisieux, perdoe a nossa omissão…! (bis)

Ao Ribeirão das Onças, nós pedimos perdão…! Ao Rio Bacaetava, nós pedimos perdão…! Ao Rio água Comprida, nós pedimos perdão…! Maria Preta encontrada no Rio, perdoe a nossa omissão. (bis)

Às Bacias Hidrográficas, nós pedimos perdão…! Aos Mananciais, nós pedimos perdão…! Às Futuras Gerações, nós pedimos perdão…! Nossa Senhora do Rocio, perdoe a nossa omissão. (bis) 

À toda Fauna e à Flora, nós pedimos perdão…! Às Etnias Indígenas, nós pedimos perdão…! Ao Aquífero Guarani, nós pedimos perdão…! Nossa Senhora das águas, perdoe a nossa omissão. 

Aos Mártires da Terra, nós pedimos perdão…! Aos Mártires das Águas, nós pedimos perdão…! Aos Mártires do povo, nós pedimos perdão…! Santo e Mártir Oscar Romero, perdoe a nossa omissão. (bis).

Curitiba, 27 de maio de 2022. – (João Santiago).

A Romaria dos Mártires e das Águas também teve o significado de pré-grito dos excluídos, acontecimento de mobilização, denúncia e anúncio que acontece há quase três décadas, sempre no dia Sete de Setembro. Este ano de 2022, celebramos o 28º Grito dos Excluídos e das Excluídas. O seu lema: “Vida em Primeiro Lugar”, seguido pela denúncia, “Brasil: 200 anos de (In) dependência para quem? Em sintonia com o Papa Francisco, lutamos por Terra, Teto, Trabalho e Democracia. Denunciamos a maldição que nos atormenta e ameaça a vida de milhões de famílias brasileiras que estão desempregadas e passam fome. Denunciamos o escárnio com a nossa democracia e com a nossa dignidade, bem como a naturalização e legalização da corrupção como política de governo, liderada pelo genocida que ocupa o Palácio do Planalto. De que construímos o nosso Grito? Somente a poesia pode nos responder.

De que se constrói o Grito?

O Grito é feito de ânimo, de força e organização.

 De mística e indignação, de música e de poesia.

De toda a simbologia que as utopias carregam.

Das ideias que navegam, nas mentes humanizadas.

Naquelas canções cantadas, pelas Estradas e Praças.

Repudiando as desgraças, refazendo as resistências.

Elevando as consciências, unindo sonhos e mãos.

Fazendo um mundo de irmãos e irmãs na vida e na sorte.

Contra a cultura da morte, gritando: “Vida em primeiro lugar!”

Por um Teto pra morar, por Terra, Trabalho e democracia.

Por uma nova cosmologia e por uma nova sociedade.

Que ame a diversidade de cores e de orientações.

O Grito se faz nas ações, da vida em sua pujança

Transbordando de Esperança, e grávida de transgressões.

Vamos Gritar, Multidões! “Eu sou de Paz e amo a Vida!

Curitiba, 07 de Setembro de 2022 – Bicentenário da Independência do Brasil

João Ferreira Santiago.

Teólogo, Poeta e Professor de Teologia.

Doutorando em Teologia pela PUC-PR

É coordenador do Curso de Teologia na Faculdade Unina. 

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