CEBs e BíbliaColunistasFrancisco Orofino

Mês da Bíblia 2022

Tema: Livro do Josué

Lema: Seja firme e corajoso porque YHWH teu Deus estará contigo, onde quer que vás (Js 1,9)

O livro escolhido para ser estudado, meditado e vivido no Mês da Bíblia de 2022 é o livro de Josué. A chave principal que vai conduzir nossa leitura deste livro é: Quando YHWH nos entregar esta terra, nós a trataremos com lealdade e fidelidade (Js 2,14).

O Livro de Josué é o sexto livro da Bíblia, vindo logo após o Pentateuco. Em nossas Bíblias cristãs ele inicia a coleção dos Livros Históricos. Na Bíblia Hebraica ele inicia a coleção dos assim chamados Profetas Anteriores, que reúne os seis livros da Obra Histórica Deuteronomista: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis. Para os judeus, estes livros são considerados “proféticos” porque sua autoria é atribuída aos profetas Samuel e Jeremias. Mas também porque o olhar com que leem a história não é meramente um olhar “histórico”. Na leitura da história temos que saber ter um olhar “profético”, ou seja, temos que revelar o apelo de Deus que existe nos fatos da vida e da história do povo de Deus. 

Na opinião dos estudiosos, sendo parte da Obra Histórica Deuteronomista, o Livro de Josué deve ter sido redigido durante o reinado do rei Josias (entre 640 e 609 aC). Foi na época do grande movimento de reforma religiosa, logo após a libertação da opressão assíria. As tradições ou as antigas fontes deste livro vieram de várias origens. A memória dos fatos antigos era conservada e revivida nas celebrações e comemorações populares. Foram os antigos santuários tribais que preservaram a memória dos inícios da vida do povo na terra conquistada. Entre estes santuários podemos destacar Silo, Guilgal e Siquém, os montes Garizim e Ebal. A grande assembleia convocada por Josué aconteceu no santuário de Siquém (cf. Js 24,1-28).

O Livro de Josué vem logo após o Livro do Deuteronômio. Já estudamos o Deuteronômio no Mês da Bíblia de 2020. É bom destacar que existe uma proximidade muito grande entre os dois livros. É como se o livro de Josué fosse uma continuação do Deuteronômio. O Deuteronômio guarda a memória da Aliança, feita no deserto, entre Deus e o povo de Israel. Já o Livro de Josué descreve como esta Aliança vai sendo vivida gradativamente pelo povo, na medida em que vai se estabelecendo na terra de Canaã. 

O Livro de Josué pode ser dividido em três grandes partes:

  • Js 1 a 12 A Conquista da Terra Prometida
  • Js 13 a 21 A Repartição da Terra Prometida
  • Js 22 a 24 Narrativas finais sobre a vida de Josué

Chaves de Leitura

  1. Chave central do livro é a conquista e a partilha da terra da Canaã para as tribos de Israel. Esta terra é a herança prometida por Deus para Israel. Lá o povo pode morar e viver em paz, irradiando assim para todos os povos a presença benfazeja de Deus YHWH no meio de nós (Js 1,2-4.6.11.13; 2,9.24; etc.)
  2. O livro deixa claro que Josué é uma liderança forte e segura porque ele age como instrumento de Deus. Josué é o guia e condutor do povo de Deus, mas é Deus quem conduz a História. A presença de Deus se revela em todo o processo da conquista da terra prometida. Sempre que o povo sai vitorioso, celebra e agradece a Deus pelas vitórias alcançadas na luta (cf. Js 1,6-9; 3,10-11; 6,15-16). 
  3. A conquista da terra é narrada como um projeto divino. Para alcançar a posse da terra, o povo de Israel deve demonstrar a total e absoluta fidelidade a Deus e ao seu projeto, concretizado na Aliança. Esta Aliança é vivida através da partilha e da comunhão. Qualquer atitude ou gesto que possa ameaçar esta Aliança deve ser eliminado pela raiz (cf. Js 5,6-9)
  4. Deus sempre demonstra sua total fidelidade à Aliança. Por isso cumula o povo com suas palavras de bênçãos. Diante das falhas do povo também existe uma palavra que condena através das maldições. Tudo depende da fidelidade ou infidelidade do povo (cf. Js 8,30-35).
  5. A terra é dom de Deus para todos. Ela deve ser repartida para garantir a vida para todos. E terra não pode ser acumulada por uns poucos. Ela é a grande herança que Deus reservou para o povo. Ela não pode ser vendida nem tomada à força. O direito à posse da terra traz consigo o direito à vida digna para as famílias dos camponeses (cf. 13,1-19,51).
  6. O livro aponta para um ideal. A posse da terra e a certeza da bênção foram as promessas que Deus fez a Abraão, sempre presente na memória do povo (cf. Gn 12,1-3). Este ideal é que alimenta a luta pela terra, animando as famílias na caminhada em busca de moradia, condições de saúde, alimentação adequada, educação familiar, descanso e festa para todos e todas (cf. Js 24,2-3).
  7. A terra deve ser cuidada e não explorada (Js 2,14). A leitura do livro nos convida a desenvolver uma consciência ecológica no trato com a terra. A terra é mãe que nutre e não um objeto de exploração desenfreada através da mineração, do agronegócio, da venda ilegal de madeira e outras atrocidades que estão bem presentes em nossos noticiários.

Alguns problemas

O Livro de Josué nos coloca diante de uma narrativa muito perigosa. Ele conta que um povo vindo do deserto, o povo de Israel, invade e conquista uma terra já ocupada há muito tempo por outros povos, os cananeus. O livro apresenta esta ação conquistadora israelita como uma vontade divina. Esta chave de leitura acabou por fundamentar muitas guerras de agressão.

É o que aconteceu aqui neste nosso continente chamado hoje de “América”. Os povos brancos iniciaram uma invasão conquistadora a partir do século XVI e que continua até hoje. Em agosto de 2021 mais de seis mil representantes dos povos originários estavam em Brasília lutando para manter suas terras ancestrais, fruto da cobiça de garimpeiros, madeireiros, vaqueiros, agricultores, mineradores e latifundiários. A manipulação dos fatos feita pelos meios de comunicação é tão forte e eficiente que conseguem passar a imagem de que os povos originários é que tem “terra demais” ou são mostrados como “intrusos” que atrapalham o progresso nacional.

Evidentemente que os invasores precisam de uma justificativa “divina” de suas conquistas. Por isso mesmo, o Livro de Josué é um dos livros mais manipulados de toda a Bíblia. Ele já foi usado para fundamentar a conquista e a posse ilegal da terra dos povos originários, tanto na África quanto nas Américas. Já foi usado para legitimar todas as formas de racismo, entre as quais o abominável apartheid na África do Sul. Ele foi usado para fundamentar a ocupação israelense das terras palestinas bem como a opressão e humilhação do povo palestino, promovidas pelos governos israelenses. Ele também fundamenta o capitalismo agrário aqui no Brasil, base de todo o agronegócio, que espolia e envenena com agrotóxicos a terra brasileira.

Ao fazermos a leitura do Livro de Josué não podemos esquecer nunca o que aconteceu aqui no Brasil. Os brancos europeus chegaram e tomaram posse de uma terra cujos donos já estavam aqui há milhares de anos. Eles chegaram de modo violento, destruíram as populações existentes e se apossaram das terras como sendo donos por direito. Vale lembrar um grande episódio em nossa História: quando os brancos foram conquistar a região das Missões, parte do que é hoje os estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O líder indígena que comandou a resistência, o cacique Sepé Tiaraju, os enfrentou com este brado: “Esta terra é nossa! Esta terra tem dono!”.

A história da composição do livro de Josué

Para compreender a mensagem do Livro de Josué através de uma leitura libertadora de suas passagens, é importante saber distinguir as várias etapas históricas pelas quais o livro passou, desde o seu início até à sua redação final. Para esta análise é útil distinguir entre (1) os fatos históricos em si, (2) a memória destes fatos transmitida ao longo dos séculos e (3) a redação final do escrito que temos hoje na Bíblia.

Recuperar o processo dinâmico que fez nascer um livro bíblico sempre foi e continua sendo uma tarefa muito difícil. Se faz necessário (1) compreender e viver o cotidiano e a história que permitiu o surgimento do escrito. (2) Também se faz necessário levar em conta a linha do tempo dos acontecimentos registrados na Bíblia. Todo este processo levou muito tempo. E (3) nesta longa caminhada histórica, outros acontecimentos e interpretações acabam sendo incorporados ao escrito original.

O Livro de Josué nasceu a partir das antigas tradições sobre a figura histórica de Josué. Josué teve os fatos de sua vida e de sua atuação histórica preservadas por escrito, da mesma maneira como outros juízes ou juízas, como Débora, Gedeão ou Jefté. Estes antigos escritos devem ter sidos guardados no santuário tribal de Siquém, já que grande parte das atividades de Josué está relacionada a este santuário central da tribo de Efraim.

Visto que Josué é apresentado como o sucessor de Moisés na liderança política do povo, o retrato que o livro dele faz é o de um governante perfeito:  uma pessoa decidida, sem falhas ou hesitações, justo, sem defeitos, íntegro e fiel aos ensinamentos de Moisés transmitidos no livro do Deuteronômio. Esta fidelidade de Josué à Lei de Deus faz dele um modelo para os reis de Israel e de Judá, conforme é pedido no livro do Deuteronômio (cf. Dt 17,14-20). Assim, os escritos relacionados a Josué entraram na corte real como modelo para os príncipes e os governantes. 

Quando, no reinado de Josias (640-609 aC), acontece a grande reforma religiosa animada pelo livro do Deuteronômio (cf. 2Rs 23,25), surge a primeira redação dos atuais livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis. A figura histórica de Josué torna-se um modelo para a atuação de Josias na reconquista e reorganização de Israel após a derrocada do império assírio. Vale lembrar o paralelo dos nomes: Josué e Josias, na língua hebraica, tem o mesmo significado: “a salvação vem de YHWH”.

Analisando todo este processo redacional, vemos que o livro traz dois momentos históricos bem distintos. Por um lado ele faz a memória do processo histórico de ocupação da terra pelo povo de Israel, lembrando acontecimentos feitos por volta de 1200 aC. Por outro lado, tendo sua redação final durante a reforma do rei Josias (por volta de 620 aC), o livro traz uma postura otimista e arrogante, fruto da reconquista de Israel após a retirada dos exércitos assírios.

Deixe um comentário

Botão Voltar ao topo