15º Intereclesial das CEBsArtigos e EntrevistasIntereclesiais das CEBs

Metodologia dos Encontros Intereclesiais: partilha de experiências e reflexões das Comunidades

Por Marilza José Lopes Schuina, secretariado para o 15º Intereclesial.

Lá vem o trem das CEBs caminhando com seu povo, escuta meu amigo, venha ver o que há de novo…

Terezinha do Brejão

As CEBs do Brasil se encaminham para o seu 15º Encontro Intereclesial. Os Intereclesiais mostram um processo de grande significação das CEBs que incide sobre as estruturas e mentalidades da Igreja para que ela seja cada vez mais sinodal. 

Os Intereclesiais apresentam o que as CEBs têm de melhor, suas partilhas, suas experiências, seus melhores representantes e lideranças da base. Muito embora, se mostra o que há de mais rico nas Comunidades Eclesiais de Base, também sabemos que o dia-a-dia apresenta seus desafios e dificuldades, razão pela qual, é preciso pensar um processo metodológico que contribua para refletir “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias” das CEBs nos dias atuais.

Os Intereclesiais das CEBs nasceram na década de 70, visando um processo de articulação das comunidades, de partilha das experiências e reflexões das comunidades. Os primeiros Intereclesiais, realizados com um número menor de participantes, propiciava um caráter mais reflexivo das experiências de CEBs espalhadas pelo Brasil, trazendo os relatos da caminhada, as lutas, as dificuldades, os desafios, as conquistas. Tudo era apresentado “à grande assembleia, que não apenas se apercebe da dimensão comum dos problemas vividos, como também vislumbra as questões teóricas e práticas envolvidas e os sinais promissores presentes” 

A trajetória dos Intereclesiais segue ampliando o número de participações e, com isto, vai modificando o caráter, a natureza do Intereclesial, de uma dimensão mais reflexiva para uma dimensão mais celebrativa. Amplia-se ainda a participação das bases no processo organizativo, com a criação, na década de 80 da “Ampliada Nacional das CEBs do Brasil” para o serviço de articulação e animação das CEBs e, também, organização dos Intereclesiais como parte integrante desse processo de articulação e animação.

Aqui está uma chave de leitura, a meu ver, importante: como o processo metodológico dos Intereclesiais têm contribuído para a animação das CEBs do Brasil? Trazemos, portanto, alguns elementos para a sua análise, meu caro leitor, leitora. Vejamos um pouco da riqueza metodológica dos Intereclesiais.

  1. O I Encontro, “Uma Igreja que nasce do povo pelo Espírito de Deus”, realizado em Vitória/ES (06 a 08/01/1975). O caráter desse primeiro encontro, uma conversa entre amigos e igrejas nesta caminhada, teve como objetivo: “delinear o perfil e descobrir as características futuras da Igreja nova que nasce no meio do povo, principalmente através das comunidades eclesiais de base”. Na dinâmica de preparação foram elaborados 10 relatórios descrevendo a história e situação de comunidades eclesiais de 07 estados: ES, GO, PE, CE, PB, MA, RJ. A partir dos relatórios foram produzidos 03 textos apontando o novo alcance eclesiológico da experiência das CEBs.

Em três dias, cerca de 70 pessoas de 12 estados, vivenciaram uma intensa troca de experiências, reflexões, orações. “A temática eclesiológica predominou nas discussões dos grupos de trabalho e nos plenários, tendo os assessores/as papel singular no acompanhamento do encontro”.

  1. O II Encontro, “Igreja, povo que caminha”, também realizado em Vitória/ES (29/07 a 01/08/1976). A preparação seguiu a dinâmica do I Encontro, com a produção de 17 relatórios sobre os passos da caminhada das comunidades, com foco na pedagogia libertadora das CEBs. Participaram cerca de 100 pessoas, 24 dioceses, 17 estados. Metade de participantes das comunidades e a outra metade de agentes, bispos e assessores/as.  Entre os estrangeiros, participantes do Chile, México e Peru. Os trabalhos foram realizados em dois grupos, um da base para aprofundar as experiências de opressão no campo e na cidade e outro de agentes, bispos e assessores/as, para aprofundamento do termo libertação e suas ambiguidades, que trabalharam separadamente, tendo momentos de intercâmbio, com uma coordenação formada por cinco representantes de cada grupo. Bonita troca de experiências e aprofundamento da realidade e das lutas/causas das CEBs, como terra, política partidária, sindicato, periferias das cidades e modelos de Igreja, marcado por momentos fortes de liturgia, como a celebração eucarística em que se atualizou o mistério pascal na vida dos povos da aldeia indígena Meruri/MT.
  1. O III Encontro, “Igreja, povo que se liberta”, realizado em João Pessoa/PB (19 a 23/07/1978) teve mais de um ano de preparação. Duas circulares foram enviadas aos participantes do II encontro para indicarem comunidades comprometidas com a luta pela libertação. Nesse encontro, os assessores e assessoras estavam de olhos e ouvidos bem atentos, desempenhando um trabalho de mais escuta das experiências, só intervindo para esclarecimentos ou questionamentos, aos quais coube elaborarem a reflexão sobre os 156 relatórios de descrição da realidade das comunidades. Foram realizados encontros regionais com a presença de um membro da equipe preparatória, onde foram escolhidas as experiências a serem apresentadas no encontro. Sete regionais enviaram relatórios dos encontros. O encontro dobra o número de participantes para 200 pessoas, dos quais 2/3 da base, gente pobre e simples, 47 dioceses, 04 participantes evangélicos, cacique xavante da aldeia São Marcos-MT, participantes do México, Bélgica e Nova Iorque. A dinâmica metodológica favoreceu a participação popular: pequenos grupos (grupos só da base e outros grupos de assessores/as, agentes e bispos; grupos misturados onde só a base fala; grupos mistos para encaminhamentos), mini plenários e grande plenário.  Membros das comunidades se encarregaram da organização, condução, decisões, com representantes da base na coordenação: dois assessores, dois membros da equipe preparatória, um da coordenação regional, três representantes das CEBs urbanas e 3 das CEBs rurais. Nas palavras de Leonardo Boff, “o povo toma a palavra”.
  1. O IV Encontro, “Igreja, povo oprimido que se organiza para a libertação”, Itaici/SP (20 a 24/04/1981). Mais uma vez, o encontro é coordenado e conduzido pelas bases.

Na etapa preparatória reuniu-se, através de um questionário enviado pela comissão organizadora, “a reflexão dos pequenos grupos, enfatizando a perspectiva de organização”. Questões como descrição da realidade, organização da comunidade face à realidade, articulação com outras comunidades e movimentos populares, importância da Palavra de Deus na vida das comunidades favoreceu a elaboração de 300 relatórios de 19 estados, dos quais 17 realizaram encontros de discussão do material. Dos encontros regionais, realizados para discutir o material produzido pelas comunidades, saíram os participantes: 280 pessoas de 71 dioceses e 18 estados, dos quais, 184 da base, 56 agentes, 15 assessores/as, 17 bispos. O tema geral do encontro foi dividido em quatro temas específicos, um para cada dia: 1º dia – começa com o relato dos vários regionais sobre a caminhada das comunidades; 2º dia- pequenos grupos e em painel descrever como as comunidades estão favorecendo a participação do povo nos bairros e no campo; 3º dia – o serviço da política; 4º dia – a justiça no mundo do trabalho, com dramatizações da realidade: as lutas, as dificuldades, as conquistas.

  1. O V Encontro, “Povo unido, semente de uma nova sociedade”, Canindé/CE (04 a 08/07/1983). Observe que os dois primeiros encontros aconteceram um ano após o outro (1975 e 1976); o terceiro tem um intervalo de dois anos (1978); o quarto e o quinto passam a ter um intervalo de três anos (1981, 1983) e assim segue até o VIII Encontro. Atenção também para o número de participantes, que agora já está em 500 participantes de 134 dioceses, 243 são da base, 30 bispos, 15 assessores/as, 16 observadores, 7 da imprensa e 114 dos serviços. Para a preparação, foi constituída uma equipe em Fortaleza, embora o encontro fosse em Canindé. Já, nesse processo, incorporando a dimensão regional, tanto que é a primeira vez que o critério de participação é por regionais da CNBB. Cada regional enviou 20 pessoas, sendo 17 da base e 03 agentes. Toda a dinâmica do encontro encaminhada pelos participantes da base, teve grupos mistos, plenários, valorização da troca de experiências. A cada dia do encontro, um eixo temático era tratado: 1º dia – grupos de trabalho sobre as condições de vida do povo; 2º dia – grupos sobre as motivações que levam as CEBs a lutarem por nova sociedade; 3º dia – propostas concretas; 4º dia – contribuição específica das CEBs na construção de uma nova sociedade. Nesse encontro, as liturgias e celebrações ocuparam lugar de destaque, nas manhãs e tardes. Já nesse encontro, podemos dizer que começa um processo que vai mudar a natureza dos Intereclesiais, de um caráter mais reflexivo, para um caráter mais celebrativo, como veremos acontecer com o VI Encontro. No processo preparatório para este V Encontro, começa a minha trajetória junto à articulação das CEBs em Cuiabá/MT, aos 17 anos de idade. Em 2023, completo 40 anos dessa caminhada (mas isto é assunto para outra prosa).
  1. O VI Encontro, “CEBs: Povo de Deus em busca da terra prometida”, Trindade/GO (21 a 25/07/1986). Chegamos a 1.647 participantes, sendo 742 pessoas da base, 203 agentes de pastoral, 30 assessores/as, 51 bispos, 16 evangélicos, 10 povos indígenas, 56 observadores/as latino-americanos, 35 observadores nacionais, 17 observadores de outros países, fora o pessoal da imprensa, documentação e equipes de serviço. Para a organização do encontro, criou-se uma Comissão Ampliada Regional além da Comissão Executiva. Nesse processo organizativo, é convocado uma Reunião Ampliada Nacional, que se reúne de 21 a 24 de abril de 1986, constituindo-se assim, em um grupo de apoio e serviço à Igreja local no planejamento organizacional do Intereclesial. São lançadas duas cartilhas para aprofundamento das comunidades e preparadas pela comissão executiva: “CEBs: um jeito novo de ser Igreja” e “O Povo de Deus em busca da terra prometida”. Na dinâmica metodológica, os temas refletidos no VI Encontro foram: 1º dia – o novo jeito da Igreja ser: identidade e missão das CEBs; fé e política; espiritualidade libertadora das CEBs e Bíblia; CEBs, hierarquia e ministérios; 2º dia – luta pela nova sociedade: constituinte popular e nova constituição; movimentos populares e lutas das mulheres, negros e índios; projeto político popular; mundo do trabalho e sindicalismo; 3º dia- terra de Deus, terra de irmãos: luta pela terra, reforma agrária; projeto do governo; solo urbano e moradia; terra prometida por Deus. A dinâmica metodológica organizou bate-papo rotativo, grupos, plenário e fila do povo na parte da manhã; grande plenária, painel para reação aos relatórios (um bispo, um assessor, 3 pessoas da base) e fila do povo na parte da tarde. O alto número de participantes muda o caráter do encontro, destacando o caráter celebrativo e não deliberativo. É praticamente impossível privilegiar o caráter reflexivo e as celebrações tomam lugar de destaque. Realizadas com grande criatividade, articulam as dimensões da “festa e luta, celebração e morte” – símbolos gestados na profunda experiência de enraizamento popular das comunidades. Temas como a questão latino-americana e o ecumenismo assumiram ainda mais lugar de destaque. Este foi meu primeiro Intereclesial presencial. Para mim, uma festa de encher os olhos e alegrar o coração.
  1. O VII Encontro, “Povo de Deus na América Latina a caminho da libertação”, Duque de Caxias/RJ (10 a 14 de julho de 1989). 1.106 participantes delegados/as dos regionais, 85 bispos, 39 assessores, 61 Comissão Ampliada Nacional e Equipe Central, 120 delegados evangélicos, 30 indígenas, 83 latino-americanos e 92 convidados. Somando os serviços, 2.550 membros. Um encontro no mundo urbano, deslocamentos em ônibus urbanos, plenário no estádio municipal. No processo preparatório, foram elaboradas duas cartilhas com o tema do encontro, sendo que uma foi uma contribuição dos evangélicos. Foi reeditada a cartilha do 6º Encontro “CEBs: um jeito novo de ser Igreja” e elaborados outros subsídios como novena de natal, caderno de cantos, oração para o VII Encontro e publicação do jornal A Caminho. Seguindo a metodologia dos últimos encontros, no 1º dia refletiu-se sobre a situação da América Latina; o 2º dia tratou da relação fé e libertação, a luta pela transformação social e a participação política; o 3º dia abordou o tema da eclesialidade das CEBs. A dinâmica metodológica organizou as atividades em três plenários, cada um com o nome de mártires da caminhada, das causas das CEBs: Plenário A – “Willian, Valmir e Barroso”(causa operária); Plenário B – “Índio Marçal” (causa indígena); Plenário C – João Cândido (causa negra). A grande plenária recebeu o nome de Assembleia “Mariazinha” (causa da mulher). Na manhã de cada dia, em cada plenário, o assessor/a motiva e orienta os trabalhos de grupo; as miniplenárias são realizadas por blocos (107 grupos, 03 plenárias, 4 blocos temáticos a cada dia); ao final da plenária, o assessor/a faz a “amarração”. Além disso, um assessor/a atua como cronista em cada plenária e na grande plenária. À tarde, a grande plenária e a celebração de cada dia. Como nas miniplenárias, um assessor/a introduz, conclui e outro faz a crônica. As celebrações foram um dos marcos deste VII Encontro e uma questão foi a dificuldade de articulação entre as celebrações preparadas para o Intereclesial com as liturgias eucarísticas, enfatizando assim o distanciamento entre a missa e a inculturação e celebrações populares e ecumênicas. Todos os dias, antes da programação oficial do encontro, eram realizadas liturgias eucarísticas, com a presença de quase todos os participantes. Destaque também desse Intereclesial foi o Encontro dos delegados latino-americanos. Vale lembrar o resgate do documento final dos encontros anteriores e das cartas e compromissos dos Intereclesiais a partir deste.
  1. O VIII Encontro, “Culturas Oprimidas e a Evangelização na América Latina”, Santa Maria/RS (08 a 12/09/1992). O número de delegados/as chega a 2.238 brasileiros/as e 88 participantes de outros países. São 1.469 cristãos leigos e leigas, 66 bispos, 50 assessores/as, 138 evangélicos entre bispos, pastores e leigos/as, 44 índios (1 pajé), 2 pais de santo e 1 mãe de santo, sem contar os membros das 40 equipes de serviço. No 1º dia acontece uma concelebração eucarística de abertura do Encontro, com a leitura da mensagem de apoio ao Encontro de João Paulo IIA partir do 2º dia, a dinâmica envolve 05 plenários sendo que cada um tratou um tema específico: índios, negros, migrantes, trabalhadores, mulheres. Cada plenário tem um nome simbólico. Os momentos de participação conjunta foram: oração inicial no 1º dia, a celebração penitencial, oração da manhã motivada pelos evangélicos, celebração de louvor das culturas, plenária final com a Eucaristia de encerramento. Destaca-se no encontro a dimensão celebrativa e orante que vai crescendo de importância e “as tensões e conflitos” sobre a participação dos negros e das mulheres nos espaços eclesiais, a dimensão ecumênica e macro ecumênica. Como parte do processo preparatório, foi elaborado um texto que serviu de referência para os regionais, o texto-base.
  1. O IX Encontro, “CEBs: Vida e esperança nas massas”, São Luís/MA (15 a 19/07/1997). Pela primeira vez um intervalo de 05 anos entre um intereclesial e outro, propiciando oportunidade e tempo para outras atividades diferentes como os seminários nacionais sobre as CEBs para estudo. Momento forte da preparação foi a preparação, publicação e divulgação do Texto-base que ofereceu “subsídios para vários problemas conexos com o tema central da relação CEBs e massa”. A Ampliada nacional definiu os critérios de participação, metodologia e organização. O tema central foi dividido em 06 blocos. O jornal “A Caminho” foi o instrumento de comunicação com as comunidades (17 números foram publicados durante a preparação para o 9º encontro). Organizar um Intereclesial supõe duro aprendizado, pois realiza-se sempre em lugar diferente, com uma equipe nova. Os organizadores anteriores repassam as experiências de maneira discreta, respeitando o jeito do anfitrião e as características da região que acolhe. O encontro segue a metodologia VER-JULGAR-AGIR: no 1º dia – ver a realidade; 2º dia – julgar; 3º dia – agir. Têm-se acrescentado o avaliar e o celebrar. O avaliar não fez parte do encontro (teve um questionário no final do encontro). O celebrar envolveu todo o encontro. Um destaque desse encontro foi o número de mulheres, pela primeira vez, maior do que os homens. Os números dos Intereclesiais levam a uma questão relevante: a estrutura dispendiosa, gigantesca, exigente de um intereclesial não contradiz a natureza CEBs? Mais uma vez, as perdas e ganhos de um encontro mais celebrativo e menos reflexivo se coloca em pauta. Como refletir a prática das CEBs num espaço tão amplo como os Intereclesiais? Em São Luiz foram cerca de 2.800 delegados/as e participantes e aproximadamente 1.350 pessoas nas equipes de serviço, além de 1.600 famílias para a hospedagem, revelando a enorme hospitalidade de famílias muito pobres, revelando um dos pontos mais positivos do encontro, tanto por parte de quem acolhe e de quem é acolhido.
  1.  O X Encontro, “CEBs, povo de Deus, 2000 anos de caminhada” – Memória, caminhada, sonho e compromisso – Ilhéus/BA (11 a 15 de julho de 2000).
    O 10º Intereclesial marca os 25 anos de caminhada dos encontros. O tempo de preparação entre um encontro e outro começa a ser refletido, porém não aprofundado o suficiente para uma mudança temporal. Este encontro segue a tradição de trabalhar em blocos. Chamaram-se os blocos de “Arraial” e a plenária de “Grande Arraial”, que recebeu o nome de D. Hélder Câmara. Para cada espaço são escolhidos nomes extremamente simbólicos da caminhada, das preferências das CEBs, das causas da CEBs: Ecumenismo – Pastor Jaime Wright; da causa do povo negro – Dandara; da causa indígena – Chicão Xucuru; comunidade negra da tradição religiosa do Candomblé – Mãe Menininha do Gantois; causa política – Dorcelina Folador; da causa da Reforma Agrária – Eldorado dos Carajás; da causa das missões e do povo negro –  Heitor Frisotti.
    Este Intereclesial trouxe modificações metodológicas em relação aos anteriores. A maior diferença veio do fato de não se atribuírem aos arraiais temas de sua preferência, como nos anteriores, mas de todos discutirem o mesmo tema simultaneamente. Ganhou-se em consciência coletiva. Mas perdeu-se, talvez, em interesse. Em vez de usar exatamente o esquema ver-julgar-agir, falou-se de memória e caminhada, sonhos e compromissos. A memória corresponde a um tipo de ver, um “ver” diferente, um ver narrativo, não um ver crítico-analítico.
    Outro ponto importante foi a forma ascensiva da discussão. Ela começou em grupos de 10 pessoas. Deu-se bastante tempo para esse momento. Depois relatou-se uma síntese nos miniplenários que retomaram o resultado de 10 grupos, portanto de 100 pessoas. E, finalmente, houve o momento do arraial (500 pessoas) em que se agruparam os 5 miniplenários. Coube aos assessores a dupla tarefa de dar o pontapé inicial e de fazer a amarração final no arraial. Para que os compromissos fossem mais inculturados e exequíveis, as reuniões foram por regionais e por categorias de pessoas.
    Na dinâmica da preparação, o texto-base foi o primeiro instrumento de referência, tudo interligado pelo jornal “A Caminho”, pois sem uma coordenação nacional, as preparações para os Intereclesiais servem de elo de ligação entre as CEBs.

Do 11º ao 14º, os encontros seguem a mesma dinâmica metodológica, sem variação, a não ser os nomes dados aos espaços de realização dos encontros e a peculiaridade das características de cada lugar. A cada dia, as atividades iniciam na grande plenária, com orações e conferências, seguido de miniplenárias, onde são realizados trabalhos em grupos e uma sistematização para ser apresentada na grande plenária. A “tradicional fila do povo”, ora acontece na grande plenária, ora acontece na miniplenária, com a conclusão das reflexões por um assessor ou assessora. Um elemento comum em todos os encontros é a realização das atividades culturais, com apresentação dos artistas da caminhada dos diversos regionais (tarde ou noite) e a “Celebração dos Mártires da Caminhada”. O processo preparatório dos encontros é precedido de atividades nas comunidades, nas paróquias, nas dioceses, nos regionais e nas grandes regiões denominadas de “Oestão, Lestão, Nortão, Nordestão e Sulão”. Também são realizados alguns seminários temáticos sobre aspectos considerados relevantes para cada momento: comunicação, liturgia e os temas de cada encontro. Para cada encontro são preparados materiais de estudos, reflexão e divulgação, como cartilhas, texto-base e texto-base em versão popular, folders, cartazes, artigos de revistas e livros de cantos.

Como parte da memória dos Intereclesiais, cada encontro produz a sua mensagem final, uma carta às comunidades, partilhando os desafios, as alegrias e esperanças vivenciadas no encontro e os compromissos assumidos. O mesmo acontece com os encontros regionais e os encontros por grande região, onde também são produzidas cartas e/ou mensagem final.

  1. O XI Encontro chega lotado, com o tema “CEBs: Espiritualidade Libertadora” e lema “Seguir Jesus no compromisso com os excluídos”, realizado em Ipatinga/MG, de 19 a 23 de julho de 2005. A grande plenária recebeu o nome de GRANDE LOTAÇÃO, as miniplenárias temáticas de LOCOMOTIVAS e os grupos eram os VAGÕES. No quarto dia do Encontro, dedicado ao agir, foi programada a realização de trinta e seis (36) tendas de trocas de saberes. A estrutura das tendas foi pensada a partir de seis eixos temáticos que se subdividiram em seis temas específicos de acordo com cada eixo: CEBs e a espiritualidade libertadora (arte e liturgia, bíblia, formação e catequese, ecumenismo, inculturação e diálogo inter-religioso, estruturas eclesiais e ministérios); · CEBs, a dignidade humana e a promoção da cidadania (portadores de necessidades especiais, negros, migrantes e imigrantes, moradores de rua encarcerados, saúde); CEBs e a formação de um novo sujeito (criança, adolescência e juventude, família, relações de gênero e gerações, mulheres, idosos); CEBs e a construção de um outro mundo possível (fé e política, 4º semana social brasileira, economia solidária, poder local e controle social, cidade, solidariedade e paz); CEBs e a via campesina (ecologia, luta pela terra e reforma agrária, terra e água, barragens, povos indígenas, agronegócio e a economia dos pequenos); CEBs e a educação libertadora (escola família agrícola, escola pública, pré-vestibular, educação popular, educação indígena, comunicação) (cf. Pe. Nelito Dornelas, in: https://fbes.org.br/2005/07/21/xi-encontro-intereclesial-de-cebs/ ).
  2. Destaque para a participação expressiva da juventude que realizou durante o encontro “o 1º Acampamento da Juventude – Acampamento Igreja Jovem (AIJ)” –  quis ser mais que um simples alojamento alternativo, mas um espaço de prática de novas relações e de vivência de uma espiritualidade libertadora a partir das Tendas do Povo de Deus. Em comunhão com o 11° Intereclesial, trouxe à juventude do Regional Leste II da CNBB – acolhendo a juventude do Brasil – a oportunidade de se reunir e debater a realidade das Comunidades Eclesiais de Base, bem como as práticas e lutas necessárias a partir deste Novo Jeito de Ser Igreja”(http://vocacionadosdedeusemaria.blogspot.com/2011/07/juventude-cebs-e-espiritualidade.html ).
  1. O XII Encontro aporta em Porto Velho/RO, de 21 a 25 de julho de 2012, com o tema CEBs: Ecologia e Missão e o lema “Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia”. A grande plenária foi chamada de “PORTO D. Hélder Câmara”, as miniplenárias receberam os nomes dos 12 RIOS da bacia amazônica: Madeira, Juruá, Purus, Oiapoque, Guamá, Tocantins, Tapajós, Itacaiunas, Guaporé, Gurupi, Araguaia e Jari, e os grupos foram chamados de CANOAS. No 1º dia o ver e a Caminhada dos Mártires. No 2º dia, um elemento de destaque na dinâmica metodológica deste encontro foram as missões/visitas às realidades locais: “populações indígenas, comunidades afrodescendentes, ribeirinhas, extrativistas, grupos vivendo em assentamentos rurais ou em áreas de ocupação urbana; bairros da periferia; hospitais, prisões, casas de recuperação de pessoas com dependência química e ainda a trabalhos com menores ou pessoas com deficiência” (Carta Final do 12º Intereclesial). No 3º dia, partilha das visitas e testemunhos de profetas da caminhada. Neste dia, ocorreu também o encontro da Pastoral da Juventude de todo o Brasil presentes no Intereclesial.
  1. O XIII Encontro, “Justiça e Profecia a Serviço da Vida” – CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade – acontece em Juazeiro do Norte, de 07 a 11 de janeiro de 2014. Pela primeira vez, um Intereclesial no mês de janeiro. Neste 13º encontro, a grande plenária recebeu o nome de CALDEIRÃO, as miniplenárias temáticas de RANCHOS e os grupos de CHAPÉUS. Um destaque desse encontro foi a romaria à Colina do Horto do Pe. Cícero. Outro momento muito importante para foi o dia da missão nas paróquias. Destaque para a carta do Papa Francisco enviada ao 13º Encontro, na qual o Papa destaca que: “como lembrava o Documento de Aparecida, as CEBs são um instrumento que permite ao povo “chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos” (n. 178). E recentemente, dirigindo-me a toda a Igreja, escrevia que as Comunidades de Base “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja” mas, para isso, é preciso que elas “não percam o contato com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular” (EG. 29).
  1. O XIV Encontro, “CEBs e os desafios no mundo urbano” – “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” – em Londrina/PR, de 23 a 27 de janeiro de 2018. Na perspectiva do cuidado com a “Casa Comum”, os espaços do encontro foram chamados de PRAÇAS e cada praça tinha o nome de árvores nativas. Grande Plenária – PRAÇA ARAUCÁRIA (Ginásio Moringão), miniplenárias temáticas nas PRAÇAS: Castanheira, Pequi, Aroeira, Pau Brasil, Bracatinga, Umbu, Café, Guapuruvu, Mandacaru, Buriti e ainda outras PRAÇAS para as celebrações: Praça do Ipê – Celebração de Abertura, Praça da Seringueira – Celebração dos Mártires de Defensores da Vida e Praça da Peroba Rosa – Celebração de Encerramento. Destaque desse encontro foram as duas noites destinadas para convivência com as famílias hospedeiras e comunidades. Também se dirigindo às CEBs, neste 14º Encontro, o Papa Francisco “unido espiritualmente a essa Assembleia, invoca do Altíssimo a abundância dos seus dons e luzes sobre todos os presentes, de modo que, ouvindo o clamor dos pobres e famintos de Deus, de justiça e de pão, as Comunidades Eclesiais de Base possam ser, na sociedade e Nação brasileira, um instrumento de evangelização e de promoção da pessoa humana — sempre em comunhão com a realidade paroquial e com as  diretrizes da Igreja local (cf. EG. 29) — capaz de vir ao encontro dos terríveis efeitos da cultura do “descarte”, que leva tantos irmãos e irmãs a viverem excluídos, numa exclusão que fere “na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são “explorados”, mas resíduos, “sobras” (EG. 53)”.
  1. O XV Encontro – “CEBs, Igreja em Saída, a serviço da vida plena para todos e todas” – “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is. 65, 17ss) acontecerá em Rondonópolis/MT, nos dias 18 a 22 de julho de 2023. 
    “O 15º Intereclesial será a continuidade dos catorze encontros intereclesiais anteriores, com seus aprendizados, suas marcas, seu grito histórico por justiça social, mesmo em meio às contestações e críticas. Fiéis a Jesus Cristo, ao Evangelho, à Igreja, e a partir de Jesus Cristo, neste processo de caminhada, tanto a realização do Intereclesial, bem como as ações após 2023 devem ter a marca da partilha, da celebração, da troca de experiência, da avaliação, do respeito às diferenças, da tolerância, da interação com o outro, do exercício do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, da vivência da igualdade, da abertura para aprender com o outro, a outra, aprender do atual momento histórico da humanidade”. “O processo de preparação do 15º Intereclesial quer estar atento às marcas de nosso tempo para “conhecer a realidade à sua volta e nela mergulhar com olhar da fé, em atitude de discernimento (…). A comunidade se aviva quando se torna lugar gostoso de participação pela forma de acolhimento, de partilha, de respeito pelo diferente, pela mútua ajuda. Daí a importância de implementar nas nossas comunidades de base, a cultura do encontro”, do caminhar juntos e juntas.
    Visando um processo de articulação das comunidades, de reflexões e partilha das experiências, o 15º está sendo pensado para propiciar um caráter mais reflexivo das experiências de CEBs espalhadas pelo Brasil, trazendo os relatos da caminhada, as lutas, as dificuldades, os desafios, as conquistas. “Não dá para fazer de conta que nada mudou e continuar organizando grandes encontros intereclesiais como se as CEBs fossem a base de toda Igreja”. Alguns encaminhamentos foram tomados, como a diminuição do número de participantes e a escolha antecipada dos representantes das comunidades, para favorecer a dimensão formativa, numa dinâmica mais sinodal. Seja o 15º Intereclesial, um lugar de acolhimento, de partilha, de vivência das experiências, de encontro, do caminhar juntos e juntas.

Bibliografia:

  1. CNBB, Mensagem ao Povo de Deus sobre as Comunidades Eclesiais de Base. Documentos da CNBB – 92, Paulinas, 2010
  2. Fr. Betto, CEBs rumo à nova sociedade, 2ª edição, Edições Paulinas, 1983.
  3. Fr. Betto, O fermento na massa, 2ª edição, Editora Vozes, 1983.
  4. Júnior, Francisco de Aquino. Renovar toda a Igreja no Evangelho: desafios e persperctivas para a conversão pastoral na Igreja, Aparecida/ São Paulo: Editora Santuário, 2019.
  5. Libânio, J. B. (1997) O IX Encontro Intereclesial das CEBs. Revista Eclesiástica Brasileira, 57(228), 784. Recuperado de https://revistaeclesiasticabrasileira.itf.edu.br/reb/article/view/2422.
  6. Libânio, J. B. (2000). O X Encontro Intereclesial de CEBs – Leitura teológica. Revista Eclesiástica Brasileira60(239), 540-556. https://doi.org/10.29386/reb.v60i239.2156.
  7. Marco Referencial para o 15º Intereclesial (acesso em: http://cebsdobrasil.com.br/wp-content/uploads/2021/01/MARCO-REFERENCIAL-15-CEBS-OFICIAL.pdf )
  8. Revista da Arquidiocese de Goiânia, ano XXIX- nºs 7,8 e 9, julho a setembro de   1986, Goiânia. Impressão: PUC/GO.
  9. Revista da Arquidiocese de Goiânia, ano XXXII- nºs 7,8 e 9, julho a setembro de   1989, Goiânia. Impressão: PUC/GO.
  10. Revista SEDOC – Serviço de Documentação – Volume 22, novembro-dezembro de 1989. Impressão: Editora Vozes LTDA.
  11. Santos, C. C. dos, & Moreira, G. L. (2005). CEBs: memória e utopia. Reflexões a partir do 11º Intereclesial. Revista Eclesiástica Brasileira, 65(260), 874-899. https://doi.org/10.29386/reb.v65i260.1629
  12. Teixeira, Faustino – Os Encontros Intereclesiais das CEBs no Brasil. São Paulo:    Paulinas, 1996.
Fonte
Fonte: CEBs do Brasil

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