ColunistasRosemary Fernandes da Costa

O ágape: experiência amorosa que nos fortalece e desinstala

O tema do ágape não é novo para nós. Já nos encontramos com ele de várias formas, portanto, não ouso trazer novidades, mas provocar uma revisão e uma reflexão a partir das próprias experiências das comunidades e também das novas experiências vividas durante o tempo da pandemia. 

Quando pensamos no ágape como mesa eucarística, pensamos imediatamente na comunidade que condivide a mesma espiritualidade, e ali nos encontramos para escuta, troca, alimento, revisões e reenvio à missão pessoal e comunitária. Mas também, aos poucos, vamos compreendendo que existem muitas mesas de partilha, em cada comunidade que participamos, seja na família, quando os amigos sentam para uma reunião ou conversa, quando participamos da reunião do condomínio, da associação, do movimento político. Enfim, ao sentarmos juntos tendo como elo uma meta comum, é ela quem nos orienta e nos faz buscar simetria, horizontalidade, pertença, consensos, estratégias comuns. 

Aqui já temos, com certeza, duas formas diferentes nessa experiência. Na primeira, o primado do chamado do Amor Divino a sermos comunidade, a vivermos na comunhão que nos conduz, orienta, nutre e envia. É a mesa que fortalece e nos renova. E, a partir do chamado, nossa resposta se torna cotidiana, histórica e sacramental. Não é uma resposta que se dá de uma vez, mas é convocação constante para perseverarmos em comunhão-comunitária, com todas as alegrias e desencontros presentes nas experiências comuns. Por outro lado, como vivermos sem essa experiência? Seríamos levados a uma fé intimista ou subjetiva que, na verdade, é antagônica a todas as tradições religiosas da história. 

Nesta experiência agápica, somos reunidos pelo Mistério e é ele mesmo quem potencializa cada encontro, cada pergunta, cada resposta, cada gesto, cada rito. Participamos com certo nível de consciência, pois a compreensão plena dessa dinâmica é um misto de revelação e mistério. Contudo, a confiança e a entrega tomam o primeiro plano na experiência sacramental, e conduzem ao sentimento de unidade com todo o Povo – passado, presente e futuro – e com todo o Cosmos. Isso nos faz confirmar que, apesar de cada ágape acontecer no tempo histórico presente, ele traz todo o caminho já percorrido, orienta o futuro e é pura Graça acontecendo, é kairós, ou seja, enraíza na história como árvore fecunda, que cresce, floresce, alimenta e abriga. 

É o Amor Divino quem nos conduz. É ele quem nos ajuda a resgatar sempre o que é essencial, a lembrarmos e vivermos a mesa eucarística como festa do Amor. E amor é exercício, revisão, avaliação, busca comum, renovação. O amor nos provoca novas respostas e saída de atitudes de acomodação que nos iludem e nos afastam uns dos outros e, portanto, de nós mesmos. 

Partilhamos um sentido para o ágape que não se reduz à experiência de ingestão do pão e do vinho, como nos lembra o querido Julio de Santa Ana em seu lindo livro Pão, Vinho e Amizade: “A amizade é feixe fraterno que une os seres humanos. Que a celebração da Ceia seja realmente sinal de tudo isso!” 

A mesa agápica se torna então um movimento espiritual, uma revolução que fortalece, mas que também desinstala pois, a partir dessa experiência, é a comunhão a grande e única referência, denunciando tudo o que não é comunhão e que interpela as práticas de fraternidade, de sororidade, de justiça e paz para todos, para todas, para todo o Cosmos. 

Com isso, ousamos passar para uma segunda compreensão do ágape, já anunciada lá no inicio desse texto, que são as muitas mesas das quais participamos, nas quais é mais raro encontrarmos o vínculo da comunhão. Com certa frequência nos damos conta dos processos de individualismo e vícios presentes em tantos e tantos grupos que parecem não dialogar, possuem apenas uma escuta muito parcial, mais preocupada com defesas de ideias do que com metas a serem abraçadas em comum. 

Sim, nestas ‘mesas’, nada agápicas inicialmente, estamos como testemunhas da comunhão. A revolução sacramental que nos alcançou nos instiga, nos provoca, nos desinstala, para que sejamos ali mediadores de comunhão. Nestas mesas partilhamos pães e vinhos simbolicamente, que podem ser os temas apresentados, as pautas, as preocupações, os desejos. Estão ali colocados como necessidades muitas vezes individuais, algumas vezes como sociais também. Olhemos com os olhos do Amor Divino para estas mesas. 

Como podemos dialogar e orientar pouco a pouco para a escuta mais profunda, que vai de coração a coração, ajudando a deixar mais transparentes e também mais comunitários aqueles alimentos, sonhos, preocupações? Sim, mais transparentes, porque muitas vezes a linguagem fala de raivas, indignações, mágoas guardadas, até frustrações, e precisamos ter uma escuta muito amorosa para talvez dizermos o que é mais delicado, gentil, mas também mais verdadeiro para a comunhão. Por exemplo, alguém pode dizer – Puxa vida, você se atrasou de novo? E você pode escutar o desejo de encontro, de consideração, de reconhecimento, e dizer – Sim, é verdade, eu também estou com saudades de você e quero muito que hoje seja um encontro especial para nós!

Ao participarmos do ágape eucarístico sabemos que não estamos mais sozinhos, em nenhum momento, em nenhum lugar, o Amor Divino está conosco de forma fecunda, dialogando com todo nosso ser, e a Comunidade se torna sacramento, também está ali presente, onde estivermos, nos acompanhando. É o Amor Divino na sua forma de comunhão histórica mais próxima de cada um/uma de nós. É a experiência da comunidade que se torna sacramento e presença onde estivermos. É o ágape nos conduzindo e potencializando novos ágapes, a partir de decisão livre e amorosa de cada testemunha. 

É mais uma vez, nosso querido Julio de Santa Ana quem nos lembra que o ágape eucarístico possui uma integração entre pessoa, comunidade e história de uma “densidade incomparável, pois nela ocorre uma união mística, no qual se afirma o compromisso e este se torna engajamento em cada realidade.”

Na tentativa de uma breve conclusão dessa reflexão, pensemos também na novidade que temos vivido durante os tempos de pandemia, impossibilitados por muitos e muitos meses de experimentarmos a proximidade interpessoal e a comunhão das comunidades. O que essa nova experiência provocou em cada um de nós? Como interveio em nossas comunidades? 

Tanto na dimensão das mesas agápicas das comunidades de fé, como nas mesas de busca de comunhão e diálogo nos muitos espaços que vivenciamos, vivemos um rompimento dos elos que nos fazem humanos. Hoje estamos diante de um novo tempo que nos convoca para não esquecermos a perplexidade, o espanto, a dor, a separação de vidas e relações que confinou a todos. Consideramos de suma importância que estes temas não sejam colocados de lado, como superados, mas que sejam trazidos coração a coração, palavra a palavra, nos momentos de conversa, de celebração, de construção da mesa da comunhão, do pão e do vinho, das vidas que estão representadas em cada espaço comunitário. 

Concluímos com uma reflexão do próprio Julio de Santa Ana sobre o tema da mesa agápica; que ela possa ressoar em nós, em nossas comunidades, e possamos encontrar juntos caminhos para nos aproximar do Ágape que nos realiza.

“Na Eucaristia, a comunidade toma forças e inspiração que a farão dar um testemunho de unidade nas lutas que inevitavelmente terá que enfrentar ao longo do seu caminho para o Reino.”

Obs. As reflexões de Julio de Santa Ana citadas nesta coluna são de seu livro Pão, vinho e amizade. Meditações. Rio de Janeiro, CEDI, 1986.

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