ColunistasRosemary Fernandes da Costa

O lugar do testemunho nas relações pessoais e comunitárias

Um dos grandes desafios que nosso tempo apresenta é o de acreditar em uma narrativa de sentido. Em nossa última coluna – Viver a espiritualidade libertadora é ser rede de solidariedade e ética – falávamos um pouco sobre a dimensão escatológica da fé: quando a fé integra a existência, sua interpretação e a práxis, ela também aponta para a utopia do Reino.

Caminhemos um pouco mais em um dos dilemas de nosso tempo: a ausência de testemunhas que caibam dentro das condições que a modernidade exige, conduzindo a um grande ceticismo não apenas político, mas até mesmo místico e existencial, inclusive dentro do campo das expressões religiosas. O que será que está por trás desse sentimento de não representatividade, de decepção, de falta de confiança na humanidade?

Ao ‘lermos’ uma biografia, é comum encontrarmos um caminho quase linear de discernimento e opções vocacionais que parecem ‘garantir’ o testemunho existencial. Também sabemos que é bastante comum ‘iluminarmos’ a biografia de alguém fazendo uma retrospectiva de desafios, resistências e avanços.

Contudo, se conhecemos de perto algumas dessas biografias, encontraremos narrativas mais complexas, nada lineares. Encontraremos idas e vindas, momentos de desolação, de abatimento, momentos de contradições entre o que se acredita e o que se vive, momentos de realização, mas também de muitas decepções e tristezas. Isso tudo porque assim é a vida, ela não é linear. A vida é sempre relacional, a vida é sempre abertura para tantas novidades que nem sempre sabemos como responder. Portanto, nossa primeira observação com respeito a aparente ausência de testemunhos, é nos perguntar o que estamos esperando? Qual a nossa expectativa a partir da história de uma pessoa ou de uma comunidade?

A partir dessa primeira observação, convidamos a um olhar sensível à complexidade da vida. Olhar cada pessoa em suas múltiplas dimensões. Apurar o olhar com amor, misericórdia, empatia, sensibilidade, escuta atenta e profunda. Olhar sem pré-conceitos ou condições quaisquer. Olhar esvaziado de expectativas, de projeções. Apenas aproximar-se, olhar e se deixar penetrar pela beleza vital que habita cada ser humano. Então, lá encontraremos não apenas um testemunho, mas muitos e muitos. Pois cada vida humana carrega em si o dilema e a maravilha de muitos e muitos momentos, como nos diz Caetano; “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

É um convite a decolonizar o olhar e, com isso, decolonizar ideias preconcebidas, projeções de resistências e superações, expectativas de alcance de metas pessoais e até humanitárias.

Nossa segunda observação vai na direção de observarmos as imensas interfaces e interligações em cada vida. (Aqui estamos falando apenas de vida humana, devido aos limites desse artigo, mas podemos estender essa reflexão para muito além, pensando nas múltiplas relações vitais, ambientais, cósmicas, espirituais.) Sim, pois cada pessoa carrega em si muitas e muitas pessoas, muitas e muitas histórias, muitas vidas. Cada pessoa é inter-relação, num dinamismo incessante que movimenta todo o seu ser. E, então, nos cabe perguntar, se o testemunho pessoal não é, ao mesmo tempo, um testemunho comunitário e histórico. Olhar para uma pessoa, em sua forma de ver, viver, expressar-se, recontar-se, narrar a própria vida, é uma viagem infinita às múltiplas relações que é capaz de decodificar e às tantas que nem lhe chegam à consciência.

Por isso, essa observação nos conduz a um segundo convite. Nos percebermos em relação, nos observarmos como subjetividades complexas e movimentadas por muitas outras subjetividades.

Podemos então, dar um terceiro passo, pensando no testemunho comunitário. Em cada comunidade habitam muitas vidas, em toda a sua complexidade. Ao nos encontrarmos como comunidade, os muitos rostos e histórias se entrecruzam, e ali se formam muitas redes dinâmicas de testemunhos, que se interpenetram e provocam umas às outras. No entanto, a comunidade possui uma característica que integra essa complexidade: é ser comum, é possuir uma afinidade que integra as vidas, o que chamamos de identidade da comunidade. Essa identidade faz com o que os tantos olhares confluam em uma direção comum.

Nas três observações, nosso convite consiste em retomarmos nossa compreensão do que é ser testemunha e do papel do testemunho para as espiritualidades libertadoras. Que possamos caminhar para compreender que todas as vidas são únicas e, são testemunhas de si mesmas e de seu contexto. Que possamos caminhar para observar que não há vidas isoladas, pois somos histórias coletivas, e que cada narrativa ecoa em todas as demais. Que possamos construir experiências comunitárias de vida, de entrelaçamentos, de apoio mútuo, sem cobranças, mas reconstruindo conjuntamente os passos que desejarem ser comuns.

 

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