Celso Pinto CariasColunistas

O poder, a posse e o povo – uma crônica da vida

Em 25 de novembro de 2022, um amigo, Abdul Haikal, 65, teve um infarto fulminante e faleceu. No dia 21 ele tinha me ligado e tivemos uma longa conversa. Convidava-me para participar de um grupo suprapartidário para refletir política a partir de Duque de Caxias, RJ. Abdul era uma figura muito interessante. Meio mulçumano, meio cristão e meio sem religião. Por causa da política em Caxias, o conhecia há anos. Mas nos últimos anos nos aproximamos por conta de um grupo mulçumano que queria fazer contato com  Dom Mauro Morelli e ele foi o mediador.

            Lembrei-me de Abdul, autodidata, extremamente ligado à realidade, inclusive com visita a Palestina na juventude, porque ele sempre dizia: “Poder é uma coisa, governo é outra”. Poderia morar na Barra, mas morava em Saracuruna, Caxias, Baixada Fluminense. E mesmo ele não sendo um intelectual do campo sociológico, com publicações, e eu idem, para mim ele estava absolutamente certo.

            Um/a leitor/a desta crônica mais à direita certamente não gostará do que virá. Mas o/a de esquerda talvez também tenha dificuldade. Na posse de Lula e do novo governo, muitos foram tomados de uma justa alegria. Sim, o que se experimentou ao longo de quatro anos no Brasil foi uma tempestade que parecia não ter fim. Deslizamentos soterrando vários instrumentos de defesa da vida do povo. Portanto, como não respirar aliviado?

            Porém, sou um “realista esperançoso” (Suassuna). Para meu sofrimento, a mente está sempre indo na frente. Sim, temos um novo governo. Um governo que, modestamente, junto ao partido ao qual sou filiado (PSOL), recebeu eleitoralmente todo o meu apoio.  A democracia, passo necessário para a construção de um novo mundo, por enquanto sobrevive.

            O poder é o mercado e sua estrutura capitalista. Os bilionários. Neste começo de 2023, Luciano Hang, por exemplo, é o nono mais rico do país (4,6 bilhões de dólares segundo a Forbes). O primeiro é o vendedor de cerveja (Lemann). O capital, mesmo o “produtivo” (tentativa de humanizar) será uma sombra constante, mesmo sem sol. E sempre haverá a possibilidade de um eclipse total.  

            A posse do novo governo foi de fato emocionante. Sem ironia. A entrega de faixa foi extremamente significativa. Mas como garantir que o povo seja de fato protagonista? Como garantir políticas públicas? Como garantir que não existirá mais “Belo Montes”? Este é o grande desafio. O Papa Francisco sempre fala: “É preciso fazer com o povo e não para ou pelo povo”.

            Mas Celso, dizem muitos/as amigos/as, viva o presente.  Certíssimo. É por viver o presente que olho para o futuro. O tempo está escorrendo pelas mãos. Dizem ainda: “não há outro caminho”. Não é possível governar sem um grande esforço de negociação com o poder. Verdade. Abdul também falava isso. Contudo, não se sobe uma escada a partir do décimo degrau. É preciso ter projeto. Os sonhos e utopias precisam começar a ser construídos do começo, óbvio. Mas, se não houver começo, não haverá utopia realizada.

            Não vivo mais como pobre. Sou classe média baixa. Mas vivo na periferia. Vou ao mercado do bairro, ando de trem, caminho pelas ruas do comércio de Duque de Caxias, quase um milhão de habitantes espremidos nas calçadas.

            Alguns poucos fatos vivenciados apenas nestes dias. Precisei, mesmo tendo plano de saúde, ir ao posto de saúde público de Caxias. Que tristeza. Fui muito bem atendido por uma enfermeira, mas a sujeira era enorme. Ao sair, sentei num banco para ver o celular e uma senhora ao meu lado disse: “não consegui todos os remédios”. Outro fato: queria conversar um assunto de doença com a senhora que pega a cesta básica doada pela comunidade da qual participo. Ela teve hanseníase, eu também tive. Mas quando ouvi a história dela fiquei até com vergonha. O meu tratamento foi o mínimo, seis meses. O dela foram cinco anos. Ficou cheio de sequelas. Precisa usar tênis, pois tem um buraco no fundo do pé. Finalmente, o enterro de um sobrinho (42 anos) por parte de minha esposa. Tinha diabetes. Já era amputado. Certamente, se tivesse um plano de saúde, poderia ficar mais tempo entre nós, com seus pais e com seu único irmão. E a lista poderia ser bem maior. Agravada nos últimos quatro anos? Sem dúvida. Mas este não é um processo de quatro anos. O capitalismo vive da desigualdade. Em alguma nação ele pode não ser tão desigual, mas pergunta-se: “como conquistou isso”? As colônias na América Latina e África que o digam. Como diz o nosso Ailton Krenak, o capitalismo não tem projeto coletivo.

            De novo alguém pode objetar: “Mas Celso, já vivemos situações melhores em outros tempos”. Sim, sem dúvida. Mas, da forma como o nosso mundo está, se não mudarmos o rumo de nossas vidas, o futuro não será muito promissor. Em uma série da HBO sobre o trabalho escravo, alguém disse: “há trabalho escravo no mundo todo”. E ele não queria se referir apenas àquele trabalho “análogo à escravidão”, como diz a lei brasileira, mas  situações de trabalho onde a pessoa não tem tempo para nada. Lazer? Muito difícil. Na Baixada existem muitos jovens que nunca foram ao cinema. Outro dia a Globo, sim, a Globo, fez uma bela reportagem sobre crianças de Queimados, cidade da Baixada, que nunca tinham ido à praia. Uma adolescente de quinze anos chorou. Como dizem os especialistas, são lampejos do “Brasil profundo” de vez em quando na mídia.

            Esta coluna não tem condições de pincelar qual o rumo tomar. O que ela deseja é ser apenas um pequenino sinal de que precisamos de um novo projeto de sociedade. Provocar um mínimo de reflexão para iniciar novos processos. Que Deus nos ilumine.

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