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O rosto social das CEBs

A “realidade é superior à ideia”: este critério leva-nos a colocar em prática a Palavra e realizar obras de justiça e caridade nas quais a Palavra se torna fecunda”. EG 233

            A dimensão social é da natureza das CEBs. As CEBs nascem nos anos 60 e 70, estamos no bojo do regime militar, um momento caótico para o país, marcado pela repressão, censura,  tortura, prisões ilegais, desaparecimento de pessoas, perseguição e criminalização de lideranças indígenas e negras, violações de direitos humanos, empobrecimento, divisão e alargamento das classes sociais. Uma ditadura capitaneada pelo Estado brasileiro e apoiada pelos EUA.

Se por um lado, o surgimento das CEBs se dá num cenário extremamente difícil no país, temos no cenário eclesial um momento propício sob a inspiração de Medellin e Puebla. Uma Igreja  com fortes lideranças comprometidas com a “questão social”, dentre bispos, padres, religiosos, leigos e leigas. É neste contexto que as CEBs descobrem seu “jeito” de organizar o povo para refletir a realidade a partir da Palavra na Bíblia, celebrar a vida e lutar pela transformação da sociedade. Muitas vezes, na clandestinidade, mas este cenário deu originalidade às CEBs e definiu sua identidade social.

Assim, as CEBs começam o seu curso na história fundamentada na narrativa das primeiras comunidades cristãs. Com o coração na Palavra e os olhos na realidade assumem as lutas por direito à terra, moradia, água e esgoto, saúde, educação. Enfrentam e contribuem para a diminuição do analfabetismo, fato visível em muitas comunidades, onde as pessoas começam a ler nas celebrações, ou conseguem identificar o ônibus sem ter que disfarçar: “que ônibus é aquele, deixei meus óculos em casa?”. Para enfrentar o drama da fome, surgem as Cozinhas e Hortas Populares e Comunitárias. Muitas lideranças são preparadas nas bases para assumir cargos públicos em prefeituras e câmaras de vereadores. As CEBs fomentam ainda o surgimento de muitos movimentos sociais: contra o alto custo de vida, contra o desemprego, transporte público, trabalhadores sem terra, dentre outros.

Pode-se dizer que o “rosto” social das CEBs, delineou um novo rosto social na Igreja do Brasil, fazendo fervilhar o surgimento de Pastorais Sociais para atender situações específicas de: crianças, jovens, mulheres, operários, agricultores, negros, indígenas….

Foi o compromisso social das CEBs, que deu origem às temáticas dos Intereclesiais, como por exemplo: Igreja: povo que se liberta; Igreja, povo oprimido que se organiza para a libertação; CEBs: povo unido, semente de uma nova sociedade; CEBs: Culturas oprimidas e a evangelização na América Latina; CEBs: Vida e Esperança nas Massas; CEBs, Ecologia e Missão; Justiça e profecia a serviço da vida; CEBs e os desafios do mundo urbano…

O tempo passou, e questões que pensávamos superadas estão de volta. Dentre elas, a pobreza, a fome, o analfabetismo, a violação de direitos, o aumento escandaloso das desigualdades sociais, o desemprego, as violências em todas as suas formas e a fragmentação da vida. É verdade que estas questões não são em primeira instância da responsabilidade da Igreja, ou das CEBs. Mas diante de um país que sucateia a educação e a saúde e relega os pobres ao que o Papa Francisco chama de “lixeira humana” para descarte: “Tendo-se tornado eles próprios parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo”, temos sim, um compromisso social com o Evangelho. E onde estão as CEBs agora?

Hoje, temos um cenário sem precedentes neste país, direcionado por um governo sem compromisso político, ético e social e uma Igreja extremamente fragilizada em seu modelo eclesial. Faltam-nos profetas, crescem os movimentos eclesiais, a teologia da prosperidade ocupa espaço privilegiado em muitas dioceses e uma parcela do povo de Deus, perdida, vagueando para todas as direções.

Onde estão as CEBs? Elas continuam, fragilizadas, mas continuam! Também continuam os Movimentos Sociais, as Pastorais Sociais, Grito dos Excluídos, Jornadas Mundiais do Pobre, Campanhas da Fraternidade, as Romarias da Terra e da Água, a Campanha É tempo de cuidar… Fragilizadas, mas continuam!

E continuam as CEBs inseridas nestes espaços de luta social?

Não seria o momento propício para as CEBs retomarem o “primeiro amor”, considerando o que diz o Papa na EG 216: “Pequenos mas fortes no amor de Deus, como São Francisco de Assis, todos nós, cristãos, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos”?

 

 

 

 

 

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