ColunistasIvo Lesbaupin

Ódio, mentiras e armas: um São Francisco às avessas

“Onde houver ódio, que eu leve o amor”

Oração de São Francisco

Há uma contradição na campanha eleitoral do presidente Bolsonaro que é a de afirmar-se seguidor de Jesus e pregar o ódio, a mentira e a guerra. 

Jesus disse que o demônio “é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44). O presidente ataca seus adversários usando frequentemente de mentiras (“fake news”) para difamá-los: ora diz que um é pedófilo, ora que outro difundiu um “kit-gay” nas escolas e assim por diante. Passou dois anos da pandemia divulgando um remédio ineficaz para curar a Covid e, ao mesmo tempo, fez propaganda contra a vacina – única medicação efetiva para evitar a contaminação e proteger contra uma forma grave da doença. Entre outras mentiras, disse que uma pessoa que fosse vacinada poderia desenvolver o vírus HIV. Em toda a sua campanha contra as urnas eletrônicas nunca apresentou uma prova do que diz. 

Outra característica de seu discurso é a pregação do ódio: os que não pensam como ele são desqualificados e devem ser eliminados: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil (…)” (1999).

O modo de se referir aos adversários é sempre como uma parte da sociedade que não merece consideração, que não tem direito à existência. Este discurso bélico se expressa através do símbolo pelo qual se faz conhecer: as mãos em forma de arma. “Se precisar, iremos à guerra” (03/06/2022). “Eu quero todo mundo armado! Que povo armado jamais será escravizado” (em reunião ministerial, 22/04/2020). Desde o início de seu governo, tomou uma série de medidas para facilitar a posse e o porte de armas por indivíduos, o que teve como resultado, em três anos, que “foram registradas mais de 1 milhão de novas armas particulares no Brasil”.

“Os registros de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) dispararam durante o governo do presidente Jair Bolsonaro. Segundo dados levantados pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública, com base em informações do Exército, o número de CACs no país passou de aproximadamente 117 mil, em 2018, para mais de 670 mil esse ano”. 

O governo fez votar leis que facilitaram o acesso a armas de fogo e a munições: “Hoje, atiradores podem ter até 60 armas, sendo 30 de uso restrito, como fuzis. Em relação à munição, cada CAC pode comprar 180 mil balas ao ano. (…) Para os colecionadores, não há limite numérico, mas são cinco peças de cada modelo, além de 6 mil balas”. Esta flexibilização não contribuiu para maior segurança, já que criminosos podem usar de vários artifícios para obter armas de forma legal, inclusive usando intermediários. 

Em resumo, ao pregar ódio em vez de amor, difundir mentiras em vez da verdade, defender armas em vez da paz, o presidente inverte a oração de São Francisco e explicita que está em total desacordo com o testemunho e a pregação de Jesus Cristo. 

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