ColunistasPadre Francisco Aquino Júnior

Pedro Casaldáliga: Presente na caminhada!

Celebramos no dia 8 de setembro um mês da morte de Pedro Cassaldáliga – bispo emérito de São Félix do Araguaia. Com seu estilo de vida, com suas causas, com seu jeito de ser bispo, com sua profecia e com sua poesia marcou profundamente a vida dos povos do Araguaia e de nossa Igreja. Seu sepultamento foi expressão de seu modo de vida: carregado por indígenas, cuja causa assumiu de corpo e alma; sepultado no antigo cemitério de São Félix do Araguaia entre indígenas, peões, sertanejos e crianças que ajudou sepultar, numa cova discreta, cujo único distintivo era uma cruz; atacado pelo deputado bolsonarista Nelson Barbudo (PSL– MT) por seu compromisso com os povos indígenas; acompanhado por lideranças populares do Brasil e do mundo afora.

Fiel seguidor de Jesus, profeta do Reino, servidor dos pobres, companheiro na caminhada, patriarca da Igreja dos pobres, testemunha fiel… Assim viveu e morreu o santo profeta do Araguaia e de nossa América Latina. Somos gratos a Deus por nos ter dado esse grande profeta. Nele, Deus passou pelo Araguaia, assumindo a causa dos indígenas, dos posseiros, dos sertanejos, das mulheres, dos direitos humanos…

Poderíamos falar muitas coisas sobre Pedro. Mas vamos destacar apenas alguns aspectos de sua vida e ação pastoral que são muito importantes para a vida e missão de nossas comunidades eclesiais de base hoje:

– A centralidade de Jesus de Nazaré e do seu evangelho que nos faz viver como irmãos e nos compromete com a luta pela justiça e pelos direitos humanos;

– A importância da comunidade como lugar de oração, vida fraterna, compromisso com os pobres e marginalizados e como fonte de carismas e ministérios;

– A oração pessoal e comunitária como lugar privilegiado de discernimento dos apelos de Deus em nossa vida, em nossa comunidade e em nossa sociedade;

– O exercício dos carismas e ministérios como serviço humilde e fraterno, despojado de títulos e símbolos de domínio, vaidade e privilégio;

– A comunhão (participação, defesa, apoio) com as causas e as lutas populares: pobres, indígenas, negros, sem terra, sem teto, mulheres, ecologia, direitos humanos;

– O diálogo fraterno com os cristãos de outras igrejas, com os crentes de outras tradições religiosas e com todos setores e grupos da sociedade – sempre a partir e na defesa dos direitos dos pobres e marginalizados;

– A memória dos profetas e dos mártires da caminhada que nos ajudam a não perder o rumo da vida/fé e nos põem sempre do lado e a serviço dos pobres;

– A vivência da fé no cotidiano da vida (relações em casa, no trabalho, na escola, com os vizinhos; cuidado com as pessoas em seus sofrimentos e em suas necessidade; a alegria e o bom humor) e na luta pela transformação da sociedade (causas e lutas populares, conflitos por causa dos pobres, movimentos populares, partidos de esquerda);

– Não perder jamais a esperança. Somos povo da páscoa! Por mais dramática que seja a situação, sempre é possível fazer algo, sempre há uma saída. Ao dito popular “a esperança é a última que morre”, costumava acrescentar: “e se morrer ressuscita”.

Essa é a grande herança espiritual que Pedro deixa para nós e para nossas comunidades: uma vida inteira e total vivida na comunhão com Deus, em companhia dos profetas e mártires da caminhada, na fraternidade com os irmãos, no diálogo ecumênico e inter-religioso, no compromisso com os pobres e marginalizados e na luta pela transformação da sociedade. É por ter vivido assim que podemos afirmar com certeza de fé que em Pedro Casaldáliga Deus passou por esse mundo… E essa mesma certeza de fé nos obriga a prosseguir nesse caminho como Igreja dos pobres, comprometida com os pobres e com suas lutas. Nessa caminhada, Pedro continua presente!

Pedro Casaldáliga: Presente na caminhada!

Francisco de Aquino Júnior[1]

[1] Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

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