ColunistasRosemary Fernandes da Costa

Saúde e espiritualidade andam juntas?

Será que saúde e espiritualidade andam juntas? A espiritualidade libertadora pode ser integradora das muitas dimensões de uma saúde integral?

Muito já se falou sobre este tema, então, nossa intenção aqui é resgatar sua importância já que, muitas vezes, nos distraímos com os dualismos em que estamos imersos, e esquecemos dessa fundamental integração entre saúde e espiritualidade. 

Ao trilharmos os caminhos das muitas religiões, vamos encontrar em cada uma delas mensagens que falarão das questões básicas do ser humano como fundamentais para nosso encontro conosco mesmos e, portanto, com todo o sentido do viver. Por mais que caminhemos, retornam com frequência os temas das relações entre as pessoas, com encontros e desencontros, com rancores e mágoas, que muitas vezes, marcam a história pessoal e afetam sua saúde integral. Também nos encontraremos com as grandes questões da vida, como sobre o sentido do viver e do morrer, sobre os caminhos da ética e da justiça. Sim, esses grandes temas também nos afetam tanto no campo pessoal como no campo social. 

Nas grandes religiões podemos revisitar o que ficou sendo conhecido como ‘regra de ouro’. Desde Confúcio, ela está presente no confucionismo, no judaísmo, no cristianismo, no budismo, no islã, na fé Bahai. E vamos encontrar versões nas tradições indígenas e afrodescendentes, na perspectiva mais comunitária e de uma existência integral. 

A regra de ouro fala da relação fundamental entre saúde e espiritualidade, pois nos recorda que vivemos em comunidade, que estamos juntos no cuidado cotidiano até o destino escatológico, nos complementando e afetando mutuamente. 

  • “O que não desejas para ti, também não o faças aos outros” (Confúcio 551-489 a.C.)
  •  no judaísmo: “Não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti” (Rabi Hillel, 60 a.C.-10 d.C.);
  • com Jesus de Nazaré: “O que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7,12; Lc 6,31); 
  • no budismo: “Um estado que não é agradável ou prazeroso para mim não o será para o outro; e como posso impor ao outro um estado que não é agradável ou prazeroso para mim?” (Samyutta Nikaya V, 353.3-342.2), 
  • no islamismo: “Ninguém de vocês é um crente a não ser que deseje para seu irmão o que deseja para si mesmo.” 
  • nas tradições afrodescendentes: Que a paz de Oxalá e a força de todos os orixás esteja sempre em seu caminho. 
  • no Santo Daime: “O sol que veio à terra para todos iluminar, não tem bonito, nem feio. Ele ilumina a todos de forma igual”
  • na fé Bahai – Não se contente em mostrar amizade apenas com palavras, deixe seu coração queimar com amor e bondade por todos que cruzarem seu caminho. 
  • nas tradições indígenas – Sinto o espírito que une meu ser à natureza de todos os mundos. Agradecido pela incompletude que nos impulsiona para buscar o que nos falta, desfrutando esta maravilha que é a vida em movimento (tradição Guarani Nandewa)

Então, estamos no centro da espiritualidade, estamos no coração de cada ser humano, no coração de todas as relações humanas e não humanas, no âmago da existência e da história passada, presente e futura. A espiritualidade libertadora vai nos indicando e firmando nosso ser como raízes que penetram a terra e também que se entrelaçam, na sabedoria profunda, mas também inovadora e surpreendente das muitas vidas que nos habitam. 

A partir deste momento, gostaríamos de lembrar de boas práticas que podem nos apoiar nessa integração. Algumas vêm nas tradições espirituais, e outras do saber e trocas que vão se encontrando no chão de muitos territórios firmados nesses saberes. Nosso caminho é também um alerta à visão dualista que vai dividindo todo o mundo em dois, especialmente o mundo da matéria e o mundo do espírito e, com isso, as percepções oriundas dos sentimentos, da intuição, da vivência religiosa, a sensibilidade que vem na natureza, vão sendo secundarizadas, e prevalece as experiências comprovadas pela razão cientificista. Bem, já sabemos que a razão é um caminho de compreensão, mas não o único. 

Resgatamos uma visão mais integradora, conhecida como holística (que vem da palavra grega hólon, totalidade ou unidade integral). A palavra de ordem nesta visão é harmonia – refazer a realidade fragmentada, restaurar a afetividade, remodelar relacionamentos, reconciliar desejos, práticas e escolhas. 

São muitas as terapias alternativas, as boas práticas de saúde integral – – homeopatia, acupuntura, medicina natural, medicinas energéticas, biodança, fitoterapia, reiki, medicina ayurvédica, danças circulares, meditação, osteopatia, quiropraxia, shantala, ioga, florais, enfim, que bom que essas práticas foram reconhecidas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde, na portaria 849, de 27 de março de 2017. 

Entre os pensadores mais antigos, o conceito de terapia – therapeía – está relacionado com a atitude de cuidar, de estar próximo, de se fazer presente e atuante. Se olharmos para os caminhos de espiritualidade vamos encontrar muitas aproximações dessa atitude, por exemplo, como a compreensão de serviço ao próximo, à próxima, como diakonia, como sensibilidade amorosa, como integração entre contemplação e ação, como apoio ao fluxo de energias presentes dentro e fora de cada pessoa/animais/ambientes. 

Neste sentido, nos inspiramos mais uma vez em Leonardo Boff, quando nos diz que estas se tornam “grandes gestoras da esperança, dos grandes sonhos, de um futuro transcendente do ser humano e do universo. Reafirmam o futuro da vida, contra a violência cruel da morte.” E, mais uma vez, podemos falar de como é importante a vivência ecumênica, marcada pelo diálogo, pelo respeito, pela reverência às tantas fontes, símbolos, leituras de universo, formas de viver, presentes em cada um dos tantos caminhos de espiritualidade religiosa e não religiosa. 

Estamos, portanto, não diante de uma inovação moderna, mas de um resgate de práticas ancestrais e muito profundas. As terapias integradoras são experiências, e através de suas muitas práticas nos conduzem a revisitar os caminhos de diversos povos, conhecendo seus saberes e sabores e deixando que essa seiva milenar nos alimente na integração entre saúde e espiritualidade. Neste fluxo, também as adversidades e adoecimentos são integrados, não como negações da vida, mas como caminhos a serem cuidados com compaixão e confiança, mesmo que não compreendidos plenamente.

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