Celso Pinto Carias

Sobre vacinação: é preciso libertar a liberdade

Tenho um amigo que, como eu, tinha o hábito de recortar textos de jornais. Faz tempo. Eu, quando era possível, comprava o Jornal do Brasil, ele a Folha de São Paulo. Ele acabou me dando um recorte de um artigo do Rabino Nilton Bonder, publicado em 19/04/2000 e intitulado “Liberação, libertação e o ‘ego’ do pão”. Usei o mesmo muitas vezes em sala de aula.

Bonder de forma sintética, mas com grande profundidade, falando da Páscoa judaica, lembrava que era possível se tornar liberado, mas não libertado, pois “liberar-se é deixar de ser escravo; libertar-se é deixar de ser escravo e escravagista”. Dizia isso para fazer menção ao fato de que mesmo depois da libertação do Egito, judeus foram escravizados de novo e também escravizaram. Lembrando Martin Luther King ele aponta para o fato de que “só posso ser livre se você for. Posso ser liberado sem que o outro seja, mas não posso ser livre”. Ainda caminhando com Bonder, esbarramos em uma afirmação que está longe de ser compreendida por um mundo que se torna cada vez mais escravo de si mesmo, em termos do filósofo Byung-Chul Han, ou seja, ser livre é “quando não fazemos o que queremos por opção, com o mesmo prazer e convicção que fazemos o que queremos”.

Lembrei-me deste sábio rabino pelo fato de encontrar, na atual conjuntura, muita gente arrogando o direito de ser livre para afirmar condutas que podem ser chamadas de liberação e não libertação. Seria um ato de liberdade, segundo tais pessoas, expressões públicas de ódio e intolerância, fazer afirmações mentirosas que coloquem em risco a vida de outras pessoas, e que qualquer ação para impedir tais atos seria censura.  E ainda, seria um ato de liberdade, em plena pandemia, que já ceifou a vida de milhões de pessoas no mundo, não é exagero da Globo, não se vacinar, pois ninguém teria o direito de induzir o indivíduo a um ato que ele não queira.

Falando apenas do ponto vista antropológico, isto é, da visão de pessoa humana que sustenta a organização da sociedade, existência isolada é uma invenção moderna que se presta muito bem ao fechamento humano em si mesmo (ego), como se ele pudesse ir morar, por livre e espontânea vontade, em uma ilha, e lá ser feliz, pulando todas as etapas de aprendizado social. Sempre lembro aos meus alunos e alunas que para o personagem do filme “O naufrago” sobreviver, ele precisou do “Sr. Wilson” (uma bola de futebol na qual ele projetou uma vida humana para se relacionar). A realidade humana é intrinsecamente relacional. 

O ser humano é um animal social, já dizia Aristóteles. Somos seres do encontro, da partilha, de relações que se travam desde a infância, e que nos constitui enquanto pessoa. Evidentemente que este é um processo cheio de altos e baixos, com desafios a serem vencidos, mas não é possível viver sem este fator da existência. Só me reconheço como humano se existir outro humano a me oferecer algo de si. Por mais que tenhamos heranças biológicas, precisamos aprender a ser humano. O individualismo é um câncer que leva a sociedade a se degradar. Quanto mais nos fechamos, mas nos colocamos, arrogantemente, como seres que chegam perto de se considerarem deus. Este é o chamado “pecado” do mito de Adão e Eva: querer ser igual a Deus, e não um pecado moral de comer uma maçã que se quer existe no relato bíblico. 

A ciência não é Deus. Ela tem limites. Mas no interior de um mundo complexo como nosso, e ainda com tanta desigualdade produzida por uma busca desenfreada de uma ideal de felicidade onde o interesse individual pode estar acima de tudo, aí até mesmo “Deus” pode ser utilizado para sustentar tal visão, é fundamental buscarmos juntos um caminho de diminuição de danos de uma pandemia. E, neste contexto, ainda que se reconheçam também as ambiguidades do processo político, temos o dever moral de diminuir os riscos que ultrapassem possíveis ideais de liberdade que continuam a escravisar. Tratar a liberdade como um ato que não se reduz ao individuo é fundamental para muita coisa. Mas, neste momento, vacinar-se, como diz o Papa Francisco, é um ato de amor. Assim sendo, como diria M. L. King, “Ou vivemos todos como irmãos ou pereceremos todos como loucos”. 

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