ColunistasRosemary Fernandes da Costa

A troca de saberes e sabores nos diálogos intergeracionais

Trazemos uma experiência fundamental para nossas comunidades e que, por muito tempo, foi colocada de lado, que é a troca de saberes entre gerações. Sim, houve um bom período em que esses grupos foram considerados específicos, com linguagem e interesses próprios, e até divididos para um melhor planejamento pastoral. Consideramos que esse é um caminho pedagógico-pastoral que trouxe e ainda traz muitas experiências fecundas e renovadoras, importantes para os processos comunitários. Contudo, nosso convite hoje é para repensarmos nossos planejamentos e, incluirmos trocas intergeracionais, com seus novos desafios, novas aprendizagens e também novos processos comunitários e libertadores.

Em nosso último artigo, falamos da riqueza da colcha de retalhos, em sua complexidade, cada retalho é ‘si mesmo’ e, ao mesmo tempo, é o conjunto de tantos retalhos. A originalidade é demarcada, a diferença, e beleza de cada pequeno detalhe.

Mas, antes de falarmos do momento atual, que nos convoca às redes de trocas de saberes e sabores, demos um passo um pouco atrás, uma pequena virada olhando apenas para o lado, e ainda estaremos diante de um paradigma que nos identificou com a ideia de sujeitos, de indivíduos. Essa foi uma dimensão preciosa, pois foi a conquista da originalidade de cada pessoa, de cada saber, de cada momento histórico, de cada ciência.

Hoje, nosso convite é passarmos da experiência de sujeito, de individualidade para a das relações, para a compreensão do diálogo presente em toda parte, em todos os grupos, dentro e fora de cada um de nós. Dentro de nós encontramos muitas vozes, não é mesmo? Ouvimos nossa criança, ouvimos nosso jeito de crescer, nossas boas lembranças e também nossas tristezas. E na comunidade? Ah, que riqueza é quando na comunidade se iniciam as trocas de memórias, de alegrias e também de dores, e como vamos aprendendo umas com as outras. O mesmo ocorre quando ouvimos outros grupos, de outras fés, de outras formas de pensar, de outras etnias, de outras culturas.

Cada escuta, se a fazemos com atenção e coração aberto, é de aprender a aprender, de descobrir novas formas de ser e viver, de contemplar a riqueza da vida presente em tantas vidas e todas diferentes.

Estamos, portanto, diante de um fundamento precioso ao cristianismo, precioso às muitas e muitas expressões religiosas: a primazia da comunidade.

Esse convite nos chega de muito longe, das fontes do Cristianismo, das primeiras comunidades, mas especialmente da fonte do Amor Divino, que é a comunidade trinitária. Deus se revela amor e comunhão, amor e comunicação, amor e troca intergeracional. Não é um Deus isolado, individual, separado em estágios ou fases. É um Deus dinâmico, compassivo, que se deixa afetar pela alteridade, que se movimenta, que acolhe e responde, é um Deus comunhão, comunidade, inter-relação.

E, ainda olhando para nosso chão, o mesmo convite nos vem dos povos originários. Entre eles só existe a vivência da imensa e complexa rede de relações. Ou seja, o conceito de pessoa, de indivíduo, não encontra morada, pois a vida é vivida dentro dessa imensa teia relacional.

E nossas comunidades? Aqui chega nosso convite, de repensarmos nossas estruturas pastorais em vista de construirmos novos espaços de trocas de saberes e sabores. Digo saberes e sabores porque tanto podem ser trocas dialogais, círculos nos quais a linguagem seja a principal ferramenta, como podem ser trocas de sabores, de receitas, de aprendizagens, de experiências, de danças, de artes. Nos dois campos haverá comunhão e enriquecimento comunitário.

Que tal reunirmos as crianças, os adolescentes, os jovens, os adultos, os mais velhos? Podemos pensar em pequenos grupos intergeracionais, pouco a pouco, construindo as virtudes necessárias para que esses diálogos sejam muito amorosos. Precisamos então, fazer um caminho – o caminho da escuta de cada pessoa; o caminho de olhar nos olhos enquanto fala, sem se distrair com mais nada; o caminho de valorizar cada palavra, cada experiência, cada memória; o caminho de sentir junto, alegria e tristeza, sorrir e deixar que venham as lágrimas; o caminho da curiosidade com o saber que vem da diferença.

Uma rede relacional é uma linda colcha de retalhos. Ela nos fala de interdependência, de interligação, de diálogos fecundos e transformadores, da descoberta da riqueza nas diferenças. Nos fala da circularidade relacional, de saberes que vêm e vão através de cada troca.

Todo o amor será comunhão
A alegria de pão e o vinho
Você bem pode me dar a mão
Você bem pode me dar carinho

Milton Nascimento
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