Celso Pinto CariasColunistas

Uma solidariedade política é necessária

Compartilhamos da antropologia (visão da pessoa humana em sociedade) na qual o ser humano, homem e mulher, é essencialmente solidário e não solitário. Compartilhamos também que existe uma ambiguidade que a tradição judaico-cristã chama de pecado, definido aqui como tudo o que desumaniza e não numa perspectiva moralista. Dito isso, vamos à reflexão.

É muito comum, em momentos de tragédias humanitárias, constatar a solidariedade humana. O que, evidentemente, é muito bom. Contudo, é surpreendente que esta louvável virtude não ultrapasse, com a mesma intensidade, situações de tragédia. Há estudos psicológicos e neurológicos quanto a isso. Porém, modestamente, queremos apontar para uma necessidade fundamental no processo de constituição da realidade social na qual estamos todos, gostemos ou não, inseridos: a solidariedade política.

O Papa São Paulo VI resgatou uma afirmação do Papa Pio XI, e o Papa Francisco já citou algumas vezes: política é a forma mais nobre de fazer a caridade . Possivelmente muitos se assustem com esta frase, pois política, sobretudo nos últimos anos, vem associada a muita coisa ruim. 

Mas se o ser humano é essencialmente social, não há sociedade, portanto, sem política. Sem procurar organizar a cidade (polis) do melhor modo possível, podemos experimentar o caos. Sem dúvida, em virtude dos limites humanos, tal busca pode conter muitos problemas, pois sempre haverá possibilidade de conflito de interesses. Contudo, tal limite não pode ser razão para impedir que alcancemos outro mundo possível. E venhamos e convenhamos, nos últimos 200 anos o mundo melhorou por causa da política: fim da escravidão, voto feminino, saúde pública, etc.

Em uma tragédia, como a que Petrópolis/RJ está vivendo nestes dias, o espírito solidário foi percebido com força. E tal solidariedade é fundamental. O falecido sociólogo Herbert de Souza, mais conhecido como Betinho, cunhou a frase: quem tem fome, tem pressa. Sim, não é possível, se alguém está morrendo de fome, pedir para ela paciência histórica até que a sociedade corrija as desigualdades. Ela precisa comer agora. 

Contudo, o que a tragédia de Petrópolis revela? Viajando em ônibus urbano uma senhora sentou ao meu lado e disse: esse pessoal tá pagando pela ira de Deus. Levei um susto. Mas logo me recompus e falei com ela da misericórdia de Deus. Mas fica uma pergunta: por que pessoas boas, imagino que esta senhora não seja nenhuma inimiga da sociedade, são induzidas a justificar tragédias como consequência de opções puramente pessoais ou mesmo, o que é pior, como vontade de Deus?  A revelação por trás dos escombros de Petrópolis é muito mais complexa e, aí, interesses outros ficam enterrados na lama, pois, com o tempo, são rapidamente esquecidos.

Assim, aquela solidariedade, em muitas situações até heróicas, vai se arrefecendo, e cidadãos e cidadãs, iludidos por uma sociedade de consumo nada solidária, pela propaganda egoísta, ou mesmo cansada de buscar soluções, caem de novo na armadilha de um olhar individualista.

A solidariedade política é a dimensão que, sem perder a sensibilidade pelo sofrimento que acontece agora, abre os nossos olhos para vermos a necessidade de buscar soluções que evitem tragédias. Se houvesse políticas públicas de moradia com maior abrangência, por exemplo, certamente ainda haveria tragédias, mas com um impacto bem menor. Sem falar na urgente necessidade de montar estruturas emergenciais permanentes que possam ser usadas rapidamente nestas situações e salvar mais vidas. 

A consciência política não pode se reduzir a uma opção individual, isto é, o que é melhor para mim, mas deve nos conduzir a buscar soluções coletivas. E por incrível que pareça, quanto melhor for a solução coletiva, melhor também será para os indivíduos, embora muita gente não perceba isso. A sociedade ocidental, já tratamos deste tema em uma de nossas colunas, foi formada a partir de um conceito de liberdade que não aprofunda a dimensão social. Os indígenas, chamados por muitos de “selvagens”, viveram milhares de anos justamente porque privilegiaram o coletivo. E as nações que sobreviveram ainda privilegiam. Não significa que eles sejam perfeitos, mas significa que a sobrevivência destas nações, por um longo período de tempo, deve-se a tal dimensão antropológica.

Que a solidariedade, tão fundamental em tempo de tragédias, nos ajude a perceber a necessidade de uma solidariedade política.  

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