Celso Pinto CariasColunistas

Vem Senhor e nos dê esperança

            A liturgia de boa parte das igrejas cristãs celebra até o Natal um tempo de fortalecimento da esperança, chamado Advento. Diante do mundo em que estamos vivendo nos perguntamos: “É possível ter esperança?”.

            Uma amiga, Irmã Tea Frigerio, tem nos recordado que é tempo de uma “profecia apocalíptica”. O gênero apolítico não fala de fim do mundo, mas fala de esperança. Fala em uma situação na qual as palavras já não dizem exatamente aquilo que elas querem dizer. Então, a profecia lança mão de expressões fortes que possam ir em direção do desejo de um mundo diferente, de um mundo onde “as lagrimas serão enxugadas” e “a morte, o luto, a dor” não haverá mais, pois “as coisas antigas se foram” (Ap 21, 4).

            É muito difícil, diante da força do mal olhar para o Presépio e ter esperança. Como assim? Aquela frágil criança em um estábulo, cercada por pais sem lugar e de animais, está a nos dizer que o mundo pode ser diferente? Sim, por isso teremos sempre a tentação de não aceitar um Deus tão pequeno, tão singular, tão extraordinariamente amoroso e livre para nos libertar de tudo aquilo que nos faz cegos diante da estupenda manifestação de um Deus que caminha conosco para nos fazer capazes de amar cada ser humano, cada bicho, cada árvore, como se estivéssemos vivendo já no paraíso.

            Contudo, como no tempo em que o livro do Apocalipse foi escrito, existem circunstâncias históricas que abafam nossa esperança e que podem mergulhar nosso ser em um profundo desânimo. Então, vem o Advento e clamamos: “Vem Senhor Jesus, não tarde mais, vem saciar nossa sede de paz”.

            Vem Maria e José e nos ensine a enfrentar o desafio de encontrar lugar para os pobres, para os desvalidos, para sofredores que na noite de Natal possa ser que não escutem sinos, mas tiros de fuzil.

            Vêm Pastores e nos ensine a acreditar que o sinal de Deus é visto a partir da periferia e não dos centros de poder. As idolatrias deste mundo querem um Deus que legitime a força da violência, e no presépio vocês podem clamar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade”.

            Vem boi, vaca, ovelha e burro, ensinar-nos a contemplar a criança como parte de um universo onde tudo está interligado. Contemplar um planeta criado para o amor e não para o lucro, para a ganância do ter. Vem nos ensinar que pecado não é necessariamente xingar um palavrão, mas sim desumanizar e desintegrar a harmonia da vida na natureza.

            Vem bebê Jesus e nos ensine a reencontrar Deus sempre de novo no lugar revelado por ti, frágil criança. Que como a criança que chora, possamos logo a seguir, olhar para o alto e sorrir, como faz minha netinha Aurora. Sim, que possamos acreditar que haverá uma Aurora.

            Vem Senhor Jesus e nos dê esperança. Esperança construída em estábulos, pois é verdadeira, simples, serena, como a brisa que deve ter soprado quando depois de muita dor, sim parto tem dor, Maria contemplou a criança nascida, respirou fundo, e deve ter dito: “seja bem vindo”. A criança que o velho Simeão contemplou e disse: “Agora Senhor meus olhos podem descansar em paz, pois enxergaram a salvação” (Lc 2,29ss) pois a salvação não é um ritual mágico, mas um processo de vida digna para todos e todas até encontrarmos o Definitivo na morte.

            Que possamos cantar com força, como fez a pequenina Comunidade Batismo do Senhor, em Duque de Caxias, no segundo domingo do Advento (05/12/2021), sob o ritmo feliz do triangulo do sr. Nahum, celebrando oitenta anos, o refrão: “Dizei, gritai aos corações desanimados: não tenham medo! Criem coragem, que Deus já vem! Deus de vocês, ele vem vindo para julgar, divino prêmio consigo traz, vem libertar!”.

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