Celso Pinto CariasColunistas

“Violência simbólica” ou “diabólica” e o Centro Dom Bosco

Toda e qualquer religião pode ser instrumentalizada por uma estrutura de poder dominador. A minha, a sua, a de qualquer grupo humano que vive neste planeta. É fato. Tal realidade não desqualifica a importância do fenômeno religioso na realidade da vida humana que se organiza em sociedade. Como disse um dos pais da sociologia moderna, Emile Durkheim, “a religião é um mecanismo de força, elas podem se transformar, mas não podem desaparecer”.

No entanto, esta importante experiência que procura ligar seres humanos com uma dimensão que vai além de sua condição histórica (re-ligare), é constituída por um longo processo de construção simbólica que penetra profundamente a psique humana, o inconsciente e o consciente. E nessa construção não há garantias absolutas de que nunca haverá rachaduras. 

O ser humano é iminentemente simbólico. A cultura existe por conta desta capacidade de construir sinais que decodificam situações simples e complexas da existência humana: uma flor pode ser somente uma flor ou um sinal de que alguém ama outra pessoa. Símbolo, portanto, conforme a origem grega da palavra é aquilo que une. No entanto, a unidade pode ser corrompida por aquilo que desune: diábolo, isto é, aquilo que divide, conforme também a mesma origem grega. 

Ora, toda e qualquer organização social pode ser utilizada para dividir e não para unir. A religião e a política, como estruturas sociais, não são diferentes. Para citar um exemplo bem simplório, o futebol também. Assim, a minha, a sua, ou qualquer outra religião pode ser ópio do povo, como diria Marx, ou forte instrumento de unidade entre povos e nações. Pode ser utilizada como ferramenta para fazer violência ou para construir a paz. Jesus de Nazaré, o Cristo e Senhor, deixou um legado pacifista incontestável, basta lembrar “as bem-aventuranças” (Mt 5,1-12).  

Contudo, o poder diabólico pode penetrar expressões simbólicas de toda e qualquer religião e ainda usar tais expressões para a manutenção de um poder opressor que justifica ódio, preconceito e intolerância. Assim, a violência pode estar contida em expressões religiosas, tornando-se uma “violência simbólica” ou, talvez seja melhor dizer, “violência diabólica”. 

Toda é qualquer convicção religiosa deve ser respeitada, mas nenhuma convicção religiosa permite que se entre em uma igreja, por exemplo, interrompa a homilia de um presbítero com uma longa história de serviço aos pobres, com xingamentos e agressões. Nenhuma convicção religiosa permite que alguém se coloque no lugar de Deus e julgue que um Terreiro de Umbanda seja uma ameaça ao ser humano, dilapidando símbolos de fundamental importância para esta religião. 

A política profissional percebeu o quanto a religião tem importância para a vida de bilhões de seres humanos e pode utilizar os seus símbolos como ferramenta de negação daquilo que a religião tem de mais sagrado: reconhecer Deus em toda pessoa humana. 

A crise civilizatória pela qual estamos passando tem levado grupos religiosos a práticas de violência a serviço de projetos políticos. Não estamos falando de ideologias que podem ser sim antirreligiosas. Estamos falando de práticas no interior da própria realidade religiosa. Ressaltamos aqui o próprio cristianismo. E no cristianismo  catolicismo, como temos visto, por exemplo, através de uma organização chamada Centro Dom Bosco. Esta entidade tem total direito de defender suas convicções, mas não tem o direito de invadir uma igreja para atacar um ministro religioso, de mentir, de criar notícias falsas, defendendo, no fundo, que “os fins justificam os meios”. Ela vem agredindo prelados católicos que se colocam a favor dos pobres, como a cruel campanha contra Dom Vicente, bispo auxiliar de Belo Horizonte, entre tantos outros. Até o Papa Francisco é agredido. Em sã consciência, alguém pode afirmar que este método é cristão?

Se as religiões não desejam dar razão aos “profetas sem Deus” (Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud, entre outros), precisam se colocar, profeticamente, no lugar da paz e da concórdia. E lembramos especificamente a Igreja Católica, da qual a instituição aqui citada se diz representante. Talvez, apenas talvez, não se possa fazer nada do ponto de vista jurídico (civil ou canônico), mas certamente se pode afirmar em letras garrafais que eles não representam a Igreja Católica, mesmo se afirmando católicos. Afinal, acreditamos ou não que os/as seguidores/as de Jesus Cristo são construtores da paz? “Felizes os que procuram a paz, porque se chamarão filhos de Deus” (Mt 5,9). 

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