ColunistasRosemary Fernandes da Costa

Vulnerabilidade combina com espiritualidade?

Há muitos anos, um livro de Maria Clara Bingemer mexeu muito comigo; se chama Alteridade e Vulnerabilidade. Era a primeira vez, nos meus 36 anos, que me deparava com este tema, pois até ali, só me tinham apresentado uma imagem de um Deus onipotente, onisciente, onipresente, inabalável, impassível. Mas a alteridade divina nos revela um Deus todo amoroso, próximo, compassivo, misericordioso, que é afetado e frágil, pois assim é o amor. O amor é impotente, quer mover montanhas para salvar quem se ama, e se vê pequeno, em condições que não são tão facilmente removíveis. 

Então, como podemos viver essa espiritualidade que é toda amorosa? Como experimentarmos juntos a fragilidade com e como irmãs e irmãos? De que forma nos desapegarmos da ilusão da potência, da indiferença, das certezas absolutas que não permitem fraquezas, incertezas, dúvidas, novas ideias, novas compreensões, novas formas de viver?

Esse é nosso convite nesta reflexão. Somos seres sedentos de relações, de acolhida, de reconhecimento, de encontro. Contudo, o sistema em que vivemos prega outro credo, e podemos nos distrair e até confirmar essa outra crença na vida cotidiana. Prestemos muita atenção em como isso pode já estar acontecendo. Observemos se na prática não estamos acreditando mesmo é no individualismo, na concorrência, na indiferença, na vitória do mérito, nas justificativas da sociedade de consumo e do livre mercado. 

Precisamos, portanto, cientes dessa lógica perversa, mas enraizada com a competência do neoliberalismo, cuidarmos umas das outras, uns dos outros, através de uma espiritualidade libertadora. A chave fundamental nesta virada é passar do eu ao nós, é tecermos juntos o viver, é apostarmos na comunidade, nas alteridades, nas diversidades em comunhão. 

Passar do eu ao nós é nos percebermos como ‘arranjos existenciais’, nos dizia ainda esta semana, o Pe. Julio Lancellotti, na live “Jesus, o Cristo dos Pobres”, organizada pela Comunidade Batismo do Senhor e oferecida nos canais do Iser Assessoria, Saberes e Arte e no Portal das CEBs. Sim, é nos percebermos como caminhantes juntas e juntos, construindo o caminho da identidade, o caminho de sermos pessoas e nos percebermos não apenas como um eu pessoal, mas como um eu pleno de pessoas dentro de cada um de nós, e sempre recebendo pessoas em nossas relações. Cada um de nós é pessoa especial, original, com sua história, com seus ancestrais, com seus pais, memórias, com os amigos e não amigos com quem conviveu, com experiências tantas e tantas, que estão arraigadas em nosso ser, que é um ser dinâmico, em movimento incessante. 

O individualismo nega todo esse processo e cria a ilusão de um eu estático e inabalável, com muito receio da fragilidade e na vulnerabilidade que chegam com as relações interpessoais, sociais, ambientais, políticas e até mesmo religiosas. Atentemos que essa é uma antropologia que não apenas ilude, mas adoece o ser humano e suas relações, e ainda coloca os interesses privados, particulares, acima do bem comum. É esta mesma visão ilusória de pessoa que defende a meritocracia, que questiona o reconhecimento da universalidade dos direitos humanos e ambientais. 

Tudo isso enfraquece nossas relações. São crenças que muitas vezes carregamos sem nos darmos conta de como chegaram até nós. Em uma situação ética, podemos até nos sentir sem argumentos, sem a perseverança necessária para superar as dificuldades que surgem nas relações, na dinâmica da história, nas resistências particulares diante de metas comunitárias. 

O caminho é sempre a solidariedade, a escuta atenta, o exercício da humildade e da amorosidade. A espiritualidade libertadora vai nos apontar a criação de espaços de encontro, de reconhecimento das fragilidades, de verdadeiramente nos vulnerabilizarmos juntos, como ‘curadores feridos’, como dizia o mestre Bernhard Haring

Compartilhar significa ‘partir com’, repartir, dividir, simetricamente, horizontalmente, na mesma mesa, na mesma linha relacional, sem hierarquias, sem supremacias. Ah, esse é um processo longo com certeza, mas é também o único caminho para a comunhão fraternal e sororal, para comunhão cósmica com a Mãe Terra. Não há caminhos imediatistas, mas há uma certeza, e é nela que nos fundamentamos. A certeza de que somos companheiros e companheiras desde sempre. E, se assim viemos e encontramos nosso sentido de viver, ao ‘comermos do mesmo pão’, ao compartilharmos o que temos, o que somos, ao recebermos de cada pessoa sua humanidade, sua cultura, seu jeito de ser e viver, experimentamos verdadeiramente o companheirismo. 

Só essa experiência nos salva do individualismo que nos distanciou e nos ilude a cada instante. Por fim, convidamos a nos olharmos como Jesus nos olha. Ele vê potencialidades e carências, detecta forças e fraquezas, aposta na organização comunitária, na economia do Reino, na lógica da comunhão. A vulnerabilidade é abraçada por Jesus e ela mesma se converte no caminho da comunidade. 

Referências aqui mencionadas:

Maria Clara Bingemer. Alteridade e Vulnerabilidade. São Paulo: Loyola, 1993. 

Bernhard Haring, O Evangelho que nos cura. São Paulo: Paulinas, 1992

Comunidade Batismo do Senhor. Jesus, o Cristo dos Pobres. Iser Assessoria, Saberes e Arte e Portal das CEBs, 1 de junho de 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zbrjNmsKPow 

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