Clericalismo não é igual a autoritarismo, é pior.

            Em várias ocasiões o saudoso Papa Francisco fez duras críticas ao clericalismo. Empregou palavras duras para expressar o mal causado por essa estrutura de poder: câncer, perversão, praga, entre outras. Contudo, com mais de um ano de sua passagem, alguns já apontam para a relativação desta crítica. Porém, como já escrevi em outra coluna, 2024, “O clericalismo continua gordo, forte e corado”. Nesta coluna ofereci alguns pressupostos históricos e teológicos. Mas diante da relativização da crítica de Francisco se faz necessário retomar a reflexão.

            Os que relativizam falam de autoritarismo, isto é, de uma situação razoavelmente fácil de ser contornada, pois seria uma atitude pessoal e não estrutural. Uma pessoa autoritária pode ser confrontada por querer impor sua opinião, mesmo que tal pessoa queira se impor de forma agressiva . Mas se essa pessoa ocupa uma função “sagrada” como seria? Um padre, um diácono, um pastor, ou mesmo uma pessoa do laicato em determinada função ministerial, como ela seria contestada? Eis a questão.

            A questão de fundo passa pelo exercício do poder. Na sociedade sempre existirá uma forma de atuar de tal maneira que expresse algum tipo de poder. Uma mãe e um pai têm poder sobre um filho. Um professor sobre o aluno. Um chefe sobre o funcionário. Porém, como educar, ensinar ou realizar gestão de pessoas, mantendo a possibilidade de uma construção humana dos processos de decisão? No clericalismo a situação se agrava, pois como questionar alguém que fala em “nome de Deus”?

            É importante lembrar que ao se fazer este tipo de crítica não se está legitimando um discurso de oposição ao clero. O Papa Franciso era clérigo. Não se está querendo motivar uma oposição entre o laicato e o clero. Quem afirma isso não entendeu ou está querendo esconder a real situação que está por trás de tal realidade eclesiástica.

            Vamos ilustrar com um caso real. Em uma certa paróquia um novo presbítero assume a função de pároco. Convoca o Conselho Pastoral. Traz consigo o Código de Direito Canônico. Destitui a coordenação paroquial e quando alguém questiona, mostra o Código e diz: “a lei da igreja me autoriza a fazer isso”.

            Ora, na letra fria da lei, de fato, o Código dá ao pároco e ao bispo o poder de veto, mas de que forma e em que circunstância? Mesmo antes do sínodo sobre a sinodalidade que ainda está em processo, os bons canonistas afirmavam que a forma de decisão deve ser a busca do consenso. Que a melhor interpretação do Código passa pela eclesiologia do Concílio Vaticano II. Assim sendo, uma coordenação não pode ser destituída pelo capricho do pároco. Se uma coordenação não está agindo conforme os princípios do dialogo evangélico, então é preciso conversar e verificar a situação e, em conjunto, se for necessário, o Conselho escolhe uma nova coordenação.

            Agora, se o poder é exercido de forma autoritária, acrescido do universo simbólico sagrado, tipifica-se o CLERICALISMO. Por isso, ele é pior que o autoritarismo. O Papa São Paulo VI sintetizou o ministro ordenado como o ministério da unidade. Assim sendo, a espiritualidade do presbítero deve ser, mais do que todos os batizados, fincada no caminho do serviço. No Caminho apresentado por Jesus de Nazaré. É preciso ter, como diz São Paulo, “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5). Se alguém não consegue buscar, ainda que de maneira imperfeita, este caminho, não deve ser ordenado. Há uma concepção equivocada do sacramento da ordem quando se conclui que ao ministrar tal sacramento a pessoa estará, pelo próprio sacramento, revestida de santidade.

            E processo de formação dos futuros padres não tem ajudado, com exceções naturalmente, a diminuir o “câncer”, ou melhor, buscar a cura. Mais do que formação o que tem acontecido é formatação. Dom Mauro Morelli, de saudosa memória, dizia que havia um risco neste processo, o rapaz poderia deitar humildemente no chão da catedral (rito de ordenação) e levantar um príncipe. O profundo trabalho do Pe. Agenor Brighenti detectou incorrências na formação com uma pesquisa que foi publicada em dois volumes sobe o título: “O novo rosto do catolicismo brasileiro – clero, leigos, religiosas e o perfil dos padres novos”, Vozes, 2023.. Outros textos e artigos têm abordado a questão. O documento final do Sínodo levantou tal preocupação. Esperemos que o Papa Leão XIV aponte novos caminhos.  

            Assim sendo, vamos continuar fechando os olhos e tapando os ouvidos para uma situação que, mais do que irmãos e irmãs, busca constituir súditos? Pior, a manutenção de processos nos quais se impõe sob a lógica do silenciamento de quem ama a Igreja, mas sofre por não poder viver a sua fé de forma fraterna? Vamos continuar aumentando os índices dos “sem religião”, como tem acontecido sobretudo na Europa, pois inúmeras pessoas, mesmo mantendo a fé, não conseguem ficar na instituição? Que o conselho de Jesus Cristo, celebrado toda Quinta-feira Santa, no “Lava pés” possa ser ouvido: “ide e fazei a mesma coisa”.

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