Quem escreve a coluna ficou se perguntando se valia escrever algo sobre o que aconteceu no Rio de Janeiro em 28/10/2025, pois estamos vivendo uma situação tão caótica que, na linha de um humorista antigo: “Palavras são palavras, nada mais do que palavras”. Parece que a barbárie esta sendo cada vez mais legitimada. Entendo, como disse certa vez Mia Couto, que o medo é um motor forte para a manutenção de poderes, ele disse: “Há quem tenha medo que o medo acabe”. Mas entre entender e conviver com tal realidade é um grande desafio. É desanimador. A verdade é que estamos em um mundo adoecido mentalmente. Um mundo “tarja preta”. Mas como escrever, para o colunista, é um desabafo, vamos lá.
A coluna não sugere uma escolha entre compaixão e inteligência, pois a compaixão é um sentimento extremamente nobre. Quem se afirma cristão deveria, a exemplo do mestre Jesus de Nazaré, cultivar a compaixão. Jesus nos pediu para amar os inimigos. Porém, toda vez que acontece uma barbaridade como a de 28/10, mesmo cristãos afirmam que foi necessário, afinal são “vagabundos”. O governador do RJ se afirma cristão católico.
Mas a coluna brota da afirmação de uma pessoa muito próxima, que publicou na rede um post mostrando atrocidades de traficantes e dizendo: “é para quem ainda quer ter compaixão de traficante”.
Guardemos então a compaixão em um baú precioso, e vamos analisar friamente a situação. Quem escreve não é especialista em segurança publica, nunca subiu um morro para enfrentar um “monstro traficante”, como poderia então falar com alguma razão sobre tal assunto? Argumentos assim são repetidos toda hora. Mas se um médico mandar tomar soda caustica para curar uma diarreia, vamos tomar? Afinal, não somos médico.
“Esse pessoal dos direitos humanos atrapalha”. “Bandido não tem direito humano”. Assim sendo, a polícia pode decretar pena de morte no mesmo dia, e com requinte de crueldade, para que outros não venham a cometer crimes. Será preciso lembrar que tal prática nunca diminuiu a criminalidade? Será preciso lembrar que com este tipo de ação muitos inocentes são vitimados? Será preciso lembrar que no morro não existe fabrica de armas e nem plantação de cocaína? Quem lê esta coluna sabe o que é “arrego”? Se não sabe, procure saber.
Ora, nenhum país do mundo diminuiu criminalidade com ações que tipifiquem chacina. É fato. Como exemplo, procurem no seu buscador de internet preferido o caso da cidade de Medellin na Colômbia. A cidade que era uma das mais perigosas do mundo conseguiu se transformar com ações de inteligência.
No momento que acontece uma chacina, a sociedade “tarja preta” respira aliviada, pois agora são 30, 50, 150 vagabundos a menos. Amanhã vou poder ir para o trabalho tranquilo, pois eles não estarão na rua para roubar o meu celular. Só um detalhe, quase sempre quem roupa celular é um consumidor de droga e não soldado do trafico. Será preciso lembrar as chacinas anteriores que não arranharam os índices de criminalidade? A próxima então, para ter impacto no imaginário popular, deverá ser de 300.
A sociedade está, por conta da produção da criminalidade para fins de construir riqueza e capital eleitoral, recebendo soda caustica como remédio e não percebe. Como o metanol na cachaça. A linguagem psiquiátrica tem um nome difícil para isso: “dissonância cognitiva”, ou simplesmente um surto mental que não permite usar a inteligência de modo tranquilo.
Quantas chacinas ainda serão necessárias para revelar o que realmente está por trás delas? Por favor, por favor, não se trata de defender criminoso. A história demonstra que este tipo de ação só faz crescer o ciclo da vingança. Um antropólogo francês já falecido, René Girard, estudou este ciclo e observou que ele é alimentado por uma violência que mora dentro de nós mesmos, por isso, a sociedade escolhe um “bode expiatório” para justificar tal violência de forma oficial, pois não fica bem o cidadão comum sair por ai matando. Jesus foi um “bode expiatório”. Gaza é um “bode expiatório”. E por aí vai. Para Girard, só se produz paz quebrando este ciclo.
Assim sendo, leitor e leitora, vamos tentar não desanimar frente a tudo isso. Vamos tentar quebrar o ciclo da vingança, único caminho que produz verdadeira paz. Foi o que fez Jesus Cristo. Mas vejam, hoje boa parte do cristianismo está metido na lógica da vingança. Portanto, precisamos de todas as pessoas que acreditam no caminho da paz como de fato, Moisés, Jesus de Nazaré, Maomé, Buda, entre outros, deixaram-nos como herança. Ou vamos nos matar mutualmente, até que a última pessoa, com uma arma em punho, mate a si mesma.
Se compaixão é algo que não lhe cai bem, seja ao menos inteligente.
