A espiritualidade militante das Minorias Abraâmicas

Lá se vão mais de 50 anos que nosso querido dom Hélder animava o povo a caminhar na espiritualidade profunda e resistente, esta que faz da mística sua razão de existir e, por isso mesmo, envia à profecia cotidiana que fecunda uma humanidade nova. Dom Hélder chama esses grupos de minorias abraâmicas. Já no ano de 1971, dom Hélder escreve em suas circulares, um Apelo às Minorias Abraâmicas, publicado em 1973 pela Editora Desclée, e em 1976, pela Civilização Brasileira, como Roteiro para Minorias Abraâmicas, com o título O deserto é fértil.

No mesmo período, a Ruah também soprava no coração de frei Betto a urgência de uma Contribuição à Espiritualidade da Libertação. Em tempos em que o dualismo separa a fé e a vida, a oração e a ação, frei Betto se dedica a contribuir para o discernimento presente em muitas comunidades interpeladas pela necessidade da encarnação da fé na vida. E, pela mesma editora, Civilização Brasileira, ele publica em 1977, Oração na ação. 

Hoje, a urgência destes temas retorna, com o crescimento de fundamentalismos que voltam a separar a fé e a vida, ou a falta de visibilidade de grupos que resistem na militância que integra a espiritualidade e compromisso social e político. Ouvimos questionamentos que dividem e angustiam os corações que esperançam no cotidiano, como ‘De que adianta a oração?’, ‘As forças do mal parecem sempre vencedoras?’, ‘Somos poucos para tanta luta’, ‘O sistema segue engolindo as estratégias de justiça e paz’. 

Vale à pena observarmos que estas questões são muito verdadeiras, mas também trazem, em suas entrelinhas, a impotência, a ausência de utopias, o fortalecimento do medo e da paralisia cidadã, que alimentam a permanência do sistema de exclusão de toda humanização e espiritualidade histórica e cósmica. Ou seja, elas não chegam casualmente, pois são construídas através das mídias digitais e discursos de desesperança em todos os ambientes, fomentando uma cultura individualista, um tipo de fé desgarrada da vida e de ceticismo político. 

Onde reina o medo, não há liberdade. Onde reina a desesperança, não há sonho possível. Onde reina a opressão, não se visibiliza o caminho da libertação. Por isso mesmo, ousamos retomar as reflexões de dom Hélder e de frei Betto, profetas que resgatam em nossos corações e em nossas comunidades, a necessidade do alimento que integra a fé e a vida, a mística e a militância. 

Nas palavras de dom Hélder, “o mundo não mudará pela ação isolada de líderes esclarecidos e sim pelo empenho comunitário de grupos de resistência e de profecia que se consagrem a transformar o mundo a partir de uma profunda convicção de fé no ser humano e na vida”. Ele identifica esses pequenos grupos de resistência e fecundidade profética como minorias abraâmicas. Convido a você, neste instante, a trazer à sua mente pequenos grupos que assim vivem, pode ser na sua comunidade, na sua cidade, no nosso país, no mundo mesmo. Sim, eles estão entre nós, desde grupos que nascem dentro das tradições religiosas, como grupos que nascem da indignação cidadã, política, ambiental.  

Dom Hélder os chama de minorias abraâmicas inspirado na atitude profética de Abraão: ele é chamado, não vacila, parte, caminha, enfrenta provações, desperta irmãs e irmãos, encoraja, se põe em marcha. No Novo Testamento, a Carta aos Hebreus diz que “pela fé, Abraão partiu, sem saber para onde ia. Pela fé, embora sua esposa Sara fosse estéril e ele mesmo já tivesse passado da idade, Deus tornou Abraão capaz de ter descendência, isso porque ele considerou fidedigno o Autor da Promessa” (Hb 11, 8 e 11). 

Nosso querido pastor chama Abraão de ‘animador das caminhadas’. São grupos que experimentam em seu íntimo a fome de verdade, de justiça, de amor, e que são convocados internamente a caminhar nesta direção. São ouvintes do ‘Espírito que sopra onde quer’, ouvem sua voz, fazem seu discernimento, se juntam com companheiras, com companheiros, e buscam conhecimento, construção de estratégias, mística de comunhão para cada momento da caminhada. São pessoas que percebem que não estão sozinhas, que olham em volta e encontram a parceria que os retira do sentimento de solidão. 

Um dos critérios que dom Hélder explicita em seu trabalho é a necessidade do espírito lúcido. Sim, não dá para caminhar a esmo. É preciso parar, estudar o caminho, respirar na imaginação criadora do Espírito, firmar pessoal e comunitariamente a decisão interior de responder com a vida ao chamado do Amor. É preciso agir e refletir, refletir e agir, pois uma dimensão envia à outra. Só a ação, sem a oração, pode conduzir ao desânimo ou mesmo à arrogância. Só a oração, sem a ação, pode levar a uma fé ingênua e desgarrada da realidade.

Caminhemos também, mediados pela reflexão de frei Betto. Ele nos convida a pensar o que significa a oração para cada um de nós. É fácil? Temos respostas? O que nos inquieta afinal? Frei Betto nos conduz a nos darmos conta das muitas dimensões presentes na oração: a vida, o corpo, as pessoas, os desejos, as frustrações, a razão, a emoção, as limitações. É interessante este alerta, pois tantas vezes nos pegamos racionalizando na oração, buscando perguntas e respostas a partir de nossa bagagem cultural ou intelectual. 

Nesse desafio, frei Betto nos pede para a retomarmos a atitude de contemplação. Com+templar: entrar em comunhão profunda com o templo. Qual templo? O templo que é cada pessoa, o templo que é cada tempo, cada desafio, o templo que é o ambiente, o templo que é a ação política, o templo que é a comunidade afetiva e familiar. É um caminho importante para a superação do dualismo fé e vida, pois a com+templação nos envia à vida, às ações, aos diálogos verdadeiros, com seus dilemas e possibilidades criativas. 

E ele ainda nos interpela a encontrarmos a oração na ação. Não há duas formas de viver, mas apenas uma única, que integra essas duas dimensões, pois na ação entramos em estado orante, contemplativo, sensível, atento, desapegado de certezas e firmes na comunhão. E na oração, não estamos sozinhos, perdidos, desgarrados, mas unidos ao Amor que tudo comunga e conduz. 

Para não nos alongarmos mais, deixamos o convite para buscarem estes dois livros-fontais para a caminhada pessoal e comunitária e trilharmos em seus pequenos e profundos roteiros: 

Partir, caminhar, significa mover-se e ajudar muitos outros a moverem-se no sentido de tudo fazer 
por um mundo mais justo e mais humano. 
É muito mais do que um espírito, do que uma organização, 
muito mais uma mística do que uma rígida articulação”.

Dom Hélder

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