Ouvimos muitas vezes que a fé cristã está em crise, que as pessoas estão perdendo a fé e que a religião já não é a mesma de antes. Mas quais os critérios para determinar se há mesmo essa crise? Bom… Geralmente se olha a quantidade de fiéis nas celebrações ou a adesão a doutrinas e costumes. Nesse sentido, vemos o cristianismo, na Europa, enfraquecendo e, na América Latina, se fortalecendo. No geral, no Brasil, os templos estão cheios, vemos shows religiosos com milhares de fiéis. Os eventos religiosos juntam muita gente e, inclusive, arrecadam muito dinheiro. Nem sequer as tradições estão se perdendo, pois os grupos religiosos mais presentes na Igreja são cada vez mais aqueles que querem preservar ou restaurar costumes antigos, muito mais do que aqueles que buscam uma renovação da Igreja. Então, onde estaria a crise de fé?
Ela é bem mais profunda e antiga do que se pode imaginar. Não é exclusiva de nosso tempo, pois esteve presente desde o início da Igreja. Mas a cada período ganha novas formas e expressões. A crise de fé fundamental consiste no doloroso fato de não vivermos o Evangelho de Jesus, de não amarmos como ele amou, não vivermos como ele viveu. Olhando para nossas paróquias, poderíamos fazer uma pergunta fundamental: Em que medida o jeito de Jesus determina o nosso modo de vida? Determina nosso modo de fazer pastoral? Se formos sinceros, perceberemos que bem pouco. Fazemos eventos, juntamos multidões, nos emocionamos, louvamos a Deus, mas… Nossa forma de organizar a vida e mesmo as pastorais tem pouco do jeito de Jesus. Como afirmou o grande escritor russo Liev Tolstói: “Pela vida de um homem, por suas ocupações, hoje, como antigamente, é impossível saber se ele é crente ou não”. Isso é, no mínimo, trágico. Parece que a fé não melhora as pessoas. Em certos casos, lamentavelmente, as piora. As tornam arrogantes e com ar de superioridade. Aqui está a crise de fé. Vemos pessoas de tanta piedade e religiosidade sendo arrogantes, preconceituosas, grosseiras, indiferentes ou mesmo coniventes com a injustiça.
Vemos comunidades de fé preocupadas simplesmente em cumprir agendas de compromissos: Missas, celebrações, círculos bíblicos, novenas, adorações, festas de padroeiro, formações etc. Em que medida essas atividades geram mesmo comunidade? Não no sentido geográfico, não simplesmente um grupo de pessoas que moram num território (rua, bairro, área rural), mas que realmente tem laços de fraternidade e solidariedade? Em que medida as atividades religiosas nos ajudam a amar mais como Jesus amou? A construir um mundo mais irmão, mais justo, cheio de paz, onde as pessoas vencem os preconceitos e tem seus direitos garantidos? Os bispos latino-americanos reunidos na Conferência de Puebla constataram que “as situações de injustiça e de pobreza extrema são um sinal acusador de que a fé não teve a força necessária para penetrar os critérios e as decisões dos setores responsáveis da liderança ideológica e da organização da convivência social e econômica de nossos povos. Em povos de arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça” (DP 437).
Muitos dizem que somos um continente cristão porque, numericamente, a maioria das pessoas se identificam assim. Mas será mesmo cristão um continente com estruturas sociais tão avessas ao jeito de Jesus? O último censo do IBGE quanto a religião mostrou que a quantidade de pessoas que se dizem cristãs no Brasil (católicos e evangélicos) soma mais de oitenta por cento da população. Como uma quantidade tão alta de pessoas se diz seguidora de Jesus e vivemos num país tão injusto e desigual? Sinal de que vivemos uma verdadeira crise de fé, pois nossa religiosidade é só formalidade, é mera aparência. Não conseguimos ser sal da terra e luz do mundo (Cf. Mt 5,13-16), não conseguimos dar a essa sociedade o sabor do Evangelho.
Jesus nos ensinou: “Nisto, todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Antes de tudo, é o amor nossa identidade como seguidores e seguidoras de Jesus. Não basta fazer horas de louvor, adoração ou mesmo formações teológicas belas e precisas. “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7,21). O autor da Carta de João já lembrava: “Aquele que diz que permanece nele deve caminhar como ele caminhou” (1Jo 2,6). E o autor da Carta de Tiago escreve: “Mostra-me, então, tua fé sem obras, que eu, por minhas obras, te mostrarei minha fé” (Tg 2,18). A fé se mostra, antes de tudo, pelas obras, não pelo discurso. Afinal, “em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão significam algo, mas sim a fé efetivada no amor” (Gl 5,6).
Parece que ainda não sabemos o que é crer. A fé se expressa também em doutrinas e formulações teológicas, mas antes de tudo ela é vivência do amor de Jesus. E toda teologia só tem sentido se nos ajudar a ser parecidos com Jesus. Não basta saber verdades sobre Jesus, saber quem ele era ou qual sua missão. Nos Evangelhos, até os espíritos maus sabiam disso: “o que há entre nós e ti, Jesus nazareno? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus” (Mc 1,24; Cf. Lc 4,34); “que há entre nós e ti, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” (Mt 8,29). A fé verdadeira consiste em assumir o que ele ensinou e viveu. Por isso, o Papa Francisco, ao escrever que a Igreja precisa crescer em sua missão de anunciar o Evangelho, lembra que “não seria correto que este apelo ao crescimento fosse interpretado, exclusiva ou prioritariamente, como formação doutrinal. Trata-se de ‘cumprir’ aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos” (EG 161).
A fé cristã está em crise. Não porque os fiéis estejam diminuindo ou porque os costumes estão mudando. Mas porque vivemos uma terrível contradição entre o Evangelho que dizemos servir e o concreto de nossa vida. Os eventos são importantes, bem como as diversas atividades religiosas. Mas tudo isso só tem sentido se nos levar a pensar como Jesus, a sentir como ele, a acolher os excluídos e discriminados como ele fazia, a buscar um mundo mais justo como Deus quer. Já temos testemunhos bonitos em nossas comunidades de fé. Exemplos de cuidado com os abandonados, idosos, doentes, esquecidos. Temos comunidades de fé que são espaços de consolação, apoio e compromisso com a vida. Mas ainda há muito a se fazer. Busquemos, pois, organizar sempre mais nossas vidas, nossas pastorais para que, como comunidade de fé, sejamos cada vez mais configurados a Jesus, assumamos cada vez mais seu jeito de ser. Assim, como Paulo, podermos dizer: “Já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
