Nada mais espiritual que amar

“Espiritualidade”, “espiritual” são expressões que, embora não sejam exclusivas do mundo religioso, estão profundamente ligadas a ele. Na comunidade de fé, em contextos diferentes, é comum ouvir expressões como “falta de espiritualidade”, “vida espiritual”, “manhã de espiritualidade”, “atitude espiritual”. Muitas vezes, usa-se tais frases sem nem entendê-las ou mesmo distorcendo seu significado. Isso é extremamente prejudicial para a vida cristã, pois a espiritualidade é seu coração.

Por forte influência do pensamento grego na formação do Ocidente, nossa forma de pensar assumiu alguns aspectos de sua mentalidade, mesmo que nem sequer tenhamos ouvido falar em algum pensador da Grécia. Exemplo disso é uma certa visão dualista de mundo, isto é, uma compreensão da realidade que a divide em duas partes diferentes e praticamente opostas: material e espiritual. Sendo que o espiritual é visto como algo bom e o material algo ruim. Sócrates, grande filósofo grego, mestre de Platão, defendia que filosofar é um caminhar para a morte. O corpo, a matéria é uma prisão e o verdadeiro filósofo visa se libertar dela por meio do conhecimento das verdades mais elevadas. Desse modo, quanto mais distante da matéria, das realidades comuns do dia a dia, mais elevada a pessoa é. Ideias desse tipo se desenvolveram e, no início da era cristã, estiveram na origem do pensamento gnóstico. Este insistia que a matéria era má; por sua vez, espiritual seria aquilo que levava a um distanciamento do mundo. A Igreja, muito cedo, considerou uma heresia esse jeito de pensar, isto é, uma afirmação falsa que atenta contra a fé. 

Contudo, apesar de, oficialmente, a Igreja sempre ter criticado essa mentalidade, surgiram pregações que levaram a reproduzir de outras formas esse pensamento. De modo que espiritual foi entendido como algo separado do cotidiano da vida, que tinha a ver com um Céu em “outro plano”, longe desse mundo. Assim, espiritualidade acabou sendo vista como uma fuga do mundo. Por isso, também os padres, monges, freiras foram considerados pessoas mais espirituais que as outras, pois conseguiam se afastar das ocupações normais do dia a dia para rezar mais e estar “mais perto” de Deus. Inclusive, nessa visão distorcida, espiritualidade foi quase que identificada com oração. Mas nada mais contrário ao Evangelho de Jesus do que essa mentalidade. 

A espiritualidade cristã tem a ver com o Espírito Santo que agiu em Jesus e age em nós. Jesus “era conduzido pelo Espírito através do deserto” (Lc 4,1); “com o poder do Espírito, Jesus voltou a Galileia” (Lc 4,14). Ele mesmo disse que “o Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu. Ele me enviou para anunciar o evangelho aos pobres” (Lc 4,18). Jesus prometeu a seus discípulos que o Espírito Santo “vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26), isso porque “não falará por si mesmo, mas falará quanto ouviu e vos anunciará as coisas que estão por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vos anunciará” (Jo 15,13.14). Espiritualidade, portanto, não é fuga do mundo, mas viver no mundo segundo o jeito de Jesus, é se deixar guiar pelo Espírito como Jesus o fez. A espiritualidade “é uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o Evangelho. Uma maneira precisa de viver ‘diante do Senhor’ em solidariedade com todos os seres humanos, ‘com o Senhor’ e diante deles” (G. Gutiérrez). Assim, espiritual não é o oposto de material, não é se afastar do comum da vida, mas mergulhar nele e viver segundo a vontade de Deus como fez Jesus. Como lembrou o querido Papa Francisco, a “espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia” (LS 216). 

Espiritualidade, portanto, são se confunde com alguns momentos de oração, por mais importantes que sejam. Nesse sentido, já nos lembrava o grande bispo profeta Dom Pedro Casaldáliga: “A espiritualidade é mais do que oração somente. De nossa oração, porém, dependerá fundamentalmente nossa espiritualidade: Para que Deus oramos? A serviço de que causa oramos? Como costumamos orar? Quanta oração fazemos?”. A espiritualidade, portanto, é viver segundo o Espírito de Jesus. Por isso, não são os padres e as freiras que são, necessariamente, mais espirituais; só se estes, realmente, se assemelharem mais a Jesus que os outros por viverem o seu amor. Quanto mais acolhemos os irmãos e as irmãs, quanto mais somos capazes de perdoar, de cuidar dos outros, de vencer nossos preconceitos, de lutar pela justiça e pela paz, quanto mais formos capazes de acolher os excluídos como fez Jesus, mais espirituais seremos. 

A nossa oração mesma pode ser espiritual ou carnal, para usar uma linguagem do apóstolo Paulo (Cf. Gl 5,13-26; Rm 8,1-13). “Carne”, na Escritura, tem o sentido de fragilidade humana, diz respeito a negação da vontade de Deus em nossa vida. Mas como a oração pode ser carnal? Um bom exemplo é a oração do fariseu que se achava superior ao publicado (Cf. Lc 18,11-12). Outro exemplo é o caso do apóstolo que queria rezar para fogo cair do céu sobre seus irmãos samaritanos que rejeitaram Jesus (Cf. Lc 9,54-56). A oração só é espiritual quando nos leva a amar a Deus e os irmãos. 

Assim, não existe “manhã de espiritualidade” como se a espiritualidade fosse só um momento. É manhã de oração, retiro ou algo assim. Espiritualidade deve ser nosso viver segundo o Espírito de Jesus, portanto, deve tocar todos os momentos de nossa vida. Nosso jeito de trabalhar, de falar, de se relacionar, de estudar, de agir deve ser espiritual, cheio do Espírito Santo. Comprometer-se com um mundo mais justo e fraterno é espiritualidade. Fugir da realidade com a desculpa que busca servir a Deus não é espiritualidade, mas sim espiritualismo; não é ser religioso, mas assumir uma falsa piedade. Esse mundo é bom, é obra de Deus, tanto que Ele mesmo se fez carne e veio habitar entre nós (Cf. Jo 1,14). Ser fiel a esse mistério da encarnação é levar a sério esse mundo, suas qualidades e seus desafios. 

Se Deus é amor (Cf. 1 Jo 4,8.16) e não há nada mais espiritual que o próprio Deus, não há nada mais espiritual que o amor. Espiritualidade é, pois, assumir que Deus se fez gente, se fez um de nós para levarmos a sério o que é ser humano, isto é, viver segundo o seu amor. Assumamos, portanto, com seriedade, nossa espiritualidade cristã, viver como Jesus viveu, deixando que o Espírito aja em nós como agiu nele, levando a Boa Nova da justiça e da libertação a todos os lugares, configurando esse mundo cada vez mais à vontade do Pai.

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