O Ser Humano como Ser de Práxis (2)

(Continua o tema do artigo-coluna anterior – parte 2) 

Existem atividades que são do Ser humano enquanto ser vivente, integrante do planeta Terra (comuns a todos os viventes). Por exemplo, o nascimento e o crescimento do Ser humano. 

A própria Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum, é um grande ser vivo, um superorganismo vivo ou uma consciência viva inata (não reflexa).

Existem outras atividades que são do Ser humano enquanto ser vivente de vida animal (comuns a todos os animais). Por exemplo, num nível físico, as atividades de um órgão humano; num nível psíquico, as atividades do Ser humano (ou do animal) de tipo sensorial, instintivo etc. O Ser humano também é sujeito de atividades vitais biológicas ou instintivas que não transcendem seu nível meramente vital e/ou animal. 

Existem, enfim, atividades que são do Ser humano enquanto tal, ou seja, enquanto ser vivente de vida animal racional, ser pensante (atividades propriamente humanas).

Como, porém, o Ser humano não é racionalidade pura, ele só pode ser racional, porque é vivente, porque é animal. No Ser humano, a racionalidade integra a biopsiquicidade (racionalidade biopsíquica) e a biopsiquicidade só é “humana” quando integra a racionalidade (biopsiquicidade racional). 

A atividade propriamente ou especificamente humana distingue-se de qualquer outra que se situa no nível meramente vital e/ou animal. 

“Essa atividade implica na intervenção da consciência, graças à qual o resultado existe duas vezes e em tempos diferentes: como resultado ideal e como produto real. O resultado ideal, que se pretende obter, existe primeiro idealmente, como mero produto da consciência, e os diversos atos do processo se articulam ou estruturam de acordo com o resultado que se dá primeiro no tempo, isto é, o resultado ideal. Em virtude dessa antecipação do resultado que se deseja obter, a atividade propriamente humana tem um caráter consciente. Sua característica é a de que por muito que o resultado real diste do ideal, trata-se, em todo caso, de adequar intencionalmente o primeiro ao segundo”.

Isso “não significa que o resultado obtido tenha de ser forçosamente uma simples duplicação real de um modelo ideal preexistente. Não, a adequação não tem por que ser perfeita. Pode assemelhar-se pouco, e até mesmo nada, com a finalidade original, já que esta sofre modificações, às vezes radicais, no processo de sua realização”.

Pois bem, “para que se possa falar em atividade humana basta que nela se formule um resultado ideal, ou fim a atingir, como ponto de partida, e uma intenção de adequação, independentemente de como se plasma, em definitivo, o modelo ideal original” (VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 187-188). 

Toda atividade propriamente humana, portanto, se desenvolve de acordo com certas finalidades, e essas finalidades só existem como produtos da consciência do Ser humano. Elas prefiguram o resultado da atividade humana real (concreta), que já não é mera atividade da consciência. O Ser humano se encontra numa relação de interioridade com suas diferentes atividades e com seus produtos (não numa relação de exterioridade como acontece com um agente físico ou animal). A consciência do Ser humano estabelece as finalidades (os objetivos) como leis de suas atividades, às quais se subordinam os produtos, que, de certa maneira, são por elas governados. Essa subordinação e esse governo, todavia, nunca pode ser absoluto, porque se encontra limitado pelos objetos das atividades e pelos meios utilizados para a materialização e concretização das finalidades. 

Por exemplo, no trabalho, como atividade especificamente humana, “ao final do processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto (a finalidade) que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade” (MARX, K. O Capital. Livro I, Vol. I, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 19805, p. 202). 

Na atividade propriamente humana, a consciência é a consciência do fim, que determina a consciência dos meios adequados à sua realização. O fim (ou causa final) é primeiro na ordem da concepção e último na ordem da execução ou da realização. 

Por ser consciente, a atividade humana é uma atividade projetual e processual; ela é projeto (prospectiva mental) e processo (execução progressiva). “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele projeta na mente sua construção antes de transformá-la em realidade” (Ib.).

A Práxis – por ser “o modo de ser-no-mundo conscientemente” (“o modo de ser-no-mundo se relacionando”) do Ser humano – é Práxis histórica e meta-histórica. A Práxis histórica é “o modo de ser-no-mundo historicamente” do Ser humano. A Práxis meta-histórica é “o modo de ser-no-mundo meta-historicamente” do Ser humano. 

(No próximo artigo-coluna, continua o mesmo tema: parte 3)  

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

https://freimarcos.blogspot.com

Goiânia, 26 de janeiro de 2026

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