Dimensão social e profética da eucaristia

            Na celebração da eucaristia invocamos o Espírito Santo sobre as oferendas “a fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo” e sobre toda a Igreja para que, “participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos […] num só corpo”. É a grande súplica da Igreja: “Fazei de nós um só corpo e um só espírito”! E é o grande milagre eucarístico: Transformar-nos no corpo de Cristo no mundo. O Concílio Vaticano II nos recorda com São Leão Magno que “a participação do corpo e sangue de Cristo não faz outra coisa senão transformar-nos naquilo que tomamos” (LG 26).

            Essa transformação eucarística da Igreja no corpo de Cristo tem uma dupla dimensão: “nos une a Cristo e aos irmãos”. A eucaristia nos une de tal modo a Jesus Cristo que nos faz “participar” de sua vida e nos “transforma” em seu corpo, através do qual Ele continua vivo o operante na história e, na força do Espírito, leva adiante a salvação do mundo. Pela eucaristia, a Igreja é associada à missão de Jesus de anunciar a Boa Notícia do reinado de Deus. Essa missão vai se concretizando na vida fraterna e no cuidado da casa comum e tem nos caídos à beira do caminho (Lc 10, 25-37) ou nas necessidades da humanidade sofredora sua medida e seu critério escatológicos (Cf. Mt 25, 31-46).

Daí o vínculo essencial e indissolúvel entre a comunhão com o Senhor (ceia eucarística) e a participação em sua missão salvífica no mundo (vida fraterna, cuidado da casa comum, compromisso com os pobres e marginalizados), como tantas vezes cantamos em nossas celebrações: “o pão da vida, a comunhão, nos une a Cristo e aos irmãos”; “só comunga nesta ceia quem comunga na vida do irmão”… E nisso reside a dimensão social e profética da ceia do Senhor: Ela não nos aliena do mundo nem nos torna cúmplices das injustiças sociais, mas, pelo contrário, faz-nos participar da missão de Jesus Cristo, comprometendo-nos com os pobres e marginalizados desse mundo.

            Em uma de suas homilias mais proféticas, São João Crisóstomo insiste no vínculo essencial entre a participação na ceia do Senhor e o cuidado dos pobres. Não se pode separar o corpo de Cristo que está no altar do corpo de Cristo que está no pobre:

Não penseis que basta para a nossa salvação trazer à Igreja um cálice de ouro e pedraria depois de ter despojado viúvas e órfãos […] Se queres honrar deveras o corpo de Cristo, não consintais que esteja nu. Não o honreis aqui com vestes de seda, enquanto fora o deixais padecer de frio e nudez. Porque o mesmo que diz ‘este é o meu corpo’, é quem disse ‘me vistes faminto e não me destes de comer’ […] Aprendamos, pois, a pensar com discernimento e a honrar a Cristo como Ele quer ser honrado […] O que aproveita ao Senhor que sua mesa esteja cheia de ouro, se ele se consome de fome? E de que serve se cobres seu altar de panos recamados de ouro, se a Ele não buscas sequer o abrigo indispensável?

            Há um vínculo essencial entre a ceia do Senhor e o lava-pés. Na feliz expressão de Van Waelderen, um irmão de tradição reformada: “não há eucaristia sem lava-pés”. Não por acaso, ao rezarmos pela Igreja na eucaristia, suplicamos: “Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos de nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que a exemplo de Cristo nos empenhemos lealmente no serviço a eles…”. É que a presença real de Cristo na eucaristia é inseparável da presença real de Cristo no pobre.

             A súplica que fazemos na celebração da eucaristia para sermos transformados no corpo de Cristo deve se tornar realidade em nossa vida. E, se realmente somos o corpo de Cristo, recordava Francisco, “seremos seus olhos que vão em busca de Zaqueu e da Madalena; seremos sua mão que socorre os enfermos no corpo e no espírito; seremos seu coração que ama os necessitados de reconciliação, de misericórdia e de compreensão”. Nisso se manifesta o milagre, a eficácia e o poder transformador da eucaristia em nossas vidas: em transformar-nos naquilo que comungamos – o corpo de Cristo. Nisso se manifesta a dimensão social e profética da eucaristia: em comprometer-nos radicalmente com a fraternidade e a justiça socioambiental a partir dos pobres e marginalizados, com os quais Jesus Cristo mesmo se identificou.

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