O sábado foi feito para a pessoa

O querido frei Carlos Mesters já escreveu que “a Bíblia, ou ajuda ou atrapalha; ou liberta ou oprime. Não é neutra” (Flor sem defesa, p. 88). A Escritura pode ser a base para uma caminhada libertadora que nos torne pessoas melhores e comprometidas com uma sociedade mais justa e fraterna, ou pode ser utilizada para justificar e manter injustiças e privilégios. É bom recordar que o Diabo não tentou Jesus citando Platão, Aristóteles ou algum pensador pagão; o Diabo citou a Escritura (Cf. Mt 4,1-11; Sl 91,11-12). Até a Palavra de Deus pode ser usada para justificar interesses contrários aos do Senhor.

Isso que sempre aconteceu ganhou um capítulo peculiar aqui no Brasil a partir dos debates sobre a redução da escala 6×1 de trabalho, ou seja, quando se trabalha seis dias e se folga um. Algumas figuras religiosas de extrema direita, católicas e evangélicas, defendem a manutenção da escala 6×1 citando a passagem bíblica da criação do mundo, pois se Deus descansou apenas um dia (Cf. Gn 2,2-23), por que nós iríamos exigir descansar mais? Além disso, a própria lei de Israel prescrevia, a partir da ideia do descanso divino, apenas um dia de repouso semanal (Cf. Ex 20,8-11). Mas será que este é o caminho para a interpretação dos textos?

Antes de qualquer coisa, alguns aspectos precisam ser considerados. Primeiro, existem dois textos principais que justificam o descanso no dia de sábado. Um é do Êxodo e, como dito acima, parte do descanso divino para fundamentar o descanso sabático: “Porque em seis dias Javé fez o céu, a terra, o mar e tudo o que existe neles; e no sétimo dia ele descansou” (Ex 20,11). O outro não menciona o descanso divino, justifica o repouso sabático a partir da ideia de libertação: “Lembre-se: você foi escravo na terra do Egito, e Javé, seu Deus o tirou de lá com mão forte e braço estendido. É por isso que Javé, seu Deus ordenou que você guardasse o dia de sábado” (Dt 5,15). O Deuteronômio afirma que Deus libertou o povo da escravidão do Egito para que as pessoas fossem livres; por isso, também não poderiam viver como escravizados, nem sequer pelo trabalho. O sábado existe por causa da libertação da opressão, para que o povo tenha sua dignidade respeitada.

Outro aspecto importante é que vale para o texto bíblico um princípio aplicado a qualquer texto: a análise do contexto. Só se entende bem uma mensagem estudando as situações, mentalidades, conflitos, aspectos culturais do momento e lugar em que ela surgiu. Numa época sem a compreensão moderna dos direitos humanos, principalmente direitos trabalhistas, haver uma lei que garantia ao menos um dia de descanso até para escravizados, estrangeiros e animais (Cf. Dt 5,14) era algo muito avançado. O que não significa repetir sem mais esse princípio hoje, quando crescemos muito na compreensão da dignidade humana e da função do trabalho. Contudo, distorções quanto à lei do sábado já aconteceram antes.

O próprio Jesus se confrontou muitas vezes com elas. Tanto que chegou a dizer que “o sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado” (Mc 2,27). Ou seja, a lei existe para garantir o bem, o crescimento e a dignidade da pessoa; e não a pessoa que existe para cumprir leis. A norma do sábado surgiu para garantir o descanso ao povo, expressão de um povo livre e libertado da opressão. Mas o fundamentalismo religioso corrompeu essa regra, de modo que não se podia nem fazer um bem nesse dia, porque seria considerado trabalho (Cf. Mc 3,4); até a quantidade de passos era determinada. Jesus rompeu com isso, recordando qual o verdadeiro sentido da lei. Hoje, ele continua fazendo isso, pois apareceu uma nova versão do fundamentalismo do sábado: a exigência de que o descaso seja, literalmente, de apenas um dia. É curioso que só se é fundamentalista em alguns aspectos! Logicamente, aqueles aspectos que agradam à elite que se beneficia deles. Se for para ser fundamentalista quanto ao descanso apenas no sábado, então não basta manter a escala 6×1 como está. Primeiro, é preciso estendê-la a todos os grupos, inclusive os que não estão submetidos à CLT, como deputados e senadores, pelo menos aos que se dizem cristãos. Segundo, é preciso mudar o dia de descanso do domingo para o sábado; afinal, a lei de Israel é muito específica quanto ao dia exato do descanso: SÁBADO.

Podem parecer ridículas essas propostas, mas o objetivo é mostrar como é sem sentido e desonesta a justificação da escala 6×1 a partir da Bíblia. Fará muito bem a nós meditarmos aquele belo cântico das comunidades eclesiais de base, composto por Irene Gomes: “Palavra não foi feita para dominar, / destino da palavra é dialogar; / palavra não foi feita para opressão, / destino da palavra é a união”. A Escritura visa pautarmos nossa vida na vontade do Senhor que veio para que todos tenhamos vida e vida em abundância (Cf. Jo 10,10). A escala 6×1 é pura expressão de um sistema capitalista que precisa explorar grande parcela do povo para que um pequeno grupo mantenha seus privilégios. É hipócrita que alguns de nós, padres e pastores, defendamos essa escala, pois a maioria de nós vive a partir das doações dos fiéis. A “escala de trabalho religioso” é construída por nós mesmos, incluindo muitas vezes até os salários e folgas. Sendo assim, é fácil defender uma estrutura trabalhista que não nos prejudica. Difícil é estar na pele dos fiéis que passam seis dias se virando para cuidar da casa, das crianças e ainda trabalhar, alguns até estudando à noite, para ter apenas um dia de descanso, lazer ou para colocar outras tarefas pessoais em dia, inclusive o serviço pastoral em nossas paróquias.

A escala 6×1 é só mais uma expressão do sistema capitalista neoliberal que sacrifica vidas para manter os lucros e privilégios de poucos. Por isso, é blasfêmia, é pecado grave usar a Palavra de Deus para justificar artimanhas dessa estrutura social e econômica. Vale a pena recordar aqui algumas denúncias importantes feitas pelo querido Papa Francisco sobre nosso sistema econômico. Deveriam ser nossas essas palavras de Francisco, porque são Evangelho puro: “o sistema social e econômico é injusto na sua raiz” (EG 59); por isso “a desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG 202). E, falando aos movimentos populares na Bolívia em 2015, expressou que “este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos… E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”; nele se vive uma “ditadura sutil”. Afinal, “esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. Por isso disse sem meias-palavras: “Este sistema atenta contra o projeto de Jesus, contra a Boa Nova que Jesus trouxe”. E, em outro encontro com os movimentos sociais, no ano seguinte, em Roma, disse que “este sistema é terrorista”, chamando-o também de “sistema iníquo”

A economia não vai quebrar com o fim da escola 6×1, assim como não quebrou com a implantação do décimo terceiro, das férias remuneradas, do seguro-desemprego, com o surgimento da aposentadoria ou mesmo com a abolição da escravidão. Mas os discursos absurdos, os fundamentalismos religiosos e as manobras malignas continuam. Pois, ao mesmo tempo que vimos a PEC pelo fim da escala 6×1 ser aprovada na Câmara, mesmo que numa versão muito tímida, vemos o Senado, antes mesmo de votar essa PEC, trazer outra proposta flexibilizando os horários trabalhados e a respectiva remuneração. É a ideia de “diálogo” entre patrão e empregado, como se essa negociação fosse realmente de igual para igual. Sem uma lei que obrigue o direito a ser cumprido, o trabalhador sempre será refém do patrão.

Nós temos uma elite mesquinha e perversa que considera absurda a jornada aprovada na Câmara: redução para 5×2, com gradual diminuição de 44 horas de trabalho semanal para 42 pelo período de pouco mais de um ano e, depois, para 40 horas. Isso a ponto de pedir uma espécie de indenização para os patrões como compensação pelas possíveis perdas de lucros nesse processo. E muitos membros dessa elite se dizem cristãos, seguidores de Jesus de Nazaré. Vejam só! É o velho farisaísmo distorcendo a lei do sábado a seu favor. Mas não podemos seguir por esse caminho. Fiéis ao Evangelho de Jesus, devemos sonhar e lutar por um trabalho menos desumano e explorador e com mais tempo de descanso, lazer, oração, amizade, humanidade. Lembramos sempre, como ensinou Jesus, que o sábado foi feito para servir às pessoas e não as pessoas foram criadas para servir ao sábado (Cf. Mc 2,27).

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