O desencontro da piedade burguesa

Por Marcelos Barros

Meditação do monge Marcelo Barros sobre o Evangelho do “Jovem Rico” refletido em todas as igrejas católicas no domingo 14 out 2018: O evangelho sublinha que Jesus retoma o seu caminho. É o caminho de Jerusalém, o caminho da cruz. É nesse caminho, que alguém procura Jesus e o consulta “como fazer para alcançar a vida eterna”. É alguém que já não é pobre e quer saber o que deve fazer para entrar no Reino. Ele já tem a terra. Agora, quer o céu. Mas, quer para si. A pergunta não é no plural, não inclui a comunidade.

Leia a reflexão na íntegra!

Nesse domingo (14 de outubro de 2018), 28º do ano comum B, o evangelho proposto às Igrejas (Marcos 10, 17- 30) é o encontro de Jesus com a figura do personagem que Mateus chama de “jovem rico”, Lucas de “homem empreendedor”. Para Marcos é apenas alguém desconhecido. É uma história muito conhecida e durante os séculos, sempre incomodou intérpretes e comunidades que a escutaram.

O evangelho sublinha que Jesus retoma o seu caminho. É o caminho de Jerusalém, o caminho da cruz. No tempo em que os evangelhos foram escritos (anos 80 do primeiro século), o Cristianismo ainda tinha como nome caminho ou caminhada. Deveria sempre ser caminho da cruz (não da cruz no sentido apenas de morte e sim de entrega e consagração de vida).

É nesse caminho, que alguém procura Jesus e o consulta. A pergunta e a resposta de Jesus é um modelo através do qual as primeiras comunidades formam os discípulos. Nesse caso, a pergunta do homem que procura Jesus é sobre “como fazer para alcançar a vida eterna”. É um interesse para a pessoa dele. Quando os pobres se aproximam de Jesus pedem cura. Quando alguém que já não é pobre se aproxima, pergunta o que deve fazer para entrar no reino. Ele já tem a terra. Agora, quer o céu. Mas, quer para si. A pergunta não é no plural e nem é para a humanidade. É “o que farei?” Antes de tudo, chama Jesus de “bom mestre” e Jesus responde secamente: “Só Deus é bom”. E manda o homem observar os mandamentos. Não por acaso, só os mandamentos que se referem ao próximo “não falar mal de ninguém, não explorar o outro, honrar pai e mãe…”. Provavelmente, não é o tipo de religião que o homem esperava. Religião seria a relação com Deus. Mas, Jesus não cita a relação com Deus. Cita como Deus na vida da gente muda a forma de nos relacionar com os outros. Provavelmente, de forma meio apressada: O homem responde que já cumpre todos esses mandamentos desde a juventude. Em uma homilia sobre esse evangelho, no século IV, São Basílio, bispo de Cesareia, na Palestina, interpela o tal rapaz rico: Como você pode pensar que cumpre a lei de Deus vivendo como rico em meio a uma sociedade de miséria?

Até hoje, muitos cristãos pensam que sendo piedosos e vivendo as suas devoções com toda exatidão, são bons cristãos. O evangelho de Marcos é muito crítico a isso e quer ensinar aos discípulos o que Mateus tinha colocado na boca de Jesus durante o sermão da montanha: “Não é possível amar a Deus e as riquezas” (Mt 6, 24). Não é possível, ao menos como discípulo de Jesus. Marcos é o único que afirma: “Jesus o olha e o ama”. O verbo usado, no grego agapeo é o que expressa o amor divino. É por esse amor que Jesus toma a iniciativa de chamá-lo. Um chamado radical. “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo o que tens, reparte com os empobrecidos e depois, vem e me segue!” Aí o texto diz que o rapaz baixou a cabeça e se foi embora porque ele possuía muitos bens. Nos três evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, é o único caso de fracasso de Jesus. O único caso no qual ele diz Segue-me e a pessoa não aceita e se vai embora. Não há outro. E Jesus lamenta e comenta com os discípulos não mais sobre aquele rapaz. O que Jesus afirma é mais amplo. Como é difícil o seguimento para os/as que possuem riquezas. O evangelho é radical. Não fala apenas do apego às riquezas, como muitos padres e pastores pregam. É mais radical. Não diz que é impossível, mas diz que é “muito difícil”. E o difícil não é (digamos na linguagem de hoje) ir para o céu. Isso, Deus é amor incondicional e universal e até a um rico tapado e ofuscado pela riqueza, a misericórdia divina salva. A dificuldade é mais concreta. É seguir Jesus. É mesmo ser discípulo/a do Evangelho.

Aquele personagem rico que procurou Jesus representa para o evangelho um tipo de Cristianismo burguês, de piedade de classe média acomodada. Revela uma religião tradicional sempre correta, uma boa tradição, etc. A insensibilidade social que caracterizou desde o começo a conversa do rapaz que só estava preocupado consigo mesmo “o que farei” leva quase inevitavelmente à insensibilidade de votar pela extrema direita, como o Cristianismo revela que em toda a sua história muitos pastores e fieis sempre fizeram. Infelizmente na história, os movimentos espirituais compreenderam de forma individual e moralista a condenação de Jesus à riqueza. Como se ser pobre fizesse alguém individualmente mais santo e pronto. Nos conventos, a pessoa faz voto de pobreza e de fato vive como pobre, sem mexer com a sociedade rica e às vezes até favorecendo-a com a sua pobreza. (Em conventos que conheço, quanto mais os frades e freiras são pobres, mais poupam, portanto, mais o convento enriquece). Muitas vezes, vi pessoas e grupos vivendo uma pobreza ascética, reacionária, alienada e cúmplice da desigualdade social e da opressão do sistema capitalista contra os pobres. Quando Jesus fala em “servir à riqueza” fala em se colocar a serviço do sistema econômico e social que mantém isso. É essa a questão.

Nesse domingo, no Vaticano, o papa Francisco proclama o bispo Oscar Romero como santo e mártir da Igreja Universal. Há três semanas, eu estava em El Salvador e estive na casa em que Romero vivia. Ali em um escrito de seus diários, li como em 1979 ele (Romero) se espantava de que as famílias de classe média e alta que até um ano antes eram suas amigas e o convidavam para tomar refeição em suas casas, todas se afastaram dele à medida que ele passou a defender os pobres, a justiça para os trabalhadores e a denunciar a violação dos direitos humanos no país. Romero vivia pobremente, em uma casa que parece o quarto de Dom Helder na Igreja das Fronteiras. No entanto, o que mudou a vida dele não foi isso. Foi quando ele deixou de “servir” aos interesses, à ideologia e ao mundo da riqueza. O teólogo Cecílio Lora, 92 anos, me contou que estava como assessor na conferência dos bispos Puebla (1979). De repente, um bispo o procurou e perguntou: “Quem é o teólogo que pode me ajudar não apenas a compreender melhor a teologia, mas como defender a vida do meu povo?”. Era Dom Oscar Romero. Penso que é essa a questão que esse evangelho coloca. Deus é Vida e vida para todos e em todos os níveis. O sistema do Mercado e do Capital é baseado na exploração do trabalho, da vida e da natureza. Por isso, é centrado na morte. Atualmente, servir a um ou a outro é o que se coloca em termos de Políticas no Brasil e em muitas partes do mundo. Mesmo se a atual luta da Democracia (no caso brasileiro, Haddad) não se propõe a romper com esse sistema (nem pode), mesmo dentro das regras institucionais do sistema vigente vai em uma direção que atenta mais à Vida do povo e à Justiça. Que essa palavra do evangelho, hoje, proclamada nas Igrejas, consiga despertar ao menos os cristãos para a tragédia que nos ameaça e possa, ainda, desarmar a bomba relógio que ameaça explodir sobre o país.

Por Marcelo Barros, FB -14 out 2018

Foto: 5ª Estação da Via-Sacra – obra do artista Fábio Costa/fabiocosta.art.br

 

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