O passado das CEBs explica, mas não sustenta o presente

Tem um problema sério nesse debate sobre as CEBs, porque muita gente ainda fala a partir da memória, não da realidade. E memória, quando vira referência única, distorce a análise.

Num processo de preparação de intereclesial, isso fica ainda mais evidente. Sempre reaparece, de um jeito ou de outro, um discurso que tenta sustentar uma vitalidade que, na prática, já não se verifica com a mesma força. É aí que uma leitura de conjuntura faz diferença. E trago o sociólogo Pedro Ribeiro ajudando a iluminar esse ponto. Lembro aqui, sem a pretensão de precisão literal, mas fiel ao sentido da análise, que não se trata apenas de um enfraquecimento das CEBs. O que mudou, de forma mais profunda, foi o tipo de sociedade que tornou possível o seu surgimento.

A base social que sustentava as CEBs era outra. Existia mais estabilidade territorial, mais convivência contínua, mais tempo coletivo. Hoje, a vida é atravessada por pressa, precariedade e individualização. As pessoas circulam mais, permanecem menos, se envolvem de forma mais pontual. Isso não combina com o tipo de organização que as CEBs exigiam.

E há um dado visível, concreto, que muita gente evita comentar, mas, basta olhar as fotos e vídeos que ilustram notícias de encontros regionais, diocesanos e paroquiais. O que aparece, em sua maioria, são cebianos e cebianas com cabelos brancos, com pouca presença de jovens. E isso não é uma crítica a quem resistiu e sustentou essa caminhada ao longo do tempo, muito pelo contrário. É um reconhecimento de quem segurou a história quando muitos já tinham saído. Mas, ao mesmo tempo, é um sinal claro de dificuldade de renovação geracional.

Então é preciso parar de tratar isso como se fosse apenas uma fase ruim ou falta de compromisso. Não é. É mudança estrutural. E estrutura não se resolve com vontade ou discurso.

Outro ponto que precisa ser dito, e quase nunca é dito com clareza, é que parte das CEBs também se institucionalizou demais ao longo do tempo. Perdeu espontaneidade, perdeu capilaridade, virou muitas vezes um espaço de militância já convencida, com pouca capacidade de renovar base. Isso também contribuiu para o esvaziamento.

Somando tudo isso, o resultado é direto. Como forma concreta de organização popular, as CEBs, em grande parte, se esgotaram. Não é questão de opinião, é constatação de quem olha o território.

E insistir em negar isso tem um efeito ruim. Impede que se enxergue o presente. Cria uma espécie de ilusão coletiva que trava a capacidade de reinvenção.

Mas aqui, a meu ver, entra o ponto mais importante. O fim de uma forma não significa o fim do que a gerou.

A força que deu origem às CEBs, muito ligada à Teologia da Libertação, continua existindo. Só que não está mais organizada do mesmo jeito. Está mais espalhada, menos visível, às vezes mais frágil, mas ainda presente.

A diferença é que hoje essa força não está concentrada numa estrutura. Ela aparece em experiências menores, mais fluidas, às vezes até fora dos espaços tradicionais da Igreja.

E é aqui que vem o choque de realidade para um intereclesial. Se continuar tentando reconstruir o que já não responde mais ao tempo, vai falar sozinho. Vai produzir documento bonito e pouca incidência real.

O desafio não é salvar a forma antiga. É ter coragem de reconhecer que ela não dá mais conta.

Sem isso, qualquer tentativa de reorganização vira repetição de um modelo que já perdeu base social.

Portanto, por uma questão óbvia, neste caso é mais honesto reconhecer que o esgotamento não é derrota, mas começo, ou até recomeço, e que isso pede algo ainda mais difícil, desapego.

Por fim, com urgência, menos discurso sobre o passado, mais lucidez sobre o presente. Como ensina Jesus Cristo, o vinho novo exige odres novos. O resto é insistência no que já não sustenta.

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