A interrogação presente no título deste texto não é apenas uma mera pergunta, mas uma provocação. Nesse sentido, entra em diálogo com o excelente artigo de Carlos Jardel, publicado aqui neste portal. Em seu texto, Jardel traz uma reflexão incômoda, mas muito necessária na atual conjuntura eclesial.
Ao afirmar que somente a memória do passado não explica a realidade atual das Comunidades Eclesiais de Base, Carlos Jardel traz um elemento fundamental para entender o papel que as CEBs ocupam hoje na Igreja do Brasil, quiçá na América Latina. E, infelizmente, muito distante daquele papel ocupado nas décadas finais do século XX.
É preciso dizer que houve – e ainda há – um enorme esforço de frações do catolicismo em combater, neutralizar e demonizar tudo aquilo que remetesse à Teologia da Libertação. Em tempos de redes sociais, quem quer que tenha presença pública e esteja nas redes é vítima de ataques e tratado como herege católico. Mas esse processo não é novo.
Hoje, certos segmentos católicos refletem um fundamentalismo que sangra a Igreja. É resultado de escolhas eclesiais equivocadas, cujos efeitos pastorais estão à flor da pele, e são trazidos na contundente reflexão de Jardel. Sua análise transcende às CEBs e poderia muito bem ser usada para explicar processos semelhantes nas Pastorais Sociais, na Pastoral da Juventude.
Mais até, é uma reflexão perfeitamente cabível para partidos de esquerda, movimentos sociais e sindicatos. Muita gente, de forma míope, entende ser apenas uma questão de retornar as bases… Desculpem-me quem pensa assim, mas muitos de nós nunca saímos das bases, muitas CEBs resistem heroicamente, mas mesmo assim não sensibilizam muitos mais corações e mentes onde estão. Por quê?
Em parceria com a historiadora Gláucia Lima, escrevemos um artigo a respeito, publicado em livro no ano de 2022. Nele, ao refletirmos sobre os ataques e o esvaziamento das Campanhas da Fraternidade, indicávamos os fatores de expansão e crescimento do fundamentalismo católico. Não podemos cair na tentação de achar que esse é um fenômeno recente. Naquele momento, apontávamos que o fundamentalismo foi sendo gestado nos últimos 30 anos, a partir de fatores internos e externos às dinâmicas da Igreja.
Neste sentido, ocorreram ao mesmo tempo fenômenos sociopolíticos, geoeconômicos e eclesiais que plantaram as sementes dos fenômenos a que hoje assistimos. A liberdade religiosa plena estabelecida pela Constituição de 1988 e a defesa do estado laico colocaram em xeque certa presença da Igreja junto ao poder público, sempre vista como natural em um país oficialmente católico.
Com o avanço da democracia no país, não fazia mais sentido temer represálias sociais por não ser católico. Mas outros fenômenos sociais ocorreram simultaneamente, influindo na vida interna do catolicismo brasileiro. Entre 1985 e 2000 tivemos as últimas grandes ondas do êxodo rural, que superpovoaram e expandiram as periferias das nossas maiores metrópoles.
Em tal expansão, assistimos ao surgimento das periferias profundas (periferias das periferias). Isso aconteceu nas franjas dos territórios (bairros, morros, favelas e cidades-dormitórios) onde anos de luta popular foram necessários para que a população local tivesse alguma dignidade. A organização destas inciativas locais é devedora das comunidades eclesiais de base.
Junto com a expansão das já imensas periferias, tivemos um período de grave crise econômica, cuja inflação penalizava a massa trabalhadora. O cenário era de extrema vulnerabilidade nas periferias das periferias, onde a fome e a miséria ganharam contornos de epidemia social. Também vieram a intensificação da violência urbana, inicialmente através do tráfico de drogas e das facções criminosas. Algum tempo depois, a chegada das milícias contribuiu para tornar ainda mais difícil a vida nessas localidades.
Os conflitos entre criminosos e a polícia impactaram as redes de solidariedade e de mobilização que a Igreja possuía através das CEBs. Movimentos sociais foram solapados nesses territórios e criminosos passaram a controlar o cotidiano local, como o ir e vir das pessoas, reduzindo a oferta de transporte público e inviabilizando atividades noturnas.
Na década final do século XX começamos a sentir mais intensamente as mudanças no mundo do trabalho, com a globalização e o neoliberalismo. O aumento do desemprego, a ampliação do trabalho informal e o desemprego nas fábricas reconfiguraram a vida das trabalhadoras e trabalhadores.
Uma pequena parcela da população mais pobre até conseguiu se recolocar no comércio e nos serviços, que passam a oferecer a maior parte dos postos de trabalho. Ao mesmo tempo, os sindicatos perdem força, os salários são cada vez mais baixos e o tempo para o lazer, o convívio familiar e a vida comunitária se tornam restritos. Passa a ser normal trabalhar nos finais de semana e a escala 6×1 se torna a jornada preponderante dos mais empobrecidos e com menor nível de escolaridade.
A virada de século também é fortemente marcada pelos impactos da chamada era digital e das tecnologias de informação e comunicação. É o momento da popularização da internet, dos telefones celulares (os smartphones surgirão na década de 2010) e das salas de bate-papo, precursoras das redes digitais de hoje em dia.
Exatamente nesse momento histórico, a Igreja no Brasil começa a sentir os efeitos das mudanças implementadas no comando do catolicismo brasileiro a partir de mudanças na leitura do Concílio Vaticano II e na visão de Igreja que deveria ser implementada na América Latina. A periferia se agigantou exatamente no momento em que a Igreja fez outras escolhas pastorais.
Embora João Paulo II tenha sido eleito em 1978, foi no final dos anos 1980 que se intensificaram os efeitos de suas políticas de reordenamento eclesial, chamada pelo teólogo João Batista Libânio de “volta à grande disciplina”. O alinhamento conservador imposto a partir de Roma teve consequências diretas na formação do clero, na censura ao pensamento teológico, na escolha dos bispos para as principais dioceses e no silenciamento de movimentos leigos.
Em artigo escrito em 2000, o saudoso Luiz Alberto Goméz de Souza apontava o clima asfixiante que envolveu a conferência do episcopado latino-americano e caribenho realizada em 1992, na capital da República Dominicana. Essa asfixia era um reflexo do enquadramento desencadeado pela Cúria de Wojtyla em relação ao catolicismo do continente.
Por trás desses movimentos, o objetivo era bem claro: Reordenar a Igreja na América Latina e, de forma contundente, no maior país católico do mundo, o Brasil. Para tanto, se fazia necessário combater metodicamente a Teologia da Libertação e seus frutos no continente.
O Papa polonês já havia interferido diretamente em algumas ordens religiosas, estabelecido uma nova ordem jurídico-eclesial com o Código de Direito Canônico de 1983. Como alternativa pastoral, apelava para uma Nova Evangelização. Consequentemente, não pretendia contar com as congregações religiosas como fez João XXIII e Paulo VI em relação ao Concílio.
A restauração romana desejada por João Paulo II passava por um conjunto de novos movimentos eclesiais, não necessariamente inseridos nas estruturas da tradicional paróquia católica. Uma parte destes grupos é anterior ao Vaticano II, porém todos eles estavam engajados no projeto de uma Nova Evangelização na Igreja.
Esses movimentos, estimulados pelo então Pontífice a se lançarem em missão, tiveram expansão significativa e incidiram diretamente sobre a vida eclesial na América Latina. Destacaram-se os Legionários de Cristo no México, o Sodalício da Vida Cristã no Peru e o pentecostalismo católico (a Renovação Carismática é sua maior expressão e sua grande matriz eclesiológica) em nosso país.
No Brasil, foram estrategicamente usados para se antepor e mesmo combater diferentes expressões muito influenciadas pela Teologia da Libertação, notadamente a CEBs e a Pastoral da Juventude. Em algumas realidades eclesiais, a forma de ser pentecostal-católica fagocitou a formação do clero, a estrutura de pastoral e a organização eclesial, alcançando inclusive as comunidades de base.
Determinadas conjunturas diocesanas foram profundamente afetadas pela presença desses organismos católicos. Em certas circunstâncias, suas estruturas de funcionamento copiaram estruturas de pastoral já existente. Não foram poucas as vezes em que foram acusadas de instituir, naquele momento histórico, formas paralelas de organização em relação às já estabelecidas pela CNBB. Vale lembrar, o perfil do episcopado brasileiro era diferente do atual.
Foi neste momento que ganharam força e visibilidade grandes eventos de massa promovidos por esses segmentos, sobretudo no seio do pentecostalismo católico. Nessa mesma “onda”, surgiu o fenômeno dos “padres-cantores”, usando uma estética clerical tradicional (clergyman e batina). A presença pública destes clérigos seria uma resposta aos apelos de João Paulo II por uma “Nova Evangelização”.
A aceitação desses grupos e movimentos em diferentes ambientes eclesiais não foi apenas um efeito das modificações no perfil do catolicismo vindas do Vaticano. As escolhas de bispos mais alinhados com as orientações de Roma e tendência de queda no número de fiéis católicos, apontadas pelas pesquisas demográficas, também tiveram forte influência.
Nesse contexto, muita gente acreditou que eventos de massa, uma pastoral mais voltada para questões celestiais e a emoção de uma vivência religiosa sem preocupações sociais atrairiam as pessoas de volta à igreja. Houve um forte apelo, apoiado por uma parcela do episcopado, por uma espécie de “novo pentecostes” católico.
Além disso, vários desses movimentos da chamada Nova Evangelização tinham vinculações estreitas com a direita. Contudo, para além da política, o apoio de Roma produziram marcas profundas no catolicismo brasileiro. A opção pastoral pelos movimentos da Nova Evangelização lançou sementes que germinaram lentamente, cujos efeitos passamos a sentir nos últimos 15 anos.
Da mesma forma, as mudanças socioeconômicas, políticas e culturais que estavam em curso no Brasil produziram um novo perfil social, sobretudo nas periferias. Aprofunda-se a reconfiguração do campo religioso brasileiro, confirmando as projeções de queda no catolicismo, já apontada pelo Censo Demográfico do IBGE desde 1990.
Naquele momento, as transformações na economia causaram enorme abalo no mundo do trabalho. Direitos dos trabalhadores, foram revogados ou revistos, como a questão das aposentadorias e o direito à horas extras. Naturalizou-se o trabalho nos finais de semana, sobretudo no comércio. Hoje, a precarização se aprofundou com a contratação nas plataformas digitais, por aplicativos.
Muitas atividades profissionais desapareceram e surgiram novas, atreladas à informática e à internet. Nas décadas iniciais deste século, lentamente assistimos o surgimento das redes digitais e a evolução dos aparelhos celulares, que modificaram nossa rotina. A comunicação em vídeo passou a ser quase instantânea, e videoconferências se tornaram acessíveis a grande parte das pessoas.
No catolicismo, assistimos paulatinamente o ressurgimento do tradicionalismo. Estimulados pela decisão de Bento XVI, que ampliou a oferta das missas em Latim, esses grupos foram pioneiros na comunicação através das redes digitais. Embora sejam pouco numerosos, trazem uma percepção sobre a Igreja que ganhou adeptos e muitos seguidores na Internet. A presença virtual dessas frações ultraconservadoras trouxeram grande pressão no dia a dia da vida católica, gerando novas relações na Igreja e produzindo certa estética que resgatou simbolismos e formas de se vestir anteriores ao Concílio Vaticano II.
Ao mesmo tempo, na medida em que avançou o inverno eclesial que caracterizou os dois pontificados anteriores a Francisco, reforçou-se um modelo de Igreja mais piramidal, fundamentada no clericalismo. O retorno do uso de vestes indicativas da condição sacerdotal (clergyman, batina e até barrete!), uma certa infantilização do laicato e o rigorismo litúrgico são característicos dessa forma de organização da vida católica.
As transformações que foram descritas revelam mais que uma época de mudanças, mas uma mudança de época. As formas de ser, a influência do mundo digital em nossa vida, as necessidades atuais de sobrevivência e os impactos da violência produziram alterações na vida social que são irreversíveis.
Muitas vezes só resta a religião na vida das pessoas para suportar o cotidiano de frustrações, dores e medos. A fé se torna suporte vital que permite a muita gente lidar com os desafios da vida contemporânea, sobretudo para quem se encontra em grande vulnerabilidade social. O apelo emocional, a catarse, a segurança da proteção divina oferecem estabilidade emocional e confere certa dignidade à pessoa que geralmente lhe é negada em outras esferas da vida social.
Essa espécie de cidadania religiosa é recebida como algo que se opõe a toda e qualquer diversidade e aos “perigos do mundo lá fora”, virando terreno fértil para o fundamentalismo religioso e a dominação política. Como a vida em sociedade se tornou muito individualista, a experiência de fé, mesmo em espaço comunitário, tende a se tornar unilateral, onde cada pessoa se relaciona somente com Deus.
A dimensão da solidariedade com o outro, da aceitação da diversidade como dom é negligenciada, desaparecendo totalmente ou, na melhor das hipóteses, ficando em segundo plano. Quando muito, apenas se manifesta em ações sociais assistenciais, não poucas vezes sendo uma estratégia para conquistar mais adeptos.
Diante de um cenário sociorreligioso como o atual é que se constata a pertinência da argumentação de Carlos Jardel em sua última coluna no Portal das CEBs. Ao afirmar o esgotamento do modelo das comunidades de base, ele provavelmente considerou as transformações que foram descritas neste texto.
Os fatores que foram elencados na reflexão aqui desenvolvida são históricos, produto de muitas transformações de diferentes eixos da vida brasileira e do catolicismo. São fenômenos sociais que atravessaram as CEBs, independentemente da vontade de seus agentes e de quem as promovia e produziram a conjuntura católica em que estamos e redefiniram o campo religioso brasileiro.
No contexto da Igreja Católica, são resultantes de opções e medidas cujo objetivo era desmonte e o esvaziamento das comunidades eclesiais de base, dentro da finalidade maior que seria combater a Teologia da Libertação. Tal intento não se realizou, a beleza e a riqueza dos Encontros Intereclesiais estão aí para demonstrar a resiliência de suas lideranças e sua fidelidade ao projeto de uma Igreja que se faz Povo de Deus. Por outro lado, precisamos reconhecer o esvaziamento eclesiológico das CEBs. Elas foram a maior inovação produzida na Igreja como fruto do Concílio Vaticano II e de sua tradução para a realidade latinoamericana que foi a conferência de Medellín.
Entretanto, as CEBs que eram entendidas como um “novo jeito de ser Igreja” para ser alternativa às estruturas pré-conciliares da grande paróquia católica foram sendo reduzidas em seu sentido maior. O que foi compreendido no passado enquanto eclesiogênese ou uma “Igreja que nasceria do Povo” foi sistematicamente esvaziado para, em determinados contextos diocesanos, se tornarem apenas mais um dos movimentos e estruturas católicas existentes no ambiente paroquial.
Em paralelo a esse processo, a própria dinâmica do campo progressista nas últimas décadas gerou tensões e contradições internas, acentuando os processos acima descritos. Nesse sentido, o texto provocador de Jardel revela grande coragem, ao lançar luz em alguns limites da trajetória das CEBs. Como já foi escrito, não se trata de decretar a morte das CEBs nem o fim da Teologia da Libertação.
Contudo, é urgente repensar a história e o caminho percorrido até aqui, sem idealizações nem tapando o sol com a peneira. Se queremos um futuro para as comunidades eclesiais de base, precisamos reinventar o presente e ressignificar o passado. Sem isso será impossível enfrentarmos nossas próprias contradições.
* Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor do IFRJ. Integra o Movimento Fé e Política no Rio de Janeiro.
