Perspectivas para as CEBs

Perspectivas para as CEBs no pontificado de Francisco

Autoria: Iser Assessoria

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) constituem um dos frutos mais importantes do Concílio Vaticano II na América Latina. Elas são um “jeito antigo e novo de ser Igreja”, como escreveu o cardeal Raimundo Damasceno, presidente da CNBB, na mensagem enviada aos participantes do 13º. Encontro Intereclesial das CEBs. 

As CEBs vivem um momento particularmente favorável em nosso país: foram tema prioritário da Assembleia dos Bispos em 2010, receberam o apoio do papa Francisco em diferentes situações e o 13º. Intereclesial, realizado em janeiro de 2014 em Juazeiro do Norte, foi um sucesso.

O episcopado brasileiro aprovou em sua assembleia de 2010 uma mensagem de animação para as CEBs (Mensagem ao Povo de Deus sobre as Comunidades Eclesiais de Base – Documentos da CNBB n. 92). Na apresentação do documento, o secretário geral da CNBB afirma que:

“Elas representam uma maneira de ser Igreja, de ser comunidade, de fraternidade, inspirada na mais legítima e antiga tradição eclesial. Teologicamente são, hoje, uma experiência eclesial amadurecida, uma ação do Espírito no horizonte das urgências de nosso tempo”.

Desse modo, os bispos manifestaram seu apoio e reconhecimento às CEBs: “queremos reafirmar que elas continuam sendo um sinal de vitalidade da Igreja”.

Também o Papa Francisco manifestou seu reconhecimento às CEBs em três ocasiões recentes. Durante sua viagem ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, em 2013, no discurso aos bispos membros do CELAM, Francisco falou sobre uma tentação muito atual na América Latina:

“O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina. (…) A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos conselhos pastorais está na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical”.

Além disso, em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Francisco afirmou que as CEBs “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja” (EG, 29). E para coroar este reconhecimento, o papa enviou uma carta aos participantes do 13º. Encontro Intereclesial das CEBs, assinalando sua contribuição no serviço de evangelização: “De fato, o lema deste encontro ‘CEBs, Romeiras do Reino, no Campo e na Cidade’ deve soar como uma chamada para que estas assumam sempre mais o seu importantíssimo papel na missão Evangelizadora da Igreja”.

A vitalidade das CEBs foi demonstrada neste último Encontro Intereclesial. Cerca de quatro mil delegados de todo o país (sendo três mil e quinhentos leigos e leigas) celebraram, contaram suas experiências, ouviram seus companheiros e companheiras de caminhada, escutaram as contribuições de assessores/as. É opinião unânime que o Encontro foi marcado por grande entusiasmo. A presença do vice-presidente e do secretário-geral da CNBB, junto com outros 70 bispos, reforçou a importância das CEBs na Igreja do Brasil. Participaram também 146 religiosas e religiosos e 232 presbíteros, além de 75 lideranças indígenas, 20 representantes de igrejas cristãs e 35 de outras religiões e 36 estrangeiros.

No final, os bispos presentes divulgaram uma carta aos membros das CEBs:

“Estamos vendo como as CEBs estando enraizadas na Palavra de Deus, aí encontram luzes para levar adiante sua missão evangelizadora.  (…) Desse modo, cada comunidade eclesial vai sendo sal da terra e luz do mundo animando os seus participantes a darem esse mesmo testemunho. (…)

Nossa palavra é de esperança e de ânimo junto às comunidades eclesiais de base (…). Que não se cansem de ser rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças, como nos exorta o querido Papa Francisco (cf. EG 49).

Para tanto, reafirmamos, junto às Cebs, nosso empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão”.

Tudo isso indica que podemos estar diante de uma nova primavera para as CEBs no Brasil, com a retomada do fôlego dos períodos mais dinâmicos de seus crescimento, irradiação e fortalecimento em nosso país.

A atuação dos membros das milhares de CEBs existentes no Brasil continua produzindo transformações na Igreja e na sociedade local. De fato, as comunidades de base realizam um trabalho de grande valor, reúnem as pessoas dos setores populares, renovam sua fé, alimentam sua esperança, impulsionam a ação de partilha e solidariedade entre os pobres. Elas celebram a vida simples do povo, suas alegrias e dificuldades, seu anseio e suas lutas por um mundo mais justo. As CEBs realizam na base da Igreja e da sociedade o que o Papa Francisco indica como missão evangelizadora da Igreja.

Mesmo atravessando um tempo favorável, com o reconhecimento do Papa e do episcopado brasileiro, em algumas dioceses ou paróquias as CEBs enfrentam dificuldades, não são consideradas no planejamento pastoral, não recebem o acompanhamento necessário na prática não são vistas como “célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e, atualmente, fator primordial da promoção humana”, como afirmaram os bispos na Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs, retomando em 2010 a expressão consagrada no Documento de Medellín. Desse modo, sua importância eclesial e social não tem sido totalmente reconhecida, o que mostra as contradições da conjuntura presente. Nas últimas décadas, em determinados contextos eclesiais, houve um acento na visibilidade da identidade católica, reforçando uma concepção de igreja mais voltada para si mesma, em detrimento de uma perspectiva em que a igreja sai às ruas para se posicionar diante das situações que afligem a humanidade. Desse modo, alguns movimentos eclesiais tiveram prioridade no planejamento da ação evangelizadora e, em muitos casos, as CEBs foram relegadas a um segundo plano. E há novos desafios no âmbito da sociedade, como a concentração da população brasileira no meio urbano (85%), que exige uma ação pastoral diferente da época em que surgiram as CEBs, em que país tinha um caráter mais rural.  

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