Cultivar um saudável realismo na política

            Em sua Encíclica Magnífica Humanidade: “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência artificial”, Leão XIV nos confronta com o desafio da construção da “civilização do amor” em meio à expansão de uma “cultura do poder”. Ele parte da constatação de que “vai se consolidando uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão, relegando o bem comum da humanidade ao segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma variável secundária face aos interesses estratégicos” (MH 188). Afirma que “a construção de um mundo em estado de beligerância permanente é um mal” a ser denunciado (MH 110). E recorda que, “mesmo nas noites mais escuras, o Senhor suscita homens e mulheres capazes de não se resignarem e de perseverarem no bem”, advertindo que “a graça não elimina o conflito com um gesto mágico, mas gera uma ativa resistência ao mal e uma surpreendente criatividade no bem” (MH 211).

            Nesse contexto, convoca à construção da “civilização do amor”. Insiste que “todos podemos fazer a nossa parte” (MH 212-213). Fala da importância e necessidade de “desarmar as palavras” (MH 214), “construir a paz na justiça” (MH 215), “assumir o olhar das vítimas” (MH 216-217), “cultivar um saudável realismo” (MH 218), “revitalizar o diálogo” (MH 219), promover a “diplomacia” e o “multilateralismo” (MH 224-227), “rezar e ter esperança” (MH 228). Frente a toda forma de pessimismo e resignação, Leão XIV insiste que “a civilização do amor não é uma utopia ingênua, mas um projeto exigente. Consiste na tradução da caridade em estruturas de justiça, em dar corpo institucional à fraternidade e em considerar o outro – seja ele uma pessoa ou um povo – como aliado necessário na construção do bem comum (MH 186).

            Um ponto fundamental na construção da civilização do amor é cultivar “um saudável realismo, que evite tanto o idealismo político como o cinismo” (MH 218). Frente ao idealismo que vive em torno de uma realidade construída idealmente e frente a um realismo degradado que confunde constatação com resignação, Leão XIV insiste num realismo autêntico que não renuncia a mudar o mundo. Esta postura “começa vendo com clareza os interesses, os medos, os vínculos e as relações de força, precisamente para calcular o que é possível alcançar e com que mudanças. Não reduz a política à moralidade, mas também não entrega à violência: procura soluções viáveis para que a paz seja mais do que uma palavra, ou seja, instituições credíveis, garantias verificáveis, negociações pacientes, prevenção de conflitos e proteção dos civis” (MH 218).

            Isso que vale para pensar e promover a paz num mundo de guerra, vale também para o discernimento político em um processo eleitoral. A política não funciona na base do “tudo ou nada”. É preciso discernir e escolher, dentre as possibilidades disponíveis, a que mais favorece o bem comum, a justiça social e a proteção ambiental. Embora por razões diferentes, tanto o idealismo (política ideal) como o realismo degradado (fatalismo e resignação) termina sendo uma forma sutil de “lavar as mãos” diante de situações tão decisivas para a sociedade. Diferente do realismo autêntico, que avalia de modo crítico as possibilidades realmente existentes e decide por aquela que mais corresponde ou favorece às exigências evangélicas de construção de uma sociedade mais justa e fraterna e de cuidado da casa comum. Isso não significa apoio incondicional e ausência de críticas, nem submissão e subserviência a nenhum partido ou candidato. Significa compromisso ético-espiritual (não apenas discurso!) com a construção do bem comum.

            No caso específico dessas eleições no Brasil, uma vantagem é que os dois projetos de governo, representados pelos dois candidatos, são bem conhecidos. E não apenas pelos discursos, mas pela prática política e mesmo governamental. É importante comparar os projetos e as práticas político-governamentais de ambos os candidatos. E, a partir do Evangelho de Jesus Cristo e do Ensino Social da Igreja, fazer algumas perguntas: favorece e promove justiça social, direitos humanos, direitos trabalhistas, políticas públicas, proteção ambiental, democracia, soberania etc.? Ou favorece e promove concentração de renda, cortes em políticas sociais, destruição de direitos trabalhistas, aversão a direitos humanos, destruição ambiental, ataques à democracia e à soberania?

            “Não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras de nosso tempo” (MH 16)! Não deixemos de votar! Não sejamos como Pilatos! Votemos pensando no bem comum, na justiça social e ambiental! Votemos pensando nos pobres, marginalizados e oprimidos da sociedade. Vetemos pensando no cuidado de nossa casa comum!

            Bom discernimento!!!

Bom voto!!!


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