Nós temos uma grande dificuldade em perceber que a fé tem uma dimensão política. Isso se deve a duas razões fundamentais: por um lado, não fomos devidamente formados para o que seja política; por outro, na pregação religiosa nunca esteve muito presente a preocupação com os grandes problemas religiosos. Assim, política acaba sendo associada a partido e candidatos; e religião é associada a reza e devoção. Mas um olhar, ainda que breve e superficial, sobre a Escritura e a tradição da Igreja nos ajudará a perceber que a fé tem uma dimensão política e social que lhe é própria, fundamental.
O Papa Leão XIV, na sua exortação apostólica Dilexi Te sobre o amor aos pobres, faz um breve apanhado de como essa preocupação social e política a partir da fé está presente desde a Escritura, passando pelos Padres da Igreja e pelos demais santos de sua história até chegar aos dias atuais. É de grande importância a leitura desse documento para nos ajudar a crescer nessa compreensão de que os pobres estão no centro do Evangelho e, por isso, devem estar no centro de nossas preocupações pastorais. E isso também é fazer política.
O Papa alerta que “se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres” (DT 15). E sintetiza esse aspecto presente na Escritura ao afirmar que: “Toda a história do Antigo Testamento sobre a predileção de Deus pelos pobres e o desejo divino de ouvir o seu clamor – que evoquei brevemente – encontra em Jesus de Nazaré a sua plena realização” (DT 18). Deus se revela como libertador e que escuta o grito de seu povo oprimido no Egito, desce para libertá-lo e envia Moisés, seus companheiros e companheiras como mediadores dessa missão (Ex 3). Enviou muitos profetas para recordar a justiça e o direito, profetas que enfrentaram reis, sacerdotes, comerciantes, juízes e até outros profetas para defender a Palavra do Senhor e seu povo (Am 2,6-7; Is 1,16-17; Mq 3,11).
Os Padres da Igreja também têm reflexões belíssimas sobre o cuidado com os pobres e a busca da justiça. Leão XIV mesmo escreveu que “a teologia patrística foi prática, apontando para uma Igreja pobre e para os pobres, recordando que o Evangelho só é bem anunciado quando leva a tocar a carne dos últimos, e alertando que o rigor doutrinal sem misericórdia é palavra vazia” (DT 48). Essa compreensão de que a fé nos envolve na construção de um mundo mais justo e fraterno e no combate às injustiças ganhou uma nova força com a organização desses princípios naquela que ficou conhecida como Doutrina Social da Igreja, principalmente a partir da encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII em 1891. Depois dela, vieram muitos outros documentos da Igreja. O Concílio Vaticano II deu uma profunda contribuição nesse sentido, principalmente com um documento chamado Gaudium et Spes, que já inicia com essas palavras proféticas: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS 1).
O Papa Leão XIV também faz uma síntese muito interessante dos documentos do magistério sobre a Doutrina Social em sua recente encíclica Magnifica Humanitas. Nela, o Papa também recorda, no segundo capítulo, alguns fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja. Dentre os fundamentos, cita a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus, a igual dignidade de todas as pessoas e a importância dos direitos humanos. Dentre os princípios da Doutrina Social, o Papa recorda o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social.
Tudo isso para nos ajudar a entender algo que deveria estar claro para todos que dizem crer em Jesus, mas infelizmente não está. Política, no seu sentido mais profundo, é a busca por organizar a sociedade de modo justo para todos e todas em vista do bem comum. E a missão da Igreja toca nesse ponto também, pois, como lembrou o Papa Francisco, tem a ver com a construção do Reino de Deus entre nós: “trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (EG 180). Por isso, a fé tem uma dimensão política que lhe é própria. Ou seja, a preocupação em construir uma sociedade justa, fraterna e igual, isto é, um mundo segundo a vontade de Deus. E isso é política também.
Infelizmente, temos dificuldade em assumir essa dimensão política da fé porque, além das razões apresentadas no início (má compreensão do que seja política e do que seja a fé), ainda temos casos históricos do desastre que foi quando a religião se aliou oficialmente ao Estado. Mas aí vem uma outra questão importante: se a fé tem uma dimensão política, também é verdade que nem toda relação fé e política é correta e coerente com o Evangelho. São Oscar Romero já escreveu que “a fé cristã e a atividade da Igreja sempre tiveram repercussões sociopolíticas. Por comissão ou omissão, associando-se a um ou a outro grupo social, os cristãos sempre exerceram influência no esquema sociopolítico do mundo em que viveram. O problema reside no ‘agora’ desta influência no mundo sociopolítico, para verificar se ela está ou não de acordo com a fé”. A Igreja sempre esteve envolvida com política, como, aliás, todas as pessoas estão. A questão é como viver essa política. Durante um longo período na história, chamado de cristandade, a Igreja esteve profundamente unida aos Estados, e isso não significou uma sociedade cristã, isto é, com o jeito do Cristo. Pois, apesar de sinais de cuidado com os sofredores, a Igreja acabou abençoando e legitimando estruturas que geravam sociedades injustas. Curioso como os grupos que mais criticam o envolvimento da Igreja com as questões sociais são os que mais defendem monarquia, criticam o Estado laico e apoiam abertamente seus candidatos políticos. A questão não é se a fé tem a ver com política, mas que forma de exercer a política está de acordo com a fé.
Todos fazemos política de um modo ou de outro. Todos precisamos de postos de saúde, hospitais, escolas, estradas, esportes, segurança pública. Tudo isso tem a ver com política. Então, mesmo que alguém diga que não quer saber de política, está envolvido com ela. A questão é: vamos buscar fazer alguma diferença na política? Ou continuaremos sendo arrastados por ela e aceitando o mundo como está? As eleições constituem uma forma fundamental de participação na política, mas esta não é a única. Exigir direitos, se informar, se organizar, participar dos conselhos municipais e estaduais, greves, passeatas, debates — tudo isso faz parte da ação política. E os cristãos não podem estar fora disso. Pois nossa fé nos compromete à vida e à vida em abundância, como ensinou Jesus (Jo 10,10). Isso não significa criar um partido “cristão” nem defender pautas de costumes que dizem respeito apenas a uma religião. Trata-se de lutar por uma sociedade justa para todos. Não adianta o candidato dizer que defende a família e a fé e votar em projetos que ferem a sociedade, como enfraquecimento das leis ambientais, manutenção da escola 6×1, marco temporal.
O compromisso político da fé não é fazer da Igreja palanque para candidato A ou B, mas defender os valores fundamentais da Doutrina Social da Igreja, como os recordados pelo Papa Leão: bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça social. As eleições estão aí! É preciso votar com consciência e com fé, comprometidos com uma sociedade mais acolhedora e justa, sinal do Reino de Deus, como ensinou Jesus. Será que pensamos nisso na hora de votar?
