O livro de Daniel foi escolhido para ser estudo no mês da Bíblia este ano. É um livro que traz um tipo de escrita nova, é cheio de cenas marcantes e profundas críticas sociais, traz uma criatividade própria. É um grande convite a nos comprometermos com um mundo onde não são os impérios tirânicos que governam, mas onde o Reino de Deus vai acontecendo na prática da justiça, na vivência da vontade do Senhor.
Quando olhamos o livro de Daniel, precisamos distinguir duas coisas: uma é o tempo da história por ele contada, outra é o tempo em que o texto foi escrito. O livro é do século 2º a.C., mas apresenta o contexto de sua história se passando séculos antes. Inclusive, o personagem Daniel já foi citado no livro do profeta Ezequiel (14,14.20; 28,3), que veio muito antes. O autor escreve num período de perseguição, quando seu país era governado por um tirano, um homem realmente mau e cruel, o rei grego Antíoco IV Epífanes. Ele então usa como estratégia falar sobre a realidade de seu tempo, mas escrevendo como se aquilo se passasse séculos antes, no tempo da dominação dos babilônicos (com os reis Nabucodonosor e Baltazar) ou da dominação persa (com os reis Ciro e Dario). Comparado com nossa história recente, é como se alguém quisesse fazer uma crítica ao governo no período da ditadura militar, mas escrevesse falando de Dom Pedro II, que governou muito antes. Critica-se o presente, mas apresentando-o de modo que pareça algo do passado.
O livro de Daniel tem três partes principais. A primeira (cap. 1-6) traz um conjunto de histórias edificantes para falar da importância da fidelidade a Deus, mesmo nas perseguições, e como o Senhor não abandona seus justos. Na história, Daniel e seus amigos Ananias, Misael e Azarias são levados para a Babilônia durante a invasão deste império ao Reino de Judá (2,25). Eles são descendentes da dinastia de Jerusalém (1,3.6). Na Babilônia, servem na corte do Rei e têm seus nomes mudados: Daniel vira Baltassar, Ananias vira Sidrac, Misael vira Misac e Azarias vira Abdênago. Daniel passa a interpretar as visões e sonhos dos reis (cap. 2; 4; 5). Seus amigos (cap. 3) e ele mesmo (cap. 6) são sentenciados à morte por sua fé, por sua fidelidade a Deus, mas escapam por força do Senhor. Os três jovens da fornalha ardente e Daniel da cova dos leões.
A segunda parte (cap. 7-12) apresenta um conjunto de visões, agora do próprio Daniel. Elas trazem monstros que representam os muitos reinos que dominaram sobre Israel, mas todos cairiam, pois só o Reino de Deus permaneceria para sempre. Nesta parte, fica mais clara a crítica ao rei de seu tempo, o terrível Antíoco IV Epífanes. Ele é o último chifre que cresceu na quarta fera e pronunciava blasfêmias (7,8.24-25); ele é o bode feroz que derrota o carneiro de enormes chifres da visão (8,21-24); dele falava o anjo da visão de Daniel (10,20), é o rei miserável e desprezível que surgiria no cenário mundial das disputas por poder (11,21). A terceira parte (cap. 13-14) só está presente na versão grega e não é aceita como texto inspirado pelos judeus nem pelos protestantes. Traz a história de Susana, mulher inocente que é caluniada e salva por Deus, e a crítica à idolatria por meio das histórias de Bel e do dragão.
O livro de Daniel foi escrito em três línguas. Ele tem partes hebraicas (1,1-2,4a; 8,1-12,13), aramaicas (2,4b-7,28) e gregas (3,24-90; 13-14). Mostrando assim que teve um complexo processo de escrita. O autor deve ter tomado histórias que recebeu da tradição e deu seu toque pessoal ao texto, segundo a mensagem que desejava passar. O livro é o grande exemplo de literatura apocalíptica presente na Escritura. É um tipo de escrita marcada por visões reveladas ou explicadas por anjos, histórias cheias de símbolos e figuras fantásticas. Um tipo de escrita que visa dar esperança num tempo de perseguição e sofrimento. Com essa forma de escrita, surgem três ideias muito importantes que estão presentes no livro de Daniel: Reino de Deus, Ressurreição, Filho do homem.
O Reino do Senhor virá e vencerá todos os demais reinos; o livro é uma crítica radical a toda dominação e imperialismo; Daniel apresenta o plano de Deus presente na história (juízo e salvação); Javé é o Deus do Céu, o Deus universal de todos os povos. A Ressurreição já aparecia em Ezequiel como o voltar a vida de um povo (Ez 37), mas Daniel é o primeiro livro que fala de Ressurreição pessoal (Dn 12), afinal, num período onde os justos eram perseguidos e mortos, era importante entender que a vida do justo não finda com a morte, que por mais que parece, ele não foi derrotado. Já o Filho do homem é um personagem enigmático, pode ser tanto um anjo do Senhor a quem ele confia o cuidado do seu Reino, quanto representação dos santos do altíssimo que permanecem fiéis a Deus. Os primeiros cristãos viram em Jesus esta figura do Filho do homem que veio instaurar definitivamente o reinado de Deus.
O livro de Daniel nos ensina a sonhar e anunciar o reinado de Deus, enfrentando toda forma de autoritarismo e injustiça que fazem o povo sofrer. Que possamos, então, encarar de frente as feras que nos ferem, cientes de que toda dominação tem os pés de barro (2,32-35) e pode cair.
